Unicef diz que 400 mil pessoas, metade delas crianças, estão em fuga do Afeganistão

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(ANSA) – O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estima que cerca de 400 mil pessoas estejam em fuga no Afeganistão devido à tomada do poder pelo grupo extremista Talibã, sendo que metade desse contingente é formado por crianças.

O número foi divulgado pelo porta-voz do Unicef na Itália, Andrea Iacomini, em entrevista à emissora RaiUno. “Há neste momento 400 mil pessoas em fuga no Afeganistão, sendo que a metade são meninas e meninos. É preciso fazer tudo o que for possível para proteger todos”, disse.

Já a agência das Nações Unidas para refugiados (Acnur) pediu a proibição de repatriações forçadas de afegãos, inclusive de solicitantes de refúgio que tiveram seus pedidos recusados.

Com a deterioração da situação no Afeganistão, o Acnur se diz preocupado com o risco de violações dos direitos humanos contra civis, principalmente mulheres, e pede que países vizinhos mantenham suas fronteiras abertas para deslocados. 

Leia também reportagem da Ansa Brasil sobre o assunto: 

‘Não queremos mais inimigos’, diz Talibã em coletiva

(ANSA) – Em sua primeira entrevista coletiva após a tomada de poder em Cabul, o grupo fundamentalista Talibã afirmou nesta terça-feira (17) que vai manter direitos adquiridos nos últimos anos e que sua ação militar foi para “libertar” o Afeganistão.

“Esse é um momento de orgulho para toda a nação. Depois de 20 anos de luta, nós libertamos o Afeganistão e expulsamos os estrangeiros. Queremos assegurar que o país não será mais um campo de batalha. Perdoamos todos aqueles que lutaram contra nós e as animosidades terminaram. Não queremos mais inimigos externos nem internos”, disse o porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid.

Ao ser questionado sobre a situação das mulheres, que durante o período de invasão dos Estados Unidos conseguiram alguns direitos básicos, como estudar, trabalhar fora de casa, sair sozinhas nas ruas e não precisar usar a burca (a vestimenta que cobre o corpo dos pés à cabeça), o representante disse que “não haverá discriminações”. 

“Nós nos comprometemos pelos direitos das mulheres sob a Sharia. Elas trabalharão lado a lado conosco. Ninguém será punido e não queremos ter problemas com a comunidade internacional. Nós temos o direito de agir segundo nossos princípios religiosos, outros países têm regras e abordagens diferentes, e os afegãos têm o direito de ter as próprias regras de acordo com nossos valores”, destacou Mujahid.

Por conta disso, o porta-voz disse que as burcas não serão obrigatórias para elas ao saírem de suas residências – como era no antigo governo talibã entre 1996 e 2001. Mas, o hijab – o véu sobre a cabeça – será necessário sempre. No entanto, ele não deu detalhes de como o novo regime definirá esse uso.

Perguntado se as mulheres poderiam ter qualquer profissão, como serem jornalistas, Mujahid disse que aguarda as “novas leis e regulamentações” para definir sobre os cargos. Ele ainda garantiu que os talibãs querem a mídia “independente, mas que não lute contra os valores islâmicos”.

Já sobre os estudos femininos, que também eram proibidos no país, o representante garantiu que as mulheres poderão frequentar “dos jardins de infância às universidades”.

Invasão de Cabul

Mujahid ainda foi questionado sobre a rápida invasão da capital e dos progressos feitos nas principais províncias do território. Continuando a usar um tom de “salvador”, o porta-voz disse que o grupo se “sentiu obrigado” a entrar em Cabul “para evitar o caos”.

“O nosso plano era parar nas portas de Cabul de maneira que o processo de transição pudesse ser completado sem problemas. Mas, infelizmente, o governo precedente era tão incompetente que as forças de ordem não podiam fazer nada para garantir a segurança. Então, precisamos fazer alguma coisa”, acrescentou.

No domingo, quando ficou clara que a entrada dos extremistas na capital ocorreria em poucas horas, o então presidente Ashraf Ghani fugiu da sede do governo para o exterior para um local desconhecido. O então mandatário afirmou que tomou a atitude para evitar um “banho de sangue”, mas a medida foi criticada pelos países que apoiavam seu governo durante os anos de invasão.

Também questionado sobre como o grupo lidará com o terrorismo – incluindo a vertente dentro da próprio organização – especialmente com os membros da Al Qaeda ou de milicianos de outras facções, Mujahid afirmou que “o solo afegão não será utilizado contra ninguém e nós garantimos isso”.

Durante todo o período em que estiveram no poder, direta ou indiretamente, o Talibã sempre deu abrigo para militantes extremistas, especialmente, para a Al Qaeda – grupo fundado por Osama bin Laden – que cometeu os maiores ataques terroristas registrados nos Estados Unidos.

No acordo firmado entre os talibãs e o então presidente dos EUA, Donald Trump, os chefes do grupo se comprometeram a não mais apoiar a Al Qaeda – mas há sérias dúvidas de que isso ocorra de fato por conta da proximidade das duas organizações.

Além disso, o porta-voz afirmou que o novo governo não será mais um centro de produção de papoula e do ópio e disse que precisará do apoio internacional para ajudar as áreas de cultivo atuais para safras de outros itens agrícolas. O novo Executivo também vai controlar a entrada das armas.

A retomada do poder pelo Talibã coloca um fim de fracasso à invasão norte-americana apoiada pelos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Apesar do grupo não ter feito nenhuma ação contra o aeroporto de Cabul, os países ocidentais que ainda tinham aliados civis no território estão fazendo uma saída caótica das aeronaves para evacuar suas equipes.

(Foto: Ansa Brasil)

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