Existe um lugar, escondido nas montanhas capixabas, onde vivem animais que não são encontrados em nenhum outro ponto do planeta. A Reserva Kaetés, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) mantida pelo Instituto Marcos Daniel, guarda um dos trechos mais valiosos da Mata Atlântica do Espírito Santo — e abre suas porteiras para quem quer viver a experiência de um safári de verdade, a poucas horas da Grande Vitória.
No novo episódio do PodNatureza, embarcamos na experiência “Do Chão às Copas” para revelar por que este é um dos destinos de ecoturismo mais surpreendentes do Estado.
A saíra-apunhalada: a única ave que só existe no Espírito Santo
Toda a história da reserva começa por uma ave. A saíra-apunhalada é a única espécie de ave que ocorre exclusivamente no Espírito Santo — não há registro dela em nenhum outro Estado do Brasil ou do mundo. Foi para protegê-la que nasceu o Programa de Conservação da Saíra-Apunhalada (PCSA), uma das três principais frentes do Instituto Marcos Daniel.
Como RPPN, a Reserva Kaetés é uma unidade de conservação totalmente privada: não recebe recurso público e se sustenta por captações e pela própria visitação. Cada real que entra vira floresta em pé.
Safári na Mata Atlântica revela espécies raríssimas
A bordo de um veículo de safári, com binóculos e câmeras em punho, o grupo percorreu a floresta, atento a cada movimento no dossel. Não demorou para o primeiro encontro: um bando de macacos-prego passou por ali e provavelmente se alimentou do palmito da palmeira-juçara, bem no alto das árvores.
Mas o registro mais precioso do dia veio logo em seguida.
Sagui-da-serra claro: um dos primatas mais ameaçados do mundo
O sagui-da-serra claro é um dos primatas mais ameaçados do planeta. De acordo com o médico veterinário Marcelo Renan, coordenador da Reserva Kaetés, estima-se que existam menos de 2 mil indivíduos na natureza, e a Reserva Kaetés abriga cerca de cinco famílias, somando aproximadamente 40 animais.
Ele explica ainda que a reserva protege uma população geneticamente pura, que não cruzou com espécies vindas de outras regiões — o que a torna um refúgio estratégico para futuras reintroduções da espécie.
Um santuário de endemismos
A raridade em Kaetés não está só nas copas. A reserva concentra espécies endêmicas, que existem apenas ali. Entre os destaques do episódio:
- Bagrinho-de-caetés — peixe minúsculo descoberto pelo professor Elmer, da Ufes, por volta de 2010, encontrado apenas no córrego Picada Comprida e em uma nascente vizinha.
- Philodendron spiritus-sancti — planta extremamente ameaçada de extinção que, dentro da reserva, ocorre com abundância.
- Palmeira-juçara — apelidada de “rainha da floresta”, prima do açaí e alimento essencial de aves e mamíferos. Foi nas raízes de uma juçara que apareceu o sapinho pingo-de-ouro que viralizou nas redes.
- Preguiça-de-coleira — outra espécie ameaçada, registrada durante o passeio a partir da torre.
Em vez de derrubar a palmeira para extrair o palmito, a reserva aposta no manejo conservacionista: colhe-se apenas a polpa do fruto, e boa parte fica para a fauna.
A maior torre de observação da Mata Atlântica
O ponto alto do passeio — literalmente — é a torre de observação da Reserva Kaetés, considerada a maior da Mata Atlântica. São 37 metros de altura, cerca de 11 andares, com visão de 360° sobre a floresta.


A localização não é por acaso: do topo, a equipe amplia o alcance de audição e visão para localizar a saíra-apunhalada, sempre percebida primeiro pelo canto. E a vista revela algo ainda maior — a reserva faz parte de um mosaico de áreas protegidas que soma cerca de 4 mil hectares de Mata Atlântica de montanha, conectando o Parque Estadual do Forno Grande, o recém-criado Parque Estadual da Saíra Apunhalada, a Reserva Águia Branca e o Parque Estadual da Pedra Azul.
“Não acredito em conservação que se faz sozinho. Conservação é sempre algo de muitas mãos”, resume Marcelo, fundador do Instituto Marcos Daniel.
Turismo que vira ciência — e conservação
Na Reserva Kaetés, o visitante não é só espectador. No formato de turismo científico, quem vem acompanha os pesquisadores em campo e ajuda no monitoramento real da fauna — a ponto de cerca de um quarto de todos os registros da saíra-apunhalada acontecerem durante a visitação.
E há um diferencial que define o lugar: 100% do valor pago pelo passeio é revertido em proteção da natureza. Só no último ano, visitantes de 27 países passaram por ali. Cada pessoa que vem deixa, além da memória, um legado.
A experiência termina à mesa. O “café com prosa” reúne uma seleção 100% regional e sazonal, com produtos das agroindústrias familiares das montanhas capixabas: o socol de Venda Nova do Imigrante (produto com indicação geográfica), queijo minas frescal, antepastos de palmito, geleias artesanais, pães sem glúten e o café especial da região — tudo entre uma boa conversa sobre conservação.
Como visitar a Reserva Kaetés
- Experiências: “Do Chão às Copas” (safári + trilha + torre) e observação de aves
- Capacidade: até 8 visitantes por turno, mediante agendamento
- Público: aberto a famílias e crianças
- Impacto: 100% da renda revertida à conservação
- Agendamento: reservakaetes.com.br e redes sociais
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