Uma defesa do papel da psicanálise no conjunto das possibilidades de tratamento do autismo: esta é a ideia apresentada pelo autor francês Jean-Claude Maleval no livro “Escutem os Autistas!”, que terá lançamento em Vitória (ES), no dia 09 de abril, às 19 horas, na Clínica Via Régia.
Este é o 10º título publicado no Brasil pela Associação PIPA (e rabiola), entidade sem fins lucrativos, com sede em Vitória, que se dedica a pesquisar o tema do autismo e a formar profissionais interessados na clínica com os autistas e no acolhimento aos seus pais e cuidadores.
Com distribuição da Editora Cândida, a obra integra a COLEÇÃO PIPA TRADUZ e demonstra a capilaridade do trabalho desenvolvido pelo PIPA (e rabiola) em nível nacional.
Além de Vitória, o PIPA possui núcleos no Rio de Janeiro (RJ), Teresópolis (RJ), Campina Grande (PB), São Paulo (SP) e Teixeira de Freitas (BA), com a participação de cerca de 40 pesquisadores e estudantes ligados institucionalmente à investigação do autismo, com base nas diretrizes da Orientação Lacaniana da Associação Mundial de Psicanálise (AMP).
Ideia central
Nos livros anteriores da coleção, lançados entre 2017 e 2025, o PIPA (e rabiola) dá voz aos pais de crianças autistas, aos alunos e aos professores.
Por sua vez, “Escutem os Autistas!” traz o olhar de um acadêmico respeitado internacionalmente em reação ao que ele considera como um processo de “deslegitimação” do uso da psicanálise para o tratamento do autismo por parte de órgãos públicos em diferentes países.
Na França, a Autoridade Superior de Saúde (HAS) desaconselhou a clínica psicanalítica para este fim, suscitando protestos de profissionais e de instituições orientadas pelo discurso analítico em todo o mundo, a exemplo da Federação Latino-Americana de Psicanálise de Orientação Lacaniana (Fapol), que publicou uma nota oficial exigindo “respeito ao autista”.
Em contrapartida a esta tendência, Jean-Claude Maleval inicia o livro afirmando que os “autistas são sujeitos que precisam ser levados a sério”.

Na visão do escritor, que é psicanalista, membro da École de la Cause Freudienne, em Paris, e da Associação Mundial de Psicanálise, a clínica psicanalítica pode contribuir de forma eficaz para o tratamento do autismo por se basear na escuta do próprio autista, ainda que muitos não falem.
“Pensar em proibir legalmente a escuta de um grupo humano revela uma das mais inquietantes ideologias subjacentes”, critica.
Método ABA
Catedrático de Psicopatologia da Universidade de Rennes, na França, e autor de vasta obra teórico-clínica sobre o autismo, publicada em livros e revistas especializadas, Maleval coloca-se em posição contrária à abordagem do método ABA (Análise do Comportamento Aplicada).
A terapia é amplamente utilizada no tratamento do autismo em crianças e se tornou a principal prescrição dos neuropediatras na França e também no Brasil.
Para o autor, o método desconsidera a personalidade da criança autista ao recomendar intervenções intensivas, variando de 25 a até 60 horas semanais, baseadas em aplicação de protocolos e procedimentos que se apresentam como clínicos, mas que operam pela via da padronização de comportamentos.
“No essencial, pede-se que a criança obedeça. Assim, corre-se o risco de uma aprendizagem da submissão que obstaculiza o acesso à independência. Os resultados obtidos mediante o ABA são, assim como o método, desumanizados”, observa.

Linha de Cuidado
No anexo do livro, as psicanalistas Renata Wirthmann, Inês Catão e Bartyra Ribeiro de Castro apontam o que consideram como retrocessos incluídos na nova Linha de Cuidado para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), publicada em setembro de 2025, pelo Ministério da Saúde.
O documento exclui a psicanálise das possibilidades de tratamento do autismo e propõe a testagem sistemática de todas as crianças até os quatro anos.
Na visão das profissionais, a proposta de intervenção antes mesmo do diagnóstico formal pode intensificar processos de medicalização precoce e judicialização do cuidado, especialmente quando não se dispõe de uma clínica sólida, formação especializada e tempo de escuta.
“Já vivemos, no Brasil, um aumento exponencial de diagnósticos, muitos deles equivocados, impulsionados por triagens em massa e por uma lógica de acesso a direitos mediada pelo laudo. O efeito paradoxal é a sobrecarga da rede e a exclusão daqueles que realmente necessitam de acompanhamento contínuo, singularizado e de longo prazo”, alegam.
Diante de tantos desafios, a presidente da Associação PIPA (e rabiola), Bartyra Ribeiro de Castro, responsável pela tradução de “Escutem os Autistas!”, destaca a contribuição da obra para a orientação do debate público sobre o tratamento do autismo sem considerar a existência de um modelo de terapia único que se sobreponha aos demais.
“O livro oferece subsídios preciosos, tanto para o trabalho clínico com autistas de qualquer idade, quanto para a orientação de familiares, para a formação de profissionais da saúde e da educação e, sobretudo, para aqueles que decidiram sustentar uma clínica do a utismo orientada pelo discurso psicanalítico”, afirma Bartyra.
PROGRAME-SE
Lançamento do livro “Escutem os Autistas!”, de Jean-Claude Maleval
Data: 09 de abril (quinta-feira)
Horário: 19 horas
Local: Clínica Via Régia – Rua Engenheiro Fábio Ruschi, 176, Bento Ferreira, Vitória – ES, CEP: 29.050-670
Editora: Cândida
Páginas: 77
COLEÇÃO PIPA TRADUZ
Idealização e realização: Associação PIPA (e rabiola)
Preço: R$ 80,00
Onde adquirir: Pré-venda pelo site https://pipaerabiola.com.br e no dia do lançamento











