*Usiel Carneiro de Souza
Permitam-me. Sei que há quem se incomode com certas palavras publicizadas. Compreendo bem isso, pois já estive nesse lugar também. Acabei mudando. Com o tempo fui administrando novas perspectivas que me levaram a rever essa questão das palavras.
“Palavrão” ganhou um novo significado para minha prática. As palavras que antes recebiam meu veredito de banimento, a categoria de impronunciáveis, os “palavrões”, passei a me permitir dizer. Especialmente em momentos de emoção intensa como uma forma de expressão de minha raiva, de minha indignação, minha dor ou mesmo meu entusiasmo.
Por outro lado, passei a reunir e sigo reunindo um conjunto de outras palavras que não recebiam o devido julgamento, tratando-as sob novo código ético. Passei a chamá-las de palavrões.
Esse novo conjunto em formação reúne expressões de preconceito, desrespeito, abuso e muitas outras aparentadas destas. Palavras que enlameiam relacionamentos, banalizam a vida e aviltam o valor do ser humano.
Nesse novo escrutínio ético, com mais calma passei a ouvir e não resisti ao me ver diante da música de Rita Lee e Roberto de Carvalho. Tomei emprestado o título e desejei publicar um pouco do que hoje vejo.
Nos últimos dias me dediquei à discografia de Rita Lee e me surpreendi positivamente. Aprendi muitas coisas. Sua canção “Tudo Vira Bosta” me remeteu ao fato de que somos todos pó e tudo aqui caminha para o fim, sujeito a perder completamente a importância.
Vi nessa música, possivelmente tido como escrachada e de muito mal gosto por alguns, uma perspectiva que me convidou a considerar o que de fato tem valor. Ela me disse que somos frágeis e precários e o que temos ou as posições que ocupamos são aspectos circunstanciais, passageiros.
Terminaremos na desimportância e por fim no esquecimento. Não deveríamos, portanto, nos iludir sobre quem somos diante disso e confundir a nós mesmos com coisas, posições, títulos e etc..
Agravou-se em mim a antipatia pelo orgulho que desqualifica os diferentes, a prepotência de pensar que eu ou você sejamos superiores a outro ser humano e o desprezo pelos que creem outras crenças e abraçam outras maneiras de orientar suas vidas. Talvez não concorde ou mesmo acredite, mas ajudou-me inclusive a concordar melhor e mais com o Evangelho de Jesus.
O Evangelho de Jesus há muito vem me ajudando a condenar como grave as posturas contradizem o amor devido ao outro. Há tempos tenho me assustado com o fato de estarem essas posturas cada vez mais presentes e públicas em nosso mundo. Por revelarem-se tão enraizadas no coração de gente que se considera pessoa de bem e tão naturalmente manifestadas nas igrejas, onde se afirma haver compromisso com o Evangelho.
Como pastor, um homem da religião, passei a reconhecer, infelizmente, que tais posturas são muitas vezes sustentadas em nome de Deus, abraçadas como verdades aprendidas a partir de certas leituras das Escrituras e por doutrinas ensinadas “na casa de Deus”. Mas, como seria bom se percebêssemos que “tudo vira bosta” de um jeito certo.
Somos todos pó e apenas pó e isso é um excelente começo para que tenhamos a oportunidade rever nossas leituras tantas vezes tão apressadamente sacralizadas e elevadas ao status de divinas. Quantos equívocos já cometemos por nos esquecermos da nossa precariedade, por não fazermos as contas certas!
Neste século temos sido presenteados com o melhor da tecnologia e com promessas incríveis de avanços. Jamais fomos tão acessíveis e estivemos mais conectados. Mas em lugar de conversarmos mais e de nos entendermos melhor, estamos cada vez mais separados, distantes e divididos. E se nos lembrarmos que “tudo vira bosta”?
Penso que ficaríamos menos ensimesmados e nos olharíamos melhor, com mais igualdade. Afinal, como indaga o filósofo da esquina: “quem sou eu na fila do pão?”. Há quem se considere especial e diferente. Melhor e mais digno. Só o que é dos outros vai virar bosta!
Mas a vida não negocia verdades. Com o tempo as mentiras perecem. Ninguém ocupa privilégios para sempre. Ninguém pode acrescentar um minuto sequer à própria existência. Mesmo todo o dinheiro do mundo não é bastante para garantir uma existência sem perdas ou para comprar um amigo de verdade.
Por fim nossa condição precária se revela, nossa fragilidade redefine os dias, nossa finitude frustra nossa razão.
No fim, tudo vira bosta…
O ovo frito, o caviar e o cozido / A buchada e o cabrito / O cinzento e o colorido / A ditadura e o oprimido / O prometido e não cumprido / E o programa do partido… Tudo vira bosta!
O vinho branco, a cachaça, o chope escuro / O herói e o dedo-duro / O grafite lá no muro / Seu cartão e seu seguro / Quem cobrou ou pagou juro / Meu passado e meu futuro… Tudo vira bosta!
Filé minhão, champinhão, Don Perrinhão / Salsichão, arroz, feijão / Mulçumano e cristão / A Mercedes e o Fuscão / A patroa do patrão / Meu salário e meu tesão… Tudo vira bosta!
O pão-de-ló, brevidade da vovó / O fondue, o mocotó / Pavaroti, Xororó / Minha eguinha pocotó / Ninguém vai escapar do pó / Sua boca e seu loló… Tudo vira bosta!
A rabada, o tutu, o frango assado / O jiló e o quiabo / Prostituta e deputado / A virtude e o pecado / Esse governo e o passado / Vai você que eu ‘tô cansado… Tudo vira bosta!
Não me entenda mal. Não estou, com isso, dizendo que nada deve nos preocupar ou valer ou pesar. Creio também que não é este o recado da Rita.
A idéia é que devemos destronar a presunção, o orgulho, a prepotência, o sentimento de que somos os donos da verdade e assim reconduzir o respeito ao outro, o direito que todos tem à própria posição, opinião e fé ao devido lugar. Ao lugar que nos permita discernir o bem comum e nos ensine a refletir.

Não se trata de um ponto final: tudo vira bosta. Mas de um ponto de partida: tudo vira bosta! E então seguir daí para que a vida não seja uma bosta!
*Usiel Carneiro de Souza é administrador de empresa, teólogo, pastor batista.











