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Mapa resgata a histórica migração de famílias de Vila Pavão para Rondônia durante a crise do café

A história da migração de milhares de famílias capixabas para Rondônia, entre as décadas de 1960 e 1980, ganhou um importante registro histórico por...

Mapa resgata a histórica migração de famílias de Vila Pavão para Rondônia durante a crise do café

A história da migração de milhares de famílias capixabas para Rondônia, entre as décadas de 1960 e 1980, ganhou um importante registro histórico por meio de um mapa elaborado pelo pesquisador, sociólogo, pomerano e ex-professor de História e Sociologia, Jorge Kuster Jacob, com diagramação de Neimar Magewiski.

O material apresenta o percurso da emigração de moradores de Vila Pavão, no norte do Espírito Santo, até Espigão do Oeste, em Rondônia, representando um dos maiores movimentos migratórios da história do Estado. Embora tenha como ponto de partida Vila Pavão, o pesquisador destaca que a mesma realidade foi vivida por famílias de municípios como Baixo Guandu, Pancas, São Gabriel da Palha e diversas outras localidades capixabas.

Segundo Jacob, a migração foi impulsionada principalmente pela crise da cafeicultura e pela ausência de políticas públicas voltadas à agricultura familiar. Ao mesmo tempo, durante a Ditadura Militar (1964-1985), o governo federal incentivava a ocupação da Amazônia por meio da campanha baseada no lema “Integrar para não entregar”, que defendia a colonização da região como estratégia geopolítica.

A promessa de aproximadamente 42 alqueires de terra para agricultores com pequenas propriedades no Espírito Santo despertou o interesse de milhares de famílias. Para muitos, era a oportunidade de conquistar um pedaço de terra capaz de sustentar famílias numerosas.

Na avaliação do pesquisador, essa política acabou priorizando a expansão da fronteira agrícola em vez da realização de uma reforma agrária nas regiões já ocupadas. “Colonizar novas áreas foi a alternativa adotada pelo Estado, em vez de promover uma reforma agrária”, observa.

Viagens longas e cheias de dificuldades

Durante cerca de três décadas, era comum que dois ou três caminhões conhecidos como “paus de arara” partissem semanalmente da Avenida XV de Novembro, principal rua de Vila Pavão, ainda sem pavimentação, levando dezenas de famílias em direção ao Norte do país.

As viagens eram marcadas por improvisos, estradas precárias e dificuldades constantes. Como o transporte de passageiros nesses caminhões era irregular, os viajantes frequentemente enfrentavam fiscalizações policiais. Segundo relatos reunidos na pesquisa, muitos motoristas e passageiros precisavam recorrer ao chamado “jeitinho brasileiro” para seguir viagem.

Em algumas situações, os emigrantes desciam dos caminhões para atravessar postos de fiscalização a pé. Em outras ocasiões, quando os veículos eram retidos, as famílias chegavam a permanecer acampadas em frente aos destacamentos policiais até conseguirem autorização para continuar.

Muitos chegavam a Rondônia praticamente sem recursos financeiros. Além das dificuldades da viagem, havia outro obstáculo: diversos lotes prometidos ainda não estavam demarcados, enquanto outros já haviam sido negociados irregularmente.

Entre os relatos registrados está o da família Braun. Enquanto aguardava a liberação da terra, uma das filhas trabalhou em um restaurante para ajudar na alimentação da família, que vivia sob uma lona preta.

“Eu juntava a comida que os fregueses deixavam numa sacola de plástico e levava à noite para meus irmãos e meus pais almoçarem”, relembra.

Estradas de barro, atoleiros e “arreiões”

O mapa elaborado por Jacob também destaca as condições enfrentadas durante o percurso de quase quatro mil quilômetros.

Segundo o pesquisador, aproximadamente metade da viagem era realizada em estradas sem pavimentação.

O trajeto entre Vila Pavão e Governador Valadares (MG) era totalmente de chão. De Governador Valadares até Cuiabá (MT), predominava o asfalto. Já o trecho entre Cuiabá e Espigão do Oeste era considerado o mais difícil, marcado por extensos atoleiros em Rondônia e pelos chamados “arreiões”, grandes áreas de areia fofa no interior de Mato Grosso.

No mapa, essas condições são representadas por diferentes cores: verde para estradas de terra, vermelho para trechos asfaltados e amarelo para os locais onde predominavam atoleiros e arreiões.

Jacob compara as dificuldades desses trechos às enfrentadas em regiões desérticas. Ônibus e caminhões chegavam a permanecer dias ou até semanas parados, aguardando auxílio para conseguir prosseguir.

Diante das condições extremas, os próprios viajantes improvisavam soluções, cortando troncos de madeira na mata e posicionando-os sobre o solo para evitar que os veículos afundassem na lama.

Resgate da memória

Além de documentar um importante capítulo da história capixaba, o mapa busca preservar a memória das milhares de famílias — em sua maioria descendentes de pomeranos — que deixaram o Espírito Santo em busca de melhores condições de vida.

Para Jorge Kuster Jacob, compreender esse processo migratório é também compreender parte da formação social de Rondônia e da história do norte capixaba, marcada pela esperança, pelas dificuldades e pela coragem daqueles que enfrentaram uma longa jornada em busca de um novo começo.

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