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O racismo como instituição imaginária, por João Gualberto

*João Gualberto Vasconcelos 

Li, recentemente, uma coletânea de artigos organizada por Selma Pantoja e Estevam Thompson denominada Em torno de Angola: narrativas, identidades e conexões atlânticas.

São comunicações apresentadas em um seminário internacional que teve o mesmo nome da obra. O evento, por sua vez, foi realizado na Universidade de Brasília em 2011, através de dois de seus programas de pós-graduação que se ocupam dos chamados Estudos Atlânticos.

Esse esforço para a formação de um fórum internacional de pesquisas e debates históricos, culturais e literários parte de uma releitura de eventos da história nos três continentes banhados pelo atlântico: Europa, África e América.

O que se vê nos vários artigos que compõem o livro, é a descrição, com detalhes, dessa tragédia moderna chamada escravidão negra.

Todos sabemos que o aprisionamento e escravização de povos vencidos em guerras sempre fez parte da história da humanidade, inclusive os povos originários tanto da América quanto da África praticavam a escravidão. Isso sem contar com o passado bíblico que também conhecemos do Velho Testamento.

Entretanto, a escravidão negra que marcou o chamado mercantilismo, e que vigorou em boa parte do mundo ocidental até o século XIX, é uma instituição muito diferente daquela havida nos povos da antiguidade.

Muito mais complexa, e com desdobramentos mais profundos no nível da construção imaginária das sociedades que compõem o nosso mundo.

Só os muito ingênuos, mal informados ou mal-intencionados podem acreditar que a base desse processo era desempenhada por africanos que, por ganância, prendiam pessoas de outros grupos para vendê-las aos mercadores europeus.

O sistema criado pela mais extrema perversidade dos povos europeus era uma verdadeira cadeia de produção de escravizados e de morte.

Todo um aparato estatal e comercial, muito lucrativo, teve que ser criado para sustentar um comércio que enriqueceu muita gente, que foi mesmo o centro comercial de sociedades como a brasileira daqueles tempos.

Presídios, estruturas de poder voltadas para garantir a busca e aprisionamento, e o fortalecimento de elementos culturais, eram necessários para a escravização de milhões de pessoas durante séculos.

A leitura de “Em torno de Angola…” não deixa dúvidas quanto à complexidade dessa máquina que engendrou desespero, sacrifício e morte de tantos irmãos africanos, tendo produzido a maior diáspora de todos os tempos. Mas, também produziu fortunas extraordinárias e deixou de rastro de desigualdades até os dias atuais.

O racismo, o desprezo pelos diferente na cultura e na cor, é uma delas, e que está infelizmente novamente na pauta. É só observar o que se passa com o ideal da Supremacia Branca no mundo de Donald Trump, e ainda a aversão do mundo tido como desenvolvido pelos povos nascidos nos países pobres.

Creio que toda a engenharia social que esteve por trás do comércio atlântico de seres humanos não seria possível sem que houvesse uma ideia de que o europeu era superior, que portava uma semente do progresso que os povos originários da América e da África não tinham.

Foi essa superioridade que permitiu que o mundo não europeu fosse todo desorganizado para dar lugar a um casamento desigual de culturas.

O racismo foi o suporte narrativo e intelectual dessa monstruosidade chamada de escravidão moderna, sobretudo a dos africanos, mas também a dos indígenas no Brasil e de outros povos originários do que se chamava novo mundo.

Cornelius Castoriadis, em um texto chamado de “Reflexões sobre o Racismo, publicado no livro O Mundo Fragmentado, faz uma afirmativa que me parece definitiva para a nossa análise:

“Na minha opinião, a ideia central é a seguinte: o racismo participa de alguma coisa muito mais universal do que aceitamos admitir habitualmente. O racismo é uma transformação ou um descendente especialmente violento e exacerbado (arrisco-me até mesmo a dizer: uma especificação monstruosa) de uma das características empiricamente quase universal das sociedades humanas. Trata-se da aparente incapacidade de constituir-se como si mesmo, sem excluir o outro; em seguida uma aparente de excluir o outro sem desvalorizá-lo, chegado finalmente a odiá-lo”.

Para o filosofo grego que produziu toda a sua obra radicado em Paris, na segunda metade do século XX, o ódio ao diferente, a intolerância de qualquer ordem vem dessa incapacidade de ser sem excluir, e odiar, o outro. É a raiz da intolerância religiosa e de gênero, por exemplo, em nossos dias no Brasil.

O ser que não precisa excluir e odiar para ficar de pé, para existir com autonomia, é um ideal social importante nos dias atuais. Vencer o racismo também é vencer a existência de pessoas que se instituem pelo ódio.

*João Gualberto Vasconcelos é cientista político e social, professor emérito da Ufes

 

O racismo como instituição imaginária, por João Gualberto
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