O setor mineral brasileiro vive um momento de inflexão na sua relação com o sistema financeiro. Pela primeira vez em duas décadas, grandes bancos comerciais estruturam áreas dedicadas à mineração, fundos de private equity especializados captam recursos em escala e o BNDES posiciona minerais críticos como prioridade estratégica do banco. O diagnóstico, porém, é de um mercado ainda em construção — pressionado por incertezas regulatórias, volatilidade de commodities e pela tensão entre o tempo geológico dos projetos e o tempo financeiro dos investidores.
Esse foi o tom predominante do painel sobre financiamento à mineração realizado durante o XII Simpósio Brasileiro de Exploração Mineral (SIMEXMIN 2026), promovido pela Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (ADIMB) entre 17 e 20 de maio em Ouro Preto, edição que celebra os 30 anos da entidade. O debate, articulado pela Rede Invest Mining— iniciativa colaborativa que reúne ABPM, ADIMB e IBRAM com apoio do BNDES, Apex Brasil, ANM, Ministério de Minas e Energia e Serviço Geológico do Brasil —, colocou frente a frente representantes do principal financiador público do setor, gestoras especializadas em mineração e CEOs de empresas em diferentes estágios de maturidade.
O recurso financeiro corre atrás do mineral
A frase que sintetizou o momento atual veio de Eduardo Cardoso, CIO e sócio da Ore Investiments no painel: “Estamos no momento em que o recurso financeiro está correndo atrás do recurso mineral.” A inversão, segundo ele, é histórica. Em ciclos anteriores, eram os mineradores que perseguiam capital. Hoje, com a corrida global por minerais críticos e estratégicos para a transição energética, ativos brasileiros entraram no radar de fundos internacionais, tradings, OEMs de tecnologia e até de governos”.
O dado mais expressivo do novo ciclo veio da apresentação de Flávio Mota, chefe do Departamento de Indústria de Base Extrativa do BNDES. Ele informou que a chamada pública lançada pelo banco no final de 2024 para apresentação de planos de negócio em transformação mineral — desde o upstream até o produto manufaturado — esperava atrair R$ 5 bilhões em propostas. Recebeu R$ 85 bilhões em 124 planos de negócio, dos quais 56 foram selecionados, totalizando R$ 46 bilhões em investimentos previstos. Minas Gerais e Bahia concentram parcela majoritária dos projetos.
“O BNDES, que estava muito próximo dos grandes atores do setor, passa a se aproximar das junior mining companies, que são as principais detentoras dos direitos minerários sobre ativos de minerais críticos e estratégicos”, explicou o executivo do banco. O movimento se materializou no FIP Mineral, fundo de investimento em participações estruturado em parceria com a Vale para apoiar micro, pequenas e médias empresas de mineração, com foco em minerais críticos, estratégicos e da segurança alimentar — potássio, fósforo e remineralizadores.
O banco também atualizou em 2025 sua Política Socioambiental e Climática para a Mineração, incorporando a esfera climática às dimensões de meio ambiente, comunidade e segurança do trabalhador. Para Flávio Mota, esse regulamento passa a ser o direcionador de todas as análises de projetos do setor.
Os três desafios estruturais
O executivo do BNDES sintetizou em três blocos os desafios para destravar capital no setor: mercado, geopolítica e questões socioambientais e climáticas. No primeiro pilar, a ausência de contratos de off-take com volume, preço e prazo definidos para minerais críticos foi apontada como o principal obstáculo à estruturação de project finance — modelo que funciona no setor elétrico brasileiro graças a contratos de longo prazo, mas que ainda precisa ser adaptado à realidade da mineração de commodities.
No campo geopolítico, ele posicionou o Brasil em meio à disputa entre Estados Unidos e União Europeia pelo controle das cadeias de minerais críticos. Os EUA anunciaram o Projeto Vault, com previsão de US$ 10 a 12 bilhões para construção de reservas estratégicas, enquanto a UE estrutura uma rede de instrumentos financeiros da ordem de € 3 bilhões para viabilizar projetos. “Estamos no meio de uma briga de gigantes, mas isso não nos torna pequenos. Detemos grandes reservas minerais, e essa rigidez locacional coloca o Brasil como ator importante na equação geopolítica internacional”, afirmou.
A visão dos gestores: jurisdição, prazo e o “valor” versus “preço”
Ricardo Fonseca, da Prisma Capital — gestora que administra uma carteira de US$ 5,5 bilhões em setores que incluem a mineração — foi categórico ao identificar as principais barreiras para alocação de capital em projetos juniores. A primeira delas, para ele, não está na geologia, mas na percepção subjetiva do risco-jurisdição. “Quando temos um atraso de 1, 2, 3 anos no licenciamento, impacta a taxa interna de retorno mínima esperada. E isso afasta o investidor estrangeiro do empreendedor doméstico”, explicou.
A segunda barreira é estrutural à economia brasileira. “Historicamente, o Brasil é um país de taxas de juros altas, rentista e curto-prazista. Não temos cultura de investimento de alto risco e longo prazo.” A consequência prática é a fuga de capital doméstico para renda fixa toda vez que o CDI sobe — um risco recorrente que penaliza a captação de projetos de mineração no mercado de capitais nacional.
A bolsa de Toronto, lembrou Fonseca durante o debate, abriga dez vezes mais companhias do setor mineral do que a B3. Reverter esse desequilíbrio é parte da agenda da Rede InvestMine. Ele fez um alerta direto aos empreendedores: “Quando o projeto chega na nossa mesa, um projeto bem feito em geologia, engenharia, parte ambiental, gera impacto muito positivo e facilita a decisão de investimento. Não adianta enfeitar a noiva se o projeto não está bem desenvolvido.” Ele citou ainda a moda dos minerais em alta — terras raras, lítio — como gatilho para projetos com qualidade técnica insuficiente: “Um furinho para cá, outro para lá, e o empreendedor já se anuncia como produtor de terras raras.”
O lado dos empreendedores: do bolso à bolsa
A diversidade de estratégias de capitalização ficou clara no segundo painel, que reuniu CEOs de mineradoras em diferentes estágios. Marco Túlio, da Fides — empresa privada com 15 anos no setor e projetos no norte do Mato Grosso, incluindo o Projeto Jaca, primeiro pórfiro de cobre descoberto no Brasil, com recursos inferidos superiores a 1 bilhão de toneladas dentro da cava —, traduziu o desafio das chamadas “empresas de bolso”: “Representamos mais de 90% das empresas de mineração atuantes no Brasil, mas não temos a mesma visibilidade das listadas.” Ele estima necessidade de US$ 30 a 40 milhões nos próximos dois anos para concluir PEA e PFS do Jaca, considerando listagem em Toronto ou trazer investidor privado estratégico — possivelmente asiático.
Luís Albano Tondo, CEO da Jaguar Mining, ilustrou o ciclo oposto. Produtora de ouro há mais de 20 anos no Quadrilátero Ferrífero, com operações listadas na TSX, a companhia produziu 40 mil onças em 2025 e projeta entre 50 e 60 mil onças em 2026. A meta é alcançar 150 mil onças por crescimento orgânico até 2030 e 250-300 mil onças incluindo M&A. A estratégia em três pilares — maximizar produção das plantas existentes (hoje com grande de capacidade ociosa), explorar os 46 mil hectares de direitos minerais (com 400 alvos já identificados, mais de 220 mil metros de sondagem planejados em cinco anos a US$ 60 milhões) e aquisições — sustentou a captação de US$ 28 milhões via bought deal na TSX (Toronto Stock Exchange) no final de 2025. “Não basta ter um bom projeto. É preciso saber comunicar com os investidores”, resumiu Tondo.
Klaus Petersen, da Viridis Mining — junior australiana listada em Perth — apresentou o caso de maior velocidade do painel. Em menos de três anos no Brasil, a empresa transformou o depósito de argila iônica de Poços de Caldas em projeto pré-operacional, com 500 milhões de toneladas a 2 kg/t de óxido de terras raras, planta piloto demonstrativa já comissionada (a maior fora da China), DFS (Definitive Feasibility Study) previsto para junho, licença de instalação prevista para setembro/outubro e Final Investment Decision em novembro. O Capex de US$ 356 milhões deve gerar 1.500 empregos durante dois anos de construção, com início de operação em 2028, projetando entregar 5% das terras raras magnéticas globais — somadas às da Meteoric, vizinha em Poços de Caldas, podem chegar a 15% do mercado mundial.
A Viridis tornou-se, segundo Petersen, uma das poucas empresas a captar capital brasileiro em fase pré-operacional. “É uma novidade. Temos orgulho de estar abrindo essas portas, com fundos privados começando a avaliar projetos desse tipo e a pegar o risco em equity.”
Elton Pereira, CEO da Bahia Níckel, narrou a transição “do bolso para a bolsa” mais inusitada do painel. Após a Appian Capital descartar o projeto Mangueiros — sulfetado de níquel descoberto pela CBPM, com potencial de 600 a 800 milhões de toneladas e relação estéril/minério inferior a um — por ser considerado early stage demais, um grupo de 40 profissionais da própria gestora, incluindo o próprio Elton, montou uma estrutura privada com 7,5 milhões de dólares canadenses para tocar o projeto. Em fevereiro deste ano, com a recuperação do preço do níquel de US$ 15 mil para US$ 18-19 mil por tonelada, a empresa concluiu IPO com 5,75 milhões de dólares canadenses captados. “Investidores tomam decisão com preço de hoje, num projeto que ficará pronto em cinco anos e vai operar por mais 20 ou 30 anos”, observou.
O elefante na sala: o PL dos minerais críticos
Em diferentes momentos, executivos e gestores convergiram sobre a principal incerteza regulatória em curso: o projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados que cria o Conselho Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, agora em tramitação no Senado. A principal preocupação é a previsão de ingerência sobre mudança de controle e aprovação de contratos de off-take pelo colegiado.
“Quem traz um investidor que está considerando vir para o Brasil, correr o risco junto conosco, não pode descobrir daqui a seis meses que ele não é bem-vindo e que o investimento não vai ser aprovado por A ou B”, alertou Marco Túlio, da Fides. Klaus Petersen, da Viridis, foi mais direto: “O único risco que vejo hoje no nosso projeto é uma ação desastrosa que assuste o mercado. Soberania é importante e todos os países têm. Mas precisamos de previsibilidade.”
Para Flávio Mota, do BNDES, a expectativa é de amadurecimento dessas discussões à luz de outros setores regulados brasileiros. “É algo que precisa ser equilibrado. Diante de regras claras, do entendimento de que a decisão será tomada por um colegiado técnico respeitando o que foi previamente acordado, isso tende a convergir para um período de estabilidade.”
Licenciamento: rapidez é possível, mas exige excelência
Provocados sobre o tempo do licenciamento ambiental como gargalo crítico, executivos defenderam que prazos razoáveis são alcançáveis quando o empreendedor cumpre o by the book. Klaus Petersen citou o caso da Viridis, que obteve licença preliminar da FEAM em 11 meses — “recorde na minha carreira” — sem pular etapas. O atraso final, segundo ele, veio da entrada do Ministério Público em momento avançado do processo, gerando custo adicional estimado em R$ 1 milhão para uma empresa pré-operacional sem fluxo de caixa. “Deveria haver uma janela com previsibilidade dentro do processo: aqui entra o MP, se necessário. Não de surpresa.”
Luís Albano, da Jaguar, reforçou a corresponsabilidade do setor: “As empresas tendem a tomar atalhos, pular etapas e depois esperar resposta rápida do órgão. São duas mãos de via.”
A ANM emergiu como ponto sensível. Executivos relataram que técnicos e diretores da agência têm postura pró-mineração, mas a falta de orçamento limita a capacidade de fiscalizar e responder. “É o órgão que imploramos para nos fiscalizar, mas estão sem recurso”, disse Petersen.
O mapa de financiamento do BNDES
Flávio Mota detalhou o portfólio atual de instrumentos do banco para o setor: operações de equity via FIP Mineral (operação indireta) e participação direta via BNDESPAR; dívida estruturada e automática; o Fundo Garantidor de Operações em Minerais Críticos, atualmente em discussão no PL; e estruturação de modelo de project finance para mineração inspirado no que existe no setor elétrico. Para aquisição de equipamentos, a FINAME oferece linhas com taxa a partir de 6,5% ao ano para máquinas com conteúdo tecnológico intensivo, escalando até 8,5-10% para equipamentos com menor pegada de emissões.
A mensagem aos empreendedores foi clara: “Não há trade-off entre projetos no BNDES. Cada um é analisado por mérito. Para projeto bom, sempre tem dinheiro.”
A pergunta sobre o downstream
Questionamento do conselheiro econômico da Embaixada da Alemanha trouxe à mesa o tema mais sensível para a estratégia industrial brasileira: por que o downstream — refino, ímãs, produtos finais — ainda não avança no país? Hoje, 90% do refino e da produção mundial de ímãs de terras raras está na China.
Flávio Mota respondeu que o desenvolvimento da cadeia downstream depende, antes, da consolidação do upstream em escala. Ricardo, da Prisma, foi mais incisivo: “Não tem bolo sem farinha de trigo. A mineração é a farinha. Vamos colocar as minas de pé primeiro. Veja os desafios que a Serra Verde teve. Já é muito difícil colocar uma operação dessa de pé.”
A construção da planta demonstrativa da Viridis — projeto de US$ 4 milhões em Belo Horizonte, com engenharia da Hatch e construção da Parex —, somada à futura planta de reciclagem de ímãs (em joint venture com a Ionic, já operando em Belfast, na Irlanda) e à planta de extração por solventes prevista para o fim do ano, sinalizam, segundo Petersen, que o downstream começa a ganhar tração quando o ativo upstream amadurece em condições competitivas.
Conclusão: a janela está aberta, mas é estreita
O painel encerrou com convergência clara entre os participantes: o Brasil vive a janela mais favorável das últimas décadas para destravar projetos de mineração de minerais críticos. Há capital interessado, instrumentos públicos sendo criados, demanda global pressionada por geopolítica e ativos minerais de classe mundial. O risco de a janela se fechar, contudo, é real.
“Um atraso de um ano, uma parada no investimento, e a África ou o Sudeste Asiático tomam conta. A gente fica para trás. Não tem segundo lugar”, advertiu Petersen. “Quem comandar essa produção é quem vai comandar a indústria nos próximos 5, 10 anos. Se a gente não estiver nisso, outro estará.”
Para Miguel Nery, coordenador da Rede Invest Mining e homenageado durante o evento pela ADIMB por sua trajetória no setor, o trabalho do coletivo segue centrado em criar as melhores condições para atrair investimento — costurando agentes públicos, financeiros e empresariais em um diálogo que, há poucos anos, sequer existia em escala nacional.
O recado final, em coro entre executivos privados e gestores de fundos, foi para Brasília: clareza na composição e nas atribuições do Conselho Nacional de Minerais Críticos, e equilíbrio na construção do marco regulatório, são condições sem as quais o capital — que finalmente começou a correr atrás do recurso mineral brasileiro — pode mudar de direção. (Brasil Mineral)











