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Jovem de 18 anos está desaparecido no balneário de Guriri

Um jovem de 18 anos está desaparecido no balneário de Guriri, em São Mateus, no Norte do Espírito Santo. Yuri da Silva Araújo, natural...

Cidade Presépio, por João Gualberto

*João Gualberto Vasconcelos

Dois sentimentos me fizeram voltar a pensar em um antigo objeto de minhas reflexões.

O primeiro foi o lançamento do livro Carmélia Maria de Souza: desesperada e lírica, com textos daquela grande cronista capixaba reunidos e selecionados por Renata Bomfim, uma estudiosa muito criteriosa do nosso universo literário.

O segundo foi uma longa conversa com a jovem e brilhante intelectual Tamara Lopes, doutora em Arquitetura, que vem de defender uma tese na qual a nossa sempre presente Carmélia também é estudada – além de muito mais. Voltarei a falar de Tamara oportunamente.

O antigo objeto de minhas reflexões, a que me referi acima, é o momento em que Vitória deixa de vestir sua velha roupagem de cidade presépio e passa para um momento mais ousado e menos provinciano de sua vida como o principal centro urbano do Espírito Santo.

Isso ocorre em 1967, quando Setembrino Pelissari é o prefeito e Christiano Dias Lopes o governador. O Espírito Santo, então, acompanhando a modernização conservadora pela qual passava o Brasil, também se moderniza.

Materializávamos entre os anos 1960 e 1970 o velho sonho da industrialização capixaba, do asfaltamento das principais rodovias, da expansão da energia elétrica e das novas comunicações.

Ultrapassada a predominância da cultura do café e sua aristocracia, que floresceu no império e na primeira república, mudaram as elites dirigentes e a capital do Espírito Santo deixou seus ares provincianos, abandonando a planta de cidade presépio.

O desenho de novas avenidas, como a Nossa Senhora dos Navegantes, criou espaços urbanos tomando parte de áreas antes ocupadas pelo mar.

Novos prédios cresceram verticalmente a cidade e houve a migração progressiva do centro em direção à região norte. O Shopping Vitória, inaugurado nos anos 1990, consolidou essa mudança, trazendo o comércio dos setores de classe média para a Enseada do Suá.

Escrevi sobre essas mudanças, sobretudo nos estilos de vida antes tão provincianos, em um livro que organizei com a participação de dois importantes intelectuais: Carol Abreu e Janes De Biase Martins, um valoroso historiador que infelizmente nos deixou logo após a publicação do trabalho.

A obra foi a primeira financiada através da então recém-criada Lei Rubem Braga, da Prefeitura de Vitória. Foi publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, com honrosa apresentação de Renato Pacheco, presidente do órgão na época.

Penso em Carmélia quando me lembro da nova geração de jornalistas e animadores culturais que passaram a povoar Vitória. Nomes da importância da própria jornalista que tanto cito, ou de outros grandes como Claudio Bueno Rocha, Milson Henriques, Aprigio Lyrio, Amilton de Almeida.

A renovação nas artes e nos costumes da cidade causada por um novo contingente de novos personagens foi muito grande.

Aos poucos a cidade perdia seus ares de presépio para ganhar uma nova dimensão, que em muitos momentos caminhava em direção contrária à proposta da cidade mais tradicional que saiu da república do café.

Seus grandes prédios eram inacessíveis aos pobres e sua ausência de preocupação com políticas sociais e culturais mais densas era evidente. Os setores artísticos e intelectuais de classe média, com as suas novas expressões, ganharam a cena.

Junto a essa nova configuração vieram as dificuldades de mobilidade no trânsito e o grande pesadelo da violência.

Vitória foi tomada por levas de camponeses empobrecidos pela erradicação dos cafezais – um pesadelo econômico, social e político – vindos do interior do estado, e mesmo alguns de estados vizinhos. Houve um empobrecimento da paisagem urbana.

Para os novos entrantes só havia as palafitas dos manguezais ou a elevação dos morros, além de pior educação, pior saúde pública, poluição do ar, do mar, de tudo.

Foi o fim completo do bucolismo que encobria a pobreza da cidade presépio, como também da modernidade aristocrática da primeira república.

A própria identidade da ilha foi alterada. Começaram a ser usados termos como Grande Vitória e depois Região Metropolitana da Grande Vitória, que passou a envolver municípios vizinhos, sobretudo Vila Velha, Serra e Cariacica.

Os problemas se expandiram junto com a expansão territorial. Essas foram, como o nome do livro indica, as trajetórias de nossa cidade, desde a fase colonial até uma construção totalmente focada no econômico e na lógica de massas.

O nosso centro histórico é bem o exemplo das consequências dessa trajetória. Abandonado e relegado a segundo plano, mostra como o país dos novos ricos trata os traços de seu passado, as marcas de seu

crescimento, a identidade e a memória coletiva.

Parece que ficamos cada vez mais longe de nossa essência, ao passo que nos aproximamos de um ideal de cidade que nos remete a um arremedo de Miami ou Dubai. Até mesmo os traços rebeldes da geração dos anos 1960 e 1970 perderem-se, em grande parte, no tempo.

João Gualberto

*João Gualberto Vasconcelos é cientista político, professor emérito da Ufes

Foto de capa: Fernando Madeira

 

Cidade Presépio, por João Gualberto
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