*Usiel Carneiro de Souza
Uma sala cheia de humanidade, foi onde estive recentemente. Ela capturou minha atenção e me fez sonhar. Sonhar com uma cidade melhor, menos desumana. Sonhar com igrejas melhores, menos desumanas. Sonhar com hospitais melhores, menos desumanos. Sonhar com escolas melhores, menos desumanas. Sonhar com famílias melhores, menos desumanas.
Naquela sala cheia de humanidade encontrei profissionais da saúde humanizando, respeitando, celebrando pessoas feridas em sua humanidade. Rejeitadas, julgadas, condenadas, atacadas em cidades, igrejas, hospitais, escolas e, que desumano!, em suas próprias famílias, o último refúgio de qualquer ser.
Naquela sala cheia de humanidade ouvi e vi mães chorando. Não era a primeira vez que choravam. Mas era um choro bom de ver. Estavam chorando de gratidão, de felicidade. Seus filhos e filhas estavam sendo amados com palavras e atitudes. Estavam sendo olhados e olhadas com respeito.
Mais que isso, estavam inclusive sendo ajudados e ajudadas a livrarem-se de palavras estigmatizantes, com cheiro de doença, com textura de preconceito, com peso de rejeição, com que sempre precisaram lidar.
Naquela sala cheia de humanidade as vi e os vi. Como eles e elas querem ser vistos como são! E não como pensam que deveriam ser! Aprendi seus nomes, os nomes pelos quais querem ser chamados e chamadas. Senti um pouco da emoção que eles e elas sentiam por estarem em um lugar seguro. E pensei em como tinha sido até ali para eles e elas. Escuridão, medo, culpa apenas por serem quem são.
Senti seus anseios e a coragem que precisam ter. Querem ser vistos e vistas como são e firmemente se colocam como quem são. E ali era totalmente possível. Vi sorrisos acanhados e outros corajosos.
As vezes a coragem é a única escolha possível para quem precisa lutar o tempo todo apenas para ser quem é. Vi sorrisos suaves e ao mesmo tempo desafiadores. Não é justo que alguém perca o direito de apenas sorrir e precise ser corajoso, corajosa até para sorrir.
Naquela sala cheia de humanidade me senti mais perto de Deus. Havia compaixão, bondade, verdade, fragilidade, cuidado. As vezes preciso me esforçar para encontrar Deus na cidade. Pergunto-me nos hospitais onde Ele está e tantas vezes o deus cultuado nas igrejas me parece anti-Deus.
E as famílias, aquelas que alguns pretendem defender como o lugar mais sagrado da terra, não há garantias de que sejam um lugar onde verdadeiramente a vida floresça. Muitas, ao contrário, são geradoras de traumas, são razão de dores e produtoras de feridas.
Mas ali, numa congregação improvável formada por pessoas deixadas à margem, havia um peso de graça e misericórdia, amor e aceitação.
Aquela sala falou comigo e me convidou a ser um pessoa mais humana. Um pastor mais cristão. Um cidadão mais honrado. Aquela sala me fez mais gente. Ela me santificou. Espero voltar lá. Preciso dela para não perder minha humanidade e com ela meu coração e minha fé.
Onde estive que tanto impacto trouxe para minha vida? No Complexo Ambulatorial Multirreferenciado do HUCAM em Vitória. Celebro a saúde pública realizada com amor e responsabilidade!
*Usiel Carneiro de Souza é administrador, teólogo e pastor da Igreja da Praia (Vitória-ES)











