*João Gualberto Vasconcelos
Desde 2011, quando as manifestações políticas na chamada Primavera Árabe tomaram conta do debate político em todo o mundo, nós vimos que havia uma nova força em ação nas sociedades: as redes sociais.
O mesmo se deu em 2013, aqui no Brasil, com as Jornadas de Junho, que tiveram forte impacto no impeachment da presidente Dilma Roussef.
Houve também eventos importantes na Espanha, que levaram o sociólogo Manuel Castells a fazer reflexões, em encontros públicos também em 2011, que considero pioneiras quanto ao fato de as redes sociais despertarem novos modos de vida e sentido nos novos sistemas de comunicação.
Castells, com sua influência internacional, nos ajudou a entender que as redes facilitam a conexão e o compartilhamento de ideias, mas também nos alertou que elas criam bolhas de filtro, nas quais as pessoas só veem informações que confirmam suas crenças.
As redes sociais impactaram fortemente a noção de liderança, até então centrada em instituições como partidos políticos, sindicatos, imprensa e igreja, dentre outras. Elas ficaram mais difusas e fragmentadas, dando origem a um sem-números de influenciadores sociais, que são, de fato, os novos formadores de opinião.
Isso democratizou tanto a produção quanto o consumo de notícias, informações e opiniões.
Não foi só isso, entretanto, o que ocorreu com o sucesso das redes sociais e das novas tecnologias de informação. Foi muito mais. Vamos pensar em um bom exemplo: o caso brasileiro nas eleições de 2026.
Como muito bem sabem os meus leitores, teremos eleições este ano. Serão, certamente, muito disputadas, tanto regional quanto nacionalmente. A polarização existente desde 2018 tende a continuar, e a continuar através das redes sociais, já que a política migrou para elas.
Eu acredito que teremos em 2026 uma disputa muito intensa centralizada justamente nas redes e a formação de opinião, antes centrada nos grandes veículos da imprensa diária, mudou de lugar.
As esquerdas, que sempre dominaram as redações dos maiores veículos, perderam a sua hegemonia para essa democratização, às vezes muito perigosas, hoje existente.
São centenas de influenciadores que marcam as sociedades no mundo todo. Mais do que isso, as pessoas imaginam que são muito bem informadas, que estudam os grandes problemas, têm opinião formada sobre tudo.
Uma multidão de operadores das informações que chegam ao cidadão comum, o fluxo e a forma das informações dão às pessoas a impressão de controle do processo, embora os algoritmos controlem tudo.
Esses sentimentos de ser bem informado e não ser manipulado pela grande mídia são alimentados pelos bastidores dessas centrais de informação, em boa parte falsas, em um nível que a maioria não entende.
Tanto é assim que os brasileiros costumam negar as notícias dos grandes veículos. Os gigantes das novas mídias manipulam tanto quanto a mídia que os antecedeu, ou mais. Mas a forma como o fluxo chega ao cidadão comum os deixa confusos, ou enganados.
É essa massa de cidadãos ligados ao WhatsApp e a toda a cadeia de construtores de notícias que existe por trás dele que vai decidir o futuro da nossa sociedade. É uma oportunidade e um risco.
E vamos então à pergunta que creio que deva conduzir as nossas ações nesse campo: o que instituições de representação da sociedade, de uma forma geral, devem fazer para ter influência nesse contexto e como evitar uma produção em série de mentiras e manipulações?
A primeira coisa é entender que a construção da política mudou de lugar. Ela se dá nas redes sociais. Portanto, é fundamental modernizar os canais de comunicação com o grande público. Participar das novas mídias de forma contundente. A segunda é entender que a geração de lideranças passa por outros meios. A Virginia Fonseca sabe disso.
Nossas plataformas programáticas e a profundidade de nossas propostas deve passar por um filtro de atualização, e as propostas devem ser simples e objetivas.
A lógica que tudo preside é a da economia da atenção: em poucos segundos, uma pessoa abandona uma mensagem que não lhe interessa.
Querer dialogar com o conjunto dos empreendedores, por exemplo, ou com outro setor da opinião de brasileiros e capixabas exige esse esforço.
*João Gualberto Vasconcelos é cientista político, professor emérito da Ufes
Imagens: @MetaAI












