SÃO DANIEL COMBONI (1831-1881): DE BISPO MISSIONÁRIO NA ÁFRICA A PADROEIRO EM NOVA VENÉCIA

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

Eu tenho a vida somente para consagrá-Ia ao bem dos africanos: desejaria ter mil vidas para consumi-Ias com essa finalidade.” (São Daniel Comboni)

Dizem que nada pode ser mais temerário do que um ser humano que está disposto a morrer por seus ideais. Os mártires da Igreja são a comprovação de tal frase, porque fertilizadas por seu sangue, as ideias do cristianismo se espalharam pelo mundo.

Um desses cristãos que buscavam vivenciar com sua trajetória de vida, a experiência do Evangelho foi Dom Daniel Comboni, beatificado por João Paulo II na data de 17 de março de 1996 e canonizado pelo mesmo Sumo Pontífice em 05 de outubro de 2003.

Daniel, ou melhor, “Antônio Daniele” como foi batizado, nasceu em 15 de Março de 1831 numa pequena aldeia chamada Teseus, município de Limone Sul Garda, localizado às margens do famoso Lago de Garda, na Província de Brescia, Região da Lombardia, norte da Itália. Vinha de uma família grande, com oito irmãos que, aos poucos, foram falecendo, deixando seus pais, Luigi Comboni e Domenica Pace, extremamente tristes com as perdas e estreitando cada vez mais os laços de afetividade com o único filho sobrevivente à situação de penúria que viviam.

Seus pais trabalhavam como jardineiros para uma família abastada, mas em sua casa o pão era pouco e a situação muito difícil. A esperança de uma vida melhor estava depositada em Daniel.

E o menino crescia tomando gosto pelos estudos. Não tinha nem jeito e nem braços fortes para o trabalho pesado, mas perdia-se em descobrir as palavras, entender que o mundo era muito maior que Limone e, especialmente, se apaixonava pela África, com sua beleza selvagem e seus desafios sociais.

Aos 17 anos decidiu que se tornaria missionário no continente africano, mas as dificuldades financeiras em sua casa eram muitas, e mesmo para falar aos pais de seu desejo de tornar-se padre, não era fácil. É compreensível, quando com pai e mãe que dependiam de seu trabalho para viver na velhice, Daniel titubeava entre o sacerdócio e a vida comum, mas a vontade de servir a Deus como missionário era maior.

Começou a se preparar para a missão devorando todo o material que chegava em suas mãos sobre a África. Estudou ainda línguas como hebraico, árabe, espanhol, francês, inglês e um pouco de alemão e português. Queria estar preparado para conseguir dialogar com um povo de cultura tão diferenciada.

Sob a orientação espiritual do padre Nicolau Mazza, Daniel frequentou o seminário na cidade de Verona, ordenando-se sacerdote aos 23 anos, em Trento, no ano de 1854. Era chegado o momento de partir em missão. Mas como deixar para trás seus pais? Na época, uma viagem à África ou a qualquer outro continente, em que o viajante tivesse situação econômica e social precárias, significava, na partida, um adeus eterno aos familiares. Muitos compatriotas, anos depois, saíram também da Itália para vir “fazer” a América, enriquecer e voltar para casa, inclusive, chegando aqui em nossa região. A maioria nunca mais retornou para abraçar pai, mãe, irmãos e até filhos, deixados do outro lado do Oceano Atlântico. Daniel passava pelo mesmo dilema.

Seus biógrafos afirmam, no entanto, que o jovem após meditar e aconselhar-se com seus consultores espirituais, enviou uma foto sua aos pais, escrevendo no verso “Quem ama o pai e a mãe mais do que a mim, não é digno de mim”. Sua mãe, apesar de admirar sua vocação, olhava a foto e afirmava que de oito filhos que tivera, sobrara apenas um, e este era de papel!

E o jovem partiu para a África junto com outros que assim também desejavam. Sua viagem durou quase três meses, aportando nas margens do Nilo em 14 de fevereiro de 1858. Apesar de extremamente preparado em seus aspectos intelectuais, Daniel sentiu muita dificuldade em adaptar-se ao calor extremo de mais de 40 graus, à fome e sede, animais peçonhentos e às doenças como a malária, os problemas intestinais e as febres, que só dificultavam seu percorrer e sua adaptação, como europeu, a essa nova realidade.

O padre que liderava a equipe de missionários, Francisco Oliboni, morreu passados menos de 40 dias na região. Tinha apenas 33 anos. Pedira em seu leito de morte, no entanto, que eles não desistissem. Poucos meses depois sua mãe, que tinha deixado na Itália, também faleceu. Em meio a tanto sofrimento, o jovem missionário adoecera de malária. Seu espírito estava abatido. Será que fizera o certo?

Apenas onze meses depois, doente e abatido, foi chamado de volta à Itália. Recuperou sua saúde e a vontade de lutar pelos que precisavam. Atuando junto ao padre Mazza, esteve em contato com africanos que tinham sido resgatados de um navio tumbeiro, em condições totalmente desumanas. Daniel não concordava com a escravidão e sobre ela afirmava ser “infame tráfico de carne humana, infame negócio que humilha e degrada toda a humanidade”.

Conhecia essa realidade de sua passagem pela África e denunciava: “Em uma viagem de nove dias, encontrei mais de mil destes infelizes em várias caravanas. Eram rapazes e moças, completamente nus, atados promiscuamente – de oito em oito, ou dez em dez –, com uma corda no pescoço reforçada ainda por uma trave para que não fugissem; outros com os braços atados nas costas e puxados por uma corda; outros, presos com correntes de ferro aos pés; outros ainda, amarrados à sheva, uma espécie de canga que acaba em triângulo e prende diretamente o pescoço dos escravos… Encontrei ainda muitos cadáveres de escravos sucumbidos à fadiga e caídos mortos pelo caminho”. Escrevia, burlava a burocracia, juntava dinheiro para lutar contra a escravidão. Sonhava ir à África comprar jovens e libertá-los, mas o dinheiro, sempre pouco, por mais sacrifícios e privações que fizesse, não permitia tal empreitada.

Tempos depois, afirmou que uma “luz” invadiu seu pensamento, e trabalhando durante 60 horas seguidas, elaborou seu “Plano Para Regeneração da África”, que consistia em fundar escolas e locais para que os próprios africanos, instruídos, pudessem lutar por melhores condições de vida, e estruturar sua sociedade. Junto a esses centros de ensino, fundava também hospitais e igrejas. Apresentou seu plano ao Papa, e percorrendo toda a Europa, a bispos e autoridades, tinha o intuito de arrecadar dinheiro para dar início ao projeto. Sem conseguir grandes feitos, fundou em Verona, no ano de 1867, um instituto de missionários, para ajudá-lo em sua missão. Esse “Instituto para as Missões da Nigrícia” após sua morte, já no ano de 1885, foi transformado em Congregação Religiosa com o nome “Filhos do Sagrado Coração de Jesus”, hoje “Missionários Combonianos do Coração de Jesus” (MCCJ). Ajudado por 16 meninas negras resgatadas, que se tornaram professoras, e 3 irmãos da Congregação de São Camilo, ao final daquele ano, aportavam na África, com seu velho sonho missionário no coração.

Em 1877, dez anos depois, foi nomeado bispo em Roma e logo seguiu para o Sudão, na África. Em sua posse, discursou “Volto ao vosso meio para nunca mais deixar de ser vosso… e o dia mais feliz de minha vida será aquele em que puder dar minha vida por vós”. Em 10 de outubro de 1881, em Cartum (Sudão), Comboni faleceu, em meio à doença, ao calor e à miséria. Suas últimas palavras foram: “Tenham coragem; tenham coragem nesta hora difícil e mais ainda no futuro. Não desistam. Não desanimem nunca. Enfrentem sem medo todo tipo de tempestade. Não tenham medo. Eu morro, mas minha obra não morrerá”.

No início da década de 1950 seus filhos espirituais, os padres “Missionários Combonianos”, chegaram ao Brasil para dar continuidade ao trabalho de Comboni. E no norte do Espírito Santo, Nova Venécia, recebeu a primeira visita desses missionários no ano de sua emancipação política (1953). No ano seguinte, assumiram a nova Paróquia de São Marcos Evangelista que aqui foi criada. Seguindo seu fundador, os combonianos não atuaram somente no campo religioso, mas também com várias obras sociais. Em 1958 surgiu o Colégio Comboni, que mais tarde se tornou a atual Escola Estadual de Ensino Médio Dom Daniel Comboni. Em 1967, outra conquista, esta na área da saúde, com a inauguração do Hospital São Marcos. Por fim, em 1996, os moradores do Bairro Filomena, no mesmo ano de sua beatificação, por sugestão do padre Egídio Melzani, o escolheram como padroeiro da nova Comunidade Eclesial de Base que ali surgiu: São Daniel Comboni! Foi a primeira de muitas que foram dedicadas a ele. Sua obra não morreu. Continua presente na vida dos venecianos nos inspirando e dando força, principalmente em dias tão difíceis.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.

* Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
Fontes Bibliográficas:

ARAÚJO, André F. S. África, o amor espiritual de Daniel Comboni. Dissertação (Mestrado Integrado em Teologia) – Faculdade de Teologia, Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, 2018.
BIOGRAFIA Daniel Comboni – (1831-1881). Missionários Combonianos, [s.d.]. Disponível em: <https://www.combonianos.org.br/sao-daniel-comboni/biografia> Acesso em 19 de mar. de 2021.
COMUNIDADE São Daniel Comboni – Contando sua História. Nova Venécia: (relato impresso dos membros da comunidade), 2013.
DANIELE Comboni: a história de um homem santo. Comune di Limone sul Garda, [s.d.]. Disponível em: https://www.visitlimonesulgarda.com/en/san-daniele-comboni/ Acesso em 26 de mar. de 2021.
DANIEL Comboni (1831-1881). A Santa Sé, 2003. Disponível em: https://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20031005_comboni_po.html Acesso em 19 de mar. de 2021.
FURBETTA, Pe. Carlos. História da Paróquia de Nova Venécia. Nova Venécia: Ed. do Autor, [1982].
MUNARI, João; COSTA, Alcides. Daniel Comboni: mil vidas para a missão. 2. ed. São Paulo: Alô Mundo, 2015.
NARDOTO, Eliezer O. In Nomine Domini. São Mateus: Ed. do Autor, 2012.
SANTÂNGELO, Enzo. Daniel Comboni: a ousadia de um santo: a escravidão africana e o desafio da nova evangelização. São Paulo: Ave-Maria, 2008.
SÃO DANIEL COMBONI, Bispo, Missionário e Fundador (grande apóstolo da África). Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus, 2014. Disponível em: http://www.santosebeatoscatolicos.com/2014/12/sao-daniel-comboni-bispo-missionario-e.html Acesso em 19 mar. de 2021.
UM grupo de cristãos chamados Missionários Combonianos. Brasil: Sem Fronteiras, 1985.

O Bispo missionário Daniel Comboni em fins da década de 1870, pouco antes de sua morte, por volta dos 50 anos de idade. Imagem disponível em: http://www.santosebeatoscatolicos.com/2014/12/sao-daniel-comboni-bispo-missionario-e.html acesso em 26/03/2021.


Leia mais

Leia também