O prefeito afastado de Pedro Canário, Kleilson Martins Rezende (PSB), e o ex-prefeito do município e aliado dele, Bruno Teófilo Araújo (PDT), passaram neste domingo (31) o primeiro domingo juntos na cadeia, após serem presos na última terça-feira (26), na segunda fase da Operação Eco da Fraude, deflagrada pela Polícia Federal, que apura um suposto esquema de corrupção na prefeitura da cidade. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), que administra o sistema penitenciário capixaba, informou que a dupla segue presa no Centro de Detenção Provisória (CDP) de São Mateus.
Mesmo perguntada desde o primeiro dia da prisão, a Sejus não explicou se Kleilson e Bruno estão na mesma cela, se estão em sala reservada, e como tem sido a alimentação deles, se estão comendo ou não a mesma comida dada aos demais presos.
A Polícia Federal aponta que o grupo político do prefeito afastado Kleilson teria recebido R$ 330 mil de propina na realização da 34ª Festa da Tábua Lascada, ocorrida de 1 a 3 de agosto de 2025. Diálogos obtidos pela PF e revelados pela Rede Notícia mostram a divisão do dinheiro entre os integrantes do que a polícia chama de organização criminosa. Kleilson teria pedido ao então secretário de Cultura da cidade, Fúlvio Trindade, a quantia de pouco mais de R$ 52 mil do total da propina para pagar veículos de comunicação com quem ele — o prefeito — teria negociado contratos de publicidade da festa, e pagar ilicitamente policiais militares por serviços privados. Do que consta nos diálogos aos quais a reportagem teve acesso, os veículos não tinham conhecimento da origem ilícita do dinheiro.
Os diálogos mostram ainda que Fúlvio teria buscado R$ 100 mil desse total da propina, em dinheiro vivo, em Linhares, e colocado em um porta-malas de um carro, onde teria repassado o valor a Bruno Araújo. Em um dos diálogos, Bruno diz a Fúlvio, em 8 de agosto de 2025, que “este mês foi 50 k embora”, numa referência a 50 mil reais que já teriam sido gastos nos primeiros oito dias do mês de agosto de 2025 pelo ex-prefeito Bruno, ao que Fúlvio responde: “Cê tá doido. Ano que vem que vc vai gastar mesmo”, numa referência ao ano de 2026, em que Bruno vinha se colocando como possível candidato a deputado estadual. No celular de Fúlvio, o contato de Bruno estava salvo como “Deputado Bruno Araújo”.
Nos diálogos aos quais a PF e a reportagem tiveram acesso, quando em julho de 2025 Fúlvio manda para Bruno o rascunho do quanto receberiam em propina “200 estrutura + 80 bandas + 50 rodeio = 330k”, e diz a Bruno, “Se tudo der certo, até 15/08 os 330k estará no jeito”, Bruno responde no dia 11 de julho: “Vai salvar tá… já foi embora 300k em 6 meses”. A Polícia Federal quer saber de onde saíram os 300 mil reais a que o ex-prefeito faz referência, já que a propina das festas seria uma outra obtenção ilícita de dinheiro público. Após dizer isso, Bruno diz que havia começado a campanha eleitoral de deputado: “Olha q nem comecei a andar”, diz. Ao que Fúlvio responde: “Cê tá doido”.
Para a Polícia Federal, “Kleilson tem interesse concreto e imediato na continuidade dos desvios, pois seu projeto político de candidatar-se a prefeito de São Mateus em 2028 demanda acumulação de recursos financeiros vultosos, que somente poderão ser obtidos mediante continuidade sistemática do esquema de superfaturamento de contratos públicos ao longo de 2026 e 2027”.
A PF diz nos documentos a que a reportagem teve acesso que Bruno Araújo “estruturou todo o esquema de desvios sistemáticos desde 2021 com o objetivo declarado de angariar recursos não rastreáveis para financiar sua candidatura a deputado estadual ou federal nas eleições de 2026. Conforme a PF, ‘as ambições políticas de Bruno não constituem mera especulação investigativa, mas sim fato notório amplamente conhecido no cenário político regional, tendo sido mencionadas expressamente nas conversas interceptadas (“precisa de dinheiro para a campanha”, “quando ele se eleger”, “projeto político de Bruno”)’.











