*João Gualberto Vasconcelos
Nós, que vivemos imersos em um imenso laboratório em que tudo muda a toda hora, que é o mundo contemporâneo, muitas vezes não temos uma noção exata do significava o progresso para as gerações anteriores às nossas.
Vamos para um exemplo concreto daquilo que quero dizer, no caso do Espírito Santo. O ideal de progresso que tanto animou os republicanos no fim do século XIX e início do século XX estava alicerçado em alguns elementos que a tecnologia da época permitia.
Vamos lá. O café chegou ao nosso estado na primeira metade do século XIX, e a partir de sua segunda metade transformou-se no setor econômico mais dinâmico da nossa economia regional, com também na brasileira.
A força do café como elemento propulsor da prosperidade era, sobretudo, o fato dele ser um produto de consumo internacional em larga escala.
Entretanto, isso também significava que ele deveria ser transportado até os seus consumidores localizados em outros países do mundo, ou mesmo em outras regiões brasileiras.
Para os milhares de imigrantes europeus que aqui chegaram em busca de prosperidade, somente os cafezais poderiam responder à expectativa de pessoas e famílias que arriscaram suas vidas em uma aventura transatlântica de alto custo pessoal.
As terras haviam, a imensa maioria ainda coberta pelas matas tropicais, o primeiro trabalho foi derrubar as matas, limpar o terreno e plantar o café.
A mão de obra vinha, inicialmente, do terrível regime da escravidão, e não haveria o vertiginoso crescimento econômico que tivemos no século XIX, não fosse o abjeto uso do trabalho cativo.
Quando a produção cafeeira capixaba, e também a brasileira, já estava muito bem implantada, as condições da manutenção do tráfico internacional de seres humanos foi chegando ao fim.
A questão foi resolvida com a atração de mão de obra em países como a Itália, a Polônia e a Alemanha, onde as condições de manutenção de um claro excedente populacional não era fácil.
Terras pequenas e pouco produtivas, facilidade de transporte ferroviário e marítimo, e a oferta de oportunidades no Novo Mundo atraíram os que para cá vieram.
Terra tínhamos, a questão do trabalho foi sendo resolvida ao longo do tempo de várias maneiras, do trabalho cativo à imigração internacional, e, finalmente a migração interna, sobretudo aquela feita pelos nordestinos vindos para a região Sudeste.
Para alcançar o mercado, quando chegamos ao patamar de grandes produtores, precisamos de uma infraestrutura logística que não tínhamos.
Era esse o grande drama das primeiras gerações republicanas no Espírito Santo. O nosso café era transportado em lombo de burro, pelos rios ate os cais onde eram embarcados para o Rio de Janeiro, de onde eram exportados.
A grande tarefa de nossos líderes, dos coronéis dos primeiros tempos da república, era a construção dessa logística para a exportação do café.
O Porto de Vitória já era pensado na Assembleia Provincial por um movimento estudado pelo brilhante historiador Leandro Quintão, assim como as linhas férreas necessários ao transporte do café até porto.
Era preciso materializar as ideias republicanas de progresso através da criação das condições para o escoamento do café capixaba. É aí que surge a importância das estradas de ferro.
Deparai-me com a dissertação de mestrado em arquitetura na Ufes de Tamara Lopes, estudando os impactos da construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas no Norte do Espírito Santo, que não havia como território produtivo até então. Estava nas mesmas condições encontradas pelos portugueses em sua chegada ao Brasil.
As matas foram derrubadas para a construção de ferrovia, depois para a instalação de toda uma rede urbana que dava suporte ao embarque do café nas inúmeras estações que foram sendo criadas.
Lendo os trabalhos desses dois jovens talentos capixabas, Tamara e Leandro, enxergamos com clareza que a nossa rede de cidades surgiu com as ferrovias, cidades como Colatina só existem porque um dia ali foi construída uma estação de trem.
O município até então era Linhares, que perdeu a sede para Colatina, exatamente como aconteceu com São Pedro de Itabapoana em relação a Mimoso do Sul. A nossa malha urbana tradicional surgiu assim.
Portos e ferrovias eram os significados de nosso progresso. Sem eles não haveria escoamento da nossa produção. Por isso, as primeiras elites republicanas focaram nisso, por isso Muniz Freire atingiu grandes patamares de liderança, e Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos foram seus grandes sucessores, décadas depois.
Se nos anos 1930, como disse o último de nossos governantes da primeira república, governar era construir estradas, no inicio da república no Espírito Santo os trilhos eram a marca do progresso.
*João Gualberto Vasconcelos é cientista político, professor emérito da Ufes











