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Padre contesta abordagem sobre nomeação de bispo de Nova Friburgo

A cidade de Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro, ganhou um novo bispo: Dom Pedro Cunha Cruz. A  notícia destacando o fato de Dom Pedro, além de sua notória formação, ser afrodescendente e a cidade ter sido colonizada por brancos europeus.

A abordagem não agradou à Igreja, a se julgar pelos argumentos do padre Rogério Simplicio Costa (foto em destaque), da Paróquia São Sebastião e Nossa de Fátima.  Longe de desprezar a capacidade do novo bispo, a abordagem editorial, ao noticiar o fato, procura colocar sua condição étnica não como ponto de discórdia, mas com intenção positiva.

A Redação reserva-se o direito de manter o texto original sem reparos e, para preservar o espaço de debate democrático, reproduz a carta enviada, por via eletrônica, à Redação pelo pároco  de Tribobó, São Gonçalo/RJ, Arquidiocese de Niterói, Vicariato Oceânico.

A propósito, no Brasil, de forte presença de descentes de africanos escravizados e grande contribuição desses a cultura, a proporção de bispos negros é baixa em relação ao total de bispos.

Segundo dados da Pastoral Afro-brasileira da CNBB, existem 11 bispos afrodescentes no Brasil, o que representa 2,5% do episcopado. É importante ressaltar que esse número se refere a bispos que se identificam como afrodescendentes, podendo incluir pessoas de diversas etnias e graus de miscigenação. 

Dos 135 cardeais com direito a voto no conclave que elegeu o papa Leão XVI para suceder o papa Francisco, apenas 18 são provenientes da África, e alguns deles despontaram como fortes candidatos para se tornar o primeiro pontífice do continente em mais de 1,5 mil anos. Ou seja, nunca a Igreja escolheu um papa de pele preta.

A CARTA DO PADRE ROGÉRIO

“Venho, por meio desta, manifestar minha perplexidade diante da matéria intitulada “Cidade de colonização europeia teve novo bispo negro no RJ”, recentemente publicada por este veículo.

O texto, sobretudo em seus parágrafos iniciais, presta um desserviço à luta antirracista à qual nosso país e a sociedade civil — inclusive a Igreja — estão cada vez mais empenhados. Ao destacar de forma quase exótica a suposta “brancura” europeia da cidade de Nova Friburgo e, em contraponto, a nomeação de um “bispo negro”, o jornal incorre num tipo de narrativa que reforça estigmas coloniais e hierarquias raciais simbólicas que tanto nos esforçamos para superar.

É no mínimo preocupante que, em pleno 2025, um veículo de comunicação ainda escolha pautar um acontecimento eclesial de grande significado a partir de um recorte racial reducionista, ignorando a complexidade histórica da formação da cidade — onde indígenas, africanos e seus descendentes estiveram presentes desde o início, ainda que muitas vezes apagados da história oficial.

Mais grave ainda é o fato de que o destaque dado à cor da pele do novo bispo eclipsa o que realmente importa: sua vocação, sua experiência pastoral, os desafios missionários que enfrentará e o serviço que prestará ao povo de Deus na Diocese de Nova Friburgo. Nenhum outro bispo, ao ser nomeado, teve sua ascendência tratada como manchete — por que, então, fazer isso com Dom Pedro Cunha Cruz?

Esse tipo de enquadramento não apenas empobrece o debate público como também trai os princípios fundamentais de um jornalismo comprometido com a dignidade humana, a equidade e a verdade. Um jornal que se pretenda relevante deve contribuir para desconstruir os padrões discriminatórios e não perpetuar olhares coloniais disfarçados de curiosidade histórica.

Espera-se que esta crítica seja acolhida com espírito construtivo. A imprensa tem um papel decisivo na formação da consciência coletiva e pode ser aliada fundamental na construção de uma sociedade mais justa e plural. Para isso, contudo, é preciso assumir a responsabilidade ética sobre a linguagem, as escolhas editoriais e os imaginários que se reforçam, ainda que de modo não intencional.

Atenciosamente,

Pe. Rogério Simplício Costa

Paróquia São Sebastião e Nossa Senhora de Fátima

Pároco”

 

Padre contesta abordagem da TNL sobre nomeação de bispo de Nova Friburgo
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