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De presente a legado: a história de um Fusca 1979 que marcou 14 anos de encontros e estradas entre ES e MG

Por: Pablo Silva Fernandes

Há carros que apenas transportam. Outros, como o Fusca 1979 que acompanhou o proprietário por 14 anos, tornam-se testemunhas silenciosas de histórias de vida, encontros e paixões que atravessam gerações e fronteiras.

Um presente que virou passaporte para o antigomobilismo

Recebido como presente de meu pai em 2012, o Fusca 1979 chegou às minhas mãos sem que eu imaginasse o papel que este automóvel desempenharia nos anos seguintes. Mais do que um meio de transporte, o carro tornou-se um verdadeiro passaporte para o universo do antigomobilismo, me aproximando de uma comunidade de entusiastas que compartilhavam a mesma paixão por veículos antigos.

Ao longo de 14 anos, o Fusca protagonizou viagens, encontros, caravanas e amizades construídas ao redor de uma paixão que, para muitos, vai além da simples admiração por automóveis antigos.

Pioneiros: a comunidade que unia Espírito Santo e Minas Gerais

Grande parte dessa trajetória está ligada ao grupo Pioneiros, formado por apaixonados por carros antigos de Barra de São Francisco e Mantena. Mais do que um clube de proprietários, os Pioneiros representavam uma comunidade unida por uma paixão comum, que transcendia a divisa geográfica entre os dois estados.

Registros históricos apontam para encontros organizados pelo Clube Pioneiros, como o realizado em Mantena em março de 2015, que reuniu participantes de diferentes cidades da região, incluindo Águia Branca, Nova Venécia e localidades na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais.

A proximidade entre Barra de São Francisco e Mantena facilitava a criação de laços naturais entre os entusiastas dos dois lados da fronteira, promovendo uma verdadeira circulação regional de apaixonados por veículos históricos.

A estrada como parte do encontro

Para quem participa de encontros de carros antigos, o evento não começa quando os veículos chegam ao local destinado à exposição. Ele tem início muito antes: na preparação, na limpeza cuidadosa do carro, na expectativa da viagem e, principalmente, no momento em que vários automóveis deixam suas cidades de origem e seguem juntos pela estrada.

As caravanas tornavam-se parte fundamental do passeio, com cada parada transformando-se em uma fotografia e cada quilômetro percorrido em uma memória compartilhada. O Fusca 1979 era um dos grandes protagonistas dessas jornadas, aparecendo em registros de diferentes localidades da região, incluindo Governador Valadares, Sobrália, Ibituruna, Guarapari, Colatina, São Mateus e a Reserva dos Macacos.

ExpoFusca e o Dia Mundial do Fusca

Entre os eventos que marcaram essa trajetória estão o ExpoFusca BSF, realizado em Barra de São Francisco, e as celebrações do Dia Mundial do Fusca, comemorado em 22 de junho.

A data foi instituída em 1995 por iniciativa do colecionador brasileiro Alexander Gromow, com o objetivo de homenagear a história e a longevidade do modelo da Volkswagen. A escolha do dia 22 de junho não foi aleatória: nessa mesma data, em 1934, foi assinado o contrato entre a Associação Nacional da Indústria Automobilística Alemã e Ferdinand Porsche que deu início ao desenvolvimento do projeto do “carro do povo”.

Em 2015, ano em que muitos dos registros fotográficos dessa história foram produzidos, o Dia Mundial do Fusca completava 20 anos de sua oficialização, período que coincidiu com o crescimento dos clubes de entusiastas e das viagens promovidas pelos chamados “fusqueiros” em todo o Brasil.

Mais do que carros, pessoas

Ao observar as fotografias que documentam esse período, a primeira impressão remete aos automóveis: Fuscas de diferentes cores, modelos antigos, veículos restaurados e preservados, Kombis e outros clássicos. No entanto, com um olhar mais atento, percebe-se que os carros são apenas parte da história.

O que realmente aparece nessas imagens são as pessoas: famílias, amigos, colecionadores que viajavam quilômetros para passar algumas horas ao lado de outros que compartilhavam a mesma paixão. O carro era o ponto de encontro; a amizade, o resultado.

14 anos de memórias

O Fusca permaneceu comigo por 14 anos, período que representou muito mais do que um simples tempo de propriedade. Durante esse tempo, a vida mudou, novas responsabilidades surgiram e diferentes caminhos foram percorridos. Mas o automóvel permaneceu como uma espécie de testemunha silenciosa de diferentes momentos que vivi.

Quantas vezes eu estava com algum problema, eu entrava dentro dele e sumia sem rumo. Só para ouvir o ronco do motor e esquecer os problemas que estavam acontecendo.

As fotografias ajudam a perceber essa transformação. Ao olhá-las hoje, é possível enxergar não apenas o carro que estava presente, mas também a pessoa que se era naquele momento específico da vida.

O encerramento de um capítulo

Em 2026, depois de 14 anos de convivência, chegou o momento de vender o Fusca. Não se tratou simplesmente de uma negociação comercial, mas do encerramento de um capítulo significativo. É difícil atribuir valor monetário a algo que esteve presente durante tantos anos, pois existe o valor de mercado e existe o valor afetivo duas coisas completamente diferentes.

O Fusca tinha um preço. Mas as histórias que ele carregava não tinham. Quando deixou a garagem, levou consigo parte daquela rotina, mas não as lembranças. Essas permaneceram.

Um legado que atravessa gerações

Talvez a parte mais significativa dessa história esteja em sua origem. O Fusca chegou às mãos do proprietário em 2012 como um presente do pai. Quatorze anos depois, quando o veículo deixou de fazer parte da vida cotidiana, ficou claro que o presente havia adquirido um significado muito maior.

O pai não havia dado apenas um Fusca. Sem saber, havia proporcionado 14 anos de histórias, estradas, encontros, amizades, fotografias e experiências — uma memória que permanece mesmo depois que o carro mudou de garagem.

O Fusca foi vendido. A história, não.

Hoje, o Fusca 1979 já não está mais comigo. Mas continua existindo nas fotografias, nas lembranças, nas histórias contadas, nas pessoas que foram conhecidas, nas estradas percorridas e nos encontros do Pioneiros. Espero que ele dê ao o seu novo proprietário a mesma alegria que me deu durante muitos anos. Aquela sensação de felicidade, liberdade e amor pelo que vivi e pessoas que conheci.

Existe naquela época em que atravessar a divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais para participar de um encontro de carros antigos parecia uma excelente razão para colocar o Fusca na estrada. Talvez seja isso que explique a paixão pelos carros antigos: eles não são apenas máquinas. São objetos de memória, que carregam marcas do tempo, mas também histórias de quem passou por eles.

O Fusca 1979 cumpriu esse papel durante 14 anos. Chegou em 2012 como um presente do pai. Em 2026, deixou de ser propriedade do filho. Mas, entre uma data e outra, tornou-se parte indelével de uma história de vida.

E algumas histórias, depois que são vividas, não podem mais ser vendidas.

 

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