Um ser humano incrível: conheça a história do artista e professor de Libras ‘Gerre dos Santos Chaves’

O reconhecimento dado a um artista em muito tem a ver com sua produção artística seu esforço em conquistar a perfeição em algo que goste. No entanto, alguns artistas se destacam também como pessoa, ser humano que se preocupa com os pares

O SiteBarra traz hoje uma matéria especial com um ser humano incrível. Gerre dos Santos Chaves, nascido em Belmonte/BA em 17 de março de 1990, veio morar com sua família em Água Doce do Norte em 1996. Filho de Gercino Anacleto Chaves e Alzita dos Santos Chaves.

Gerre dos Santos Chaves

Gerre tem problemas de audição e hoje é professor de Libras. Gerre é formado em pedagogia e pós-graduando em Educação Inclusiva.

Ele também é um artista. A técnica utilizada por ele é grafite-lápis/realista, sendo conhecido pelos colegas de escola por possuir um talento impressionante.

Profissionais da Educação, conhecendo superação do Gerre, decidiram ajudar a divulgar sua história de vida. A história de Gerre chegou ao SiteBarra através de um trabalho dos  educadores  Luís Ribeiro, Gorete Betânia, Elci Rodrigues, Ricardo de Freitas Feliciano, Mair Gomes de Oliveira Silva e Elizângela Maria de Oliveira Braga; e do do policial militar Anderson Sabará, um dos admiradores do trabalho de Gerre.

Eles contam que Gerre era muito requisitado para fazer desenhos de seus colegas, o que o tornou bem popular no período escolar do fundamental II e ensino médio. Ele também fazia leitura labial, porque na época, na escola onde ele estudava, não tinha intérprete de libras.

Gerre é conhecido por seu talento, criatividade e precisão na técnica que ele denomina “grafite realista”. Abaixo o artista apresenta uma retrospectiva de seu processo de criação e produção artística.

Aos 08 – 09 anos era encantado por desenhos e sonhava e pensava em personagens. Era apaixonado por heróis e revistas. Depois dos 09 anos começou a ver peixes e pássaros nos livros de ciências da escola e surgiu o desejo de desenhar. Após essa fase, veio o desejo de desenhar carros. Com 12 anos passou a desenhar flores e montanhas, aos 12 – 13 anos retirou de uma revista um rosto feminino e até os 15 anos, conta ele ao SiteBarra, foram seus melhores desenhos.

PRIMEIROS DESENHOS NO ANO DE 2010/2013

DESENHO RECENTE 2019/2020.

“Com muita prática fui desenvolvendo um desenho perfeito e realista. A pintura em tela e outros parecia diferente estranho”, disse Gerre para a reportagem do SiteBarra.

De acordo com a sua irmã, Gelcimária Santos Chaves Fernandes, professora e moradora de Santa Teresa/ES, as lembranças de infância e sua visão sobre o irmão não havia diferença nem inferioridade em relação aos demais. Na educação básica ele não teve acesso ao ensino de libras e nem a família tinha conhecimento do recurso de comunicação, no entanto, o aluno era muito persistente, chegando a dormir em cima de livros didáticos, inclusive nas férias.

Segundo Gelcimária , ele nunca foi de desistir e sempre buscou alcançar os objetivos ele é sua inspiração, influenciou e continua influenciando na sua opção de ser professora. “Falar do Gerre é falar de um artista, de uma pessoa muito fácil de amar e o talento dele vai muito além dos desenhos é como ele vive a vida e supera os desafios”, disse emocionada a irmã.

A pedagoga Nelcineia de Carvalho fala sobre o período em que conviveu com Gerre, ainda em Água Doce do Norte, quando ele estava concluindo o Ensino Fundamental e iniciando o Ensino Médio.

Ela conta fatos de um encontro capaz de gerar transformações na vida dos dois, dando significado as palavras respeito, valorização e dedicação.

Conheci o professor Gerre dos Santos como aluno do Ensino Médio da EEEFM Sebastião Coimbra Elizeu no ano de 2010. Passei em um concurso para pedagoga, assumi o turno que ele estudava, foi uma amizade à primeira vista, nos tornamos amigos desde que cheguei na escola.”, destaca a pedagoga.

Nelcineia fala com muita emoção sobre o talento do jovem.

Com muitas conversas, eu o incentivava sempre, via seus dons e talentos naturais, era um aluno muito aplicado, estudava sem intérprete de libras em sala de aula, fazia leitura labial, vencendo os desafios da surdez. Mesmo sem a presença deste profissional nas aulas, ele era excelente aluno, com um desenvolvimento normal, ótimas notas e não deixava desejar em nada nos conteúdos, sempre acima da média”, disse ela.

Como funcionária da SRE, naquela época, responsável pela Educação Especial, conseguiu, junto com a equipe administrativa e governo do estado, contratar uma intérprete de libras.

Ele tinha um relacionamento normal com os colegas em sala de aula, se comunicava muito bem, com gestos e libras, com alguns que tinham um pouco de noção. Era muito amado por toda escola, pelos alunos, equipe pedagógica, administrativa e professores.

“Eu o considerava o queridinho da escola, um ser humano lindo, aliás, um dos mais lindos que conheço. Muito dócil, educado, gentil, amoroso e um artista, que na minha opinião, em desenho com grafite, pintura de tela, pinturas com lápis e desenhos, não conheço ninguém como Gerre, creio que é um dom natural, dado por Deus, para expressar a beleza e doçura que existe na alma dele”, lembrou Nelcineia.

Como amiga e pedagoga, ela sempre o incentivou para estudar, fazer faculdade e ser professor de libras. “Ele ria de mim, dizia que não tinha planejado ser, mas iria pensar em minha proposta“, diz sorrindo a pedagoga.

Nelcineia conta que não o via como um artista simples e pessoa comum, e sim como um grande artista, com um grande potencial, para ser professor de crianças surdas e desenvolver a arte.

“Hoje sou muito grata a Deus, por ver esta realidade sendo concretizada. Gerre se formou em pedagogia, se tornou professor de libras de nossas escolas, será honrado e reconhecido como artista”, disse emocionada.

Nelcineia lembra que foi também graças ao grande incentivo da professora Maria Aparecida, que era uma mãe adotiva de Gerre, que o reconheceu como um artista desde bem pequeno. Foi uma grande incentivadora, para que ele vencesse os desafios e chegasse até aqui. Ela faz parte desta história.

Maria Aparecida, professora da EEEFM Sebastião Coimbra Elizeu de Água Doce do Norte e funcionária da Pestalozzi, conta que chamou o Gerre para visitar a Pestalozzi, local onde se realiza alguns atendimentos especializados para a pessoa com deficiência.

Na Pestalozzi existe uma diretoria, pais, mães, avós, tios e amigos de pessoas com deficiência que realizam um trabalho voluntário. Os recursos na época eram escassos, mas com o auxílio de um “dicionário”, uma apostila em LIBRAS, Gerre teve contato formal com a língua de sinais e foi aprendendo algumas expressões, sempre muito dedicado e estudioso. Pediu o dicionário emprestado e em três semanas havia aprendido os sinas básicos e algumas expressões, nessa ocasião um jovem com 16 anos.

“Gratidão à Deus, por conhecer Gerre, acompanhar esta história de superação e garra, ver os planos de Deus sendo cumpridos na vida dele, ver o quanto ele abençoa as pessoas com os talentos recebidos de Deus e seu amor gentil. Gratidão pela oportunidade de dar meu depoimento nesta linda história de vida! Meu desejo é que este grande homem continue voando como águia, superando seus limites”, finalizou Nelcineia o seu depoimento sobre o artista.

Alguns sinais que o professor Gerre utiliza em suas aulas presenciais e agora, durante a pandemia, através de vídeos em seu canal no youtube.

Gerre é surdo e pertence à uma comunidade a qual chamamos de comunidade surda.

Existem algumas pessoas que são conhecidas como deficientes auditivos e outros são chamados de surdos, um dos motivos da diferença no uso do termo se deve a dois fatores que podem estar associados ou não. Um fator é o grau de surdez da pessoa, podendo ser leve, moderada e severa. Outro fator é o pertencimento a uma cultura própria, ou seja, a pessoa surda possui como língua materna, ou a primeira língua o que chamamos de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), como uma primeira língua que aprende para se comunicar, depois vem a língua portuguesa, muitas vezes em um contexto social.

O surdo aprende a se comunicar de diversas maneiras, no entanto, a luta é para que todas as escolas e demais locais públicos possam oferecer condições de um efetivo processo de comunicação.

Com a ajuda do próprio artista foi realizada uma coletânea de alguns desenhos que serão apresentados seguindo uma ordem cronológica, onde será possível perceber o avanço na técnica, o refinamento dos traços.

O reconhecimento dado a um artista em muito tem a ver com sua produção artística seu esforço em conquistar a perfeição em algo que goste. No entanto, alguns artistas se destacam também como pessoa, ser humano que se preocupa com os pares.

Engajamento social e presença junto aos amigos.

Gerre chegou a Pestalozzi e como se deu uma parceria para seu desenvolvimento, nos últimos anos, mesmo com todas as responsabilidades de professor da rede estadual de ensino, com 05 anos de trabalho, ele ainda tira um tempo para se dedicar aos outros, não recusa um pedido, como da foto acima onde ele faz um trabalho voluntário reproduzindo o desenho da Branca de Neve e os sete anões no muro da Pestalozzi.

Muitos artistas conhecem o trabalho do Gerre e dizem que a perfeição com que ele utiliza a técnica é admirável. É o caso, por exemplo, de Geraldo Cassimiro, assistente de José Luís Carlomagno, Diretor da Academia Brasileira de Belas Artes. Eles são amigos, e ele fez questão de falar sobre o trabalho do artista.

Quero falar de uma pessoa muito especial, meu conterrâneo, quem é de Água Doce do Norte deve já ter ouvido falar do Gerre. Ele é especial pelo fato de desenhar muito bem gente, ele tem um talento, um dom muito grande que Deus lhe deu e Deus deu esse dom para ele, para mim e para milhares de pessoas no Brasil e no mundo”, disse ele.

Geraldo Cassimiro com o livro de Mauro Franco, cuja capa foi ilustrada pelo artista.

Cassimiro diz que, ao mesmo tempo em que essas pessoas receberam esse dom eles estão colocados em uma condição de anonimato, poucos conseguem sobressair. Ele acredita que Gerre está conseguindo visibilidade graças a sua dedicação e talento.

“Eu conheci seu trabalho em 2018, em uma exposição em que eu realizei em Água Doce, uma exposição com o título “essência”, olha que legal essência. A ESSÊNCIA de tudo, na época eu analisei seu trabalho, ele estava acompanhado de Charleny, eu vi o trabalho dele e estava muito bom. Pela idade dele, eu considerei que estava além do que eu era, ou seja, ele superou o que eu era na idade dele. Não podemos nos igualar ou tentar ser melhor do que ninguém, mas o trabalho do Gerre é sensacional”, lembrou Gerealdo.

O aguadocense lembra que também tive muitas pessoas que o ajudaram. “Eu que nasci no distrito de Cafelândia, Água Doce do Norte, interior do estado. Sempre agradeço a Deus por ter colocado na minha vida pessoas capazes de incentivar e de não me deixar desistir. Agradeço as críticas, pois elas nos fazem crescer”, finaliza.

Conheça o Canal de Gerre no Youtube

 

 

 

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