*Usiel Carneiro de Souza
O nascimento de Jesus se deu sob o signo da insuficiência, da falta. Não havia lugar. Ele veio ao mundo pobre, em condições precárias, fora dos padrões estéticos e sociais de seu tempo, semelhante aos rejeitados, aos invisíveis, aos que nunca parecem caber.
A falta de lugar foi concreta — um estábulo, que a tradição aprendeu a romantizar chamando de manjedoura —, mas foi também simbólica. Desde o início, expôs um mundo que não comporta todos.
Talvez ali estivesse uma primeira e poderosa mensagem: o retrato de uma sociedade que exclui, rejeita e estigmatiza, transformando um mundo criado para todos em território de privilégios para poucos.
As razões dessa falta de lugar são muitas. Algumas saltam aos olhos: a cor da pele, o sobrenome, a orientação sexual.
Outras são mais silenciosas, mas igualmente cruéis: a neurodivergência, o corpo que foge ao padrão, a estatura, a forma de existir.
Num mundo em que se ama pouco, quase tudo vira pretexto para exclusão e violência. Famílias atípicas, casais homoafetivos, pessoas das religiões de matriz africana — a lista é longa.
Um gabarito reducionista insiste em reger a vida: exalta um único modelo de família, demoniza os demais, sacraliza a fé dos colonizadores, profana as outras, impõe a heteronormatividade e transforma liberdades em ameaça.
Mesmo quem discorda, muitas vezes se cala. E o silêncio sustenta esse modelo.
Se formos honestos, reconheceremos que todos somos, em alguma medida, habitados por essa lógica. Pequenos preconceitos, julgamentos aparentemente inofensivos, atitudes quase automáticas.
Fios de um mesmo tecido que segue produzindo vítimas.
Recentemente, ouvi o desabafo de um pai. Ele falava do medo de morrer e deixar sozinho o filho autista. Contou que o menino, para indicar vontade de ir ao banheiro, segura os próprios genitais.
“Quando eu não estiver aqui, como vão interpretar isso?”, perguntou. “Tenho medo que ele seja agredido neste mundo intolerante e sem empatia.”
Esse pai não está exagerando. A intolerância é rápida, violenta e costuma agir antes de refletir.
O mesmo medo atravessa famílias quando um filho ou filha revela sua homossexualidade ou identidade de gênero. Não se trata apenas de choque ou dificuldade de aceitação, mas de riscos reais.
Há pouco tempo, o país testemunhou a dor de um pai cuja filha, uma mulher trans de 33 anos, foi brutalmente agredida em Belo Horizonte e morreu dias depois em consequência da violência sofrida.
Não é um caso isolado. A maioria diz não concordar com a violência, mas essa discordância raramente se transforma em voz, protesto ou resistência efetiva.
Curiosamente, num mundo em que falta lugar para tantos, parece sempre haver espaço para os violentos, abusadores e exploradores.
Casos amplamente conhecidos revelam como, muitas vezes, esses personagens circulam protegidos por poder, dinheiro e hipocrisia moral.
A psicologia há tempos aponta: não é raro que quem reprima, condene e demonize no outro aquilo que não consegue elaborar em si mesmo. Ao mesmo tempo em que segue reproduzindo, às escondidas, práticas doentias e cruéis.
Há também os que legitimam preconceitos em nome de Deus. Líderes religiosos desonestos, sustentados por privilégios, que distorcem a fé para manter poder e alimentar consciências imaturas.
Forma-se, assim, um ambiente em que se lê mal a Bíblia e se lê mal a vida — e um erro reforça o outro.
Onde não há lugar, há dor. Há morte, desprezo, abandono e silenciamento. Por isso, abrir espaço tornou-se urgente. É preciso desconfiar do que foi naturalizado como “certo”.
Esse mundo estreito se sustenta em narrativas e não em fatos. Precisamos de mais perguntas, mais escuta, mais coragem para revisar cercas mal colocadas.
O problema não está na fé, na Bíblia ou em Deus, mas nas interpretações que justificam desamor, violências e exclusões.
Jesus colocou o amor no centro da espiritualidade. Quando isso acontece de verdade, algo se desloca: abre-se espaço na vida porque se abre espaço no coração. As diferenças deixam de ser ameaças e passam a ser convites ao diálogo, ao aprendizado, ao respeito.
O sinal da presença divina na vida não é a moralidade rígida, a tradição intocável ou o julgamento severo, mas o amor que acolhe e respeita.
O mundo precisa de pessoas que se disponham a criar novos espaços para quem foi expulso dos antigos. À medida que isso acontece o que perde espaço é o ódio, a violência, o preconceito. A exploração e precarização da vida diminuem.
Que cada um de nós seja um lugar onde a vida caiba e para que caiba pessoas precisam caber.
Que sejamos intolerantes com a intolerância, firmes diante do abuso, claros na indignação contra a injustiça.
A maioria das pessoas não é má — mas é silenciosa. E o silêncio favorece os maus.
Se não nos importarmos agora com quem não cabe neste mundo, um dia essa falta de lugar baterá à nossa porta e atingirá a quem amamos.
Que haja lugar. Para todos. E isso não se dará por acaso. Sempre exigira protagonistas!
*Usiel Carneiro de Souza é administrador teólogo, pastor batista
Imagem da capa: iStock











