Sem perspectiva de retorno no Espírito Santo, trabalhadores do setor de eventos recorrem a trabalhos alternativos

São DJs, camareiros e produtores que precisaram se reinventar e encontrar outras saídas para driblar a crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

Por Any Cometti e Daniela Carla, G1 ES

 

Desde março, quando o isolamento social começou a ser defendido pelos governos e autoridades da área da saúde como forma de conter o avanço do coronavírus, setores da economia vêm sofrendo impactos severos. O de eventos é um dos mais afetados. Sem nenhuma perspetiva de quando haverá flexibilização das medidas impostas para essa área, profissionais que trabalhavam com shows, festas e entretenimento viram a renda zerar em menos de um mês.

Foi o caso do DJ Cleiton Candido, que chegou a ficar quase seis meses sem trabalhar. “Eu nunca imaginei na minha vida que fosse ver um equipamento meu parado durante meses. Aqui tem sonhos, tem vida. Já cheguei a fazer seis eventos por semana”, lamentou.

A saída foi se unir à esposa, a autônoma Grazielle Vieira, que passou a vender comidas congeladas e caldos para ajudar na renda da casa. Mas a alternativa surgiu por acaso, quando ela publicou a foto de um pão e acabou conquistando clientela.

“Minha mãe cozinha, tem um bar. Cresci dentro de uma cozinha. Fiquei dois ou três meses totalmente parada. Um certo dia, fiz pão para não ficar saindo de casa. Resolvi postar na rede social. Então, comecei com o pão”, contou a autônoma.

Hoje, o casal vende cerca de 60 pratos por dia e já precisou contratar três pessoas.

 

Feijão tropeiro dos famosos

Outra profissional do setor de eventos que precisou se reinventar durante a pandemia foi a produtora de camarim Juliana Barbosa.

Na produção dos camarins, ela já serviu artistas famosos como Ivete Sangalo, Jorge e Mateus, Wesley Safadão e Thiaguinho. A mesma receita que conquistou os paladares das estrelas, agora, ajuda a Juliana a manter as contas em dia.

“Eu já fazia as comidas dos artistas. Não comprava nada pronto, eu mesma cozinhava. E também já tinha clientes que, eventualmente, me pediam feijão tropeiro para festas e churrascos. Aí comecei a anunciar na internet que no fim de semana venderia o feijão tropeiro, e as pessoas começam a encomendar eventualmente”, contou.

Por enquanto, a renda ainda não repôs todos os gastos e o custo de vida que a família tinha. Mas já ajudou a pagar algumas contas.

“A renda não chega nem perto, mas é algo que ajuda. Caiu para 10% do que era antes. Na minha casa, todo mundo trabalha com eventos”, lamentou a produtora. “Cesta básica a gente consegue manter, só que não se limita a isso. Nós temos outros gastos”, considerou.

Petiscaria

Também atingido pela falta dos eventos realizados não só no Espírito Santo, mas também em Brasília, Amazonas e Goiás, o produtor de bar Christiano Caetano do Nascimento teve que vender o próprio carro para conseguir arcar com as despesas.

O último trabalho executado por ele foi no Carnaval de Vitória, em fevereiro. Depois disso, não trabalhou mais. E também não viu mais nenhum dinheiro entrando na conta.

“Minha renda caiu 100%. Fiquei março, abril, maio e junho sem renda nenhuma, retirando dinheiro de uma reserva que eu tinha. Em junho, vendi meu carro e, com o dinheiro em caixa, investi em uma petiscaria”, contou.

O novo estabelecimento já funciona há duas semanas e, para ele, está agradando os clientes.

 

“Eu abro de quarta a domingo, com cerca de sete entregas por dia. Se continuar nesse ritmo, minha renda com a petiscaria vai chegar a 30% do que eu ganhava antes por mês”, contou.

O que Christiano mais sente falta nesse período de pandemia é o apoio do poder público para conseguir trabalhar e voltar a ter uma renda.

“A gente tem acompanhado e ficado um pouco frustrado. Vemos todo fim de semana a praia lotada, festas acontecendo, bares funcionando sem autorização, e nós do setor de eventos sem perspectiva, sem resposta do governo. Queremos trabalhar, queremos seguir as normas. Queria que o governo olhasse com mais carinho, porque nosso setor gera muitos empregos”, contou o produtor, que contratava entre 30 a 40 pessoas por evento como prestadores de serviços.

Governo

O setor de eventos apresentou propostas para que o Governo do Estado libere esse tipo de trabalho.

De acordo com o coordenador da comissão que está em negociação com as autoridades, Marcelo Moura, o protocolo prevê regras sanitárias e de distanciamento para a realização de eventos no estado.

“Nós sugerimos um controle dos convidados que terão acesso ao evento, com nome, sobrenome e telefone para contato. Uso obrigatório de máscara, distanciamento das mesas, álcool em gel disponibilizado em pontos estratégicos e limpeza constante. Encaminhamos esse protocolo e suplicamos ao Governo do Estado que dê um olhar especial para a classe de eventos sociais. Nós queremos trabalhar de maneira gradativa e segura”, considerou.

O Governo do Espírito Santo informou que um grupo de trabalho, composto pelas Secretarias de Saúde, Cultura e Turismo, está discutindo a retomada dos eventos sociais.

E que os eventos técnicos, corporativos, acadêmicos e científicos serão liberados a partir de setembro, com regras que a Secretaria de Saúde deve publicar nos próximos dias.

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