Primeiro-ministro armênio renuncia e antecipa eleições um dia após Biden reconhecer genocídio


247, com Reuters – O primeiro-ministro armênio Nikol Pashinyan, que foi levado ao poder após protestos pró-democracia em 2018, renunciou ao cargo e deu início a um processo eleitoral antecipado após inúmeras críticas sobre como lidou com o conflito em Nagorno-Karabakh no ano passado.

Sua renúncia, que era esperada, acontece um dia depois de o presidente dos EUA, Joe Biden, afirmar que o massacre de armênios pelo Império Otomano em 1915 constituiu um genocídio, uma declaração que foi bem recebida pelos armênios em todo o mundo e condenada pela Turquia.

Pashinyan disse a Biden que a decisão simbólica era questão de segurança para a Armênia após o conflito de seis semanas sobre Nagorno-Karabakh, no qual a Turquia apoiou o Azerbaijão, vizinho da Armênia, onde o enclave povoado por armênios está localizado.

Pashinyan estava sob pressão para renunciar desde que concordou com um cessar-fogo depois que os armênios étnicos perderam território em combate com as forças azeris dentro e nos arredores de Nagorno-Karabakh.

Ele já havia indicado uma data de 20 de junho para eleições antecipadas.

Ao anunciar a renúncia, ele disse em sua página do Facebook neste domingo que estava devolvendo o poder recebido dos cidadãos para que pudessem decidir o futuro do governo por meio de eleições livres e justas.

Ele disse que foi obrigado a concordar com o acordo de paz, intermediado pela Rússia, para evitar maiores perdas humanas e territoriais. O exército armênio pediu sua renúncia e ele tentou demitir o chefe do Estado-Maior, decisão bloqueada pelo presidente da antiga república soviética.

Turquia reage contra EUA

Após o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, reconhecer oficialmente o genocídio do Império Turco-Otomano contra população armênia, a Turquia convocou o embaixador norte-americano no país, percebendo o ato como uma ameaça à paz regional.

A Turquia também nega a Biden o direito moral de “julgar questões históricas”, argumentando que o líder dos EUA não deveria ter voz nas questões regionais, citando a própria proposta de Ancara para a Armênia criar uma comissão de história conjunta para investigar os eventos centenários. 

O Ministério das Relações Exteriores turco argumentou que a medida apenas inflamaria as tensões latentes na região.

“Depois de mais de 100 anos de sofrimento passado, em vez de exercer esforços sinceros para curar completamente as feridas do passado e construir o futuro juntos em nossa região, a declaração do presidente dos Estados Unidos não trará nenhum resultado além de polarizar as nações e dificultar a paz e estabilidade em nossa região”, disse o ministério.

O ministério também acusou Biden de “distorcer fatos históricos” em sua declaração. A Turquia alega que isso abrirá “uma ferida profunda que mina nossa confiança e amizade”.

No Twitter, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, denunciou a ação como “oportunismo político” e “maior traição à paz e à justiça”.

Biden é o primeiro presidente dos EUA a se referir ao massacre de armênios em 1915 como “genocídio”.

Conflito entre EUA e Turquia

Nos últimos anos, os EUA têm pressionado a Turquia a abrir mão de sistemas de defesa, como os mísseis S-400 de fabricação russa; além do apoio dos EUA às milícias curdas na Síria, que são consideradas terroristas pela Turquia, e o apoio dos norte-americanos a Fethullah Gülen, acusado de ser o mentor de um golpe militar fracassado na Turquia em 2016, organizado pelos Estados Unidos.

Em carta, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan destacou que “ninguém se beneficia” quando os acontecimentos de 1915 estão “sendo politizados por terceiros e se tornando um instrumento de ingerência em nosso país”.

“Eu comemoro com respeito os armênios otomanos, que perderam a vida nas difíceis condições da Primeira Guerra Mundial, e estendo minhas condolências a seus netos”, escreveu Erdogan.

O presidente turco disse que desde a resolução da disputa em Nagorno-Karabakh (território em disputa), no ano passado, está pronto para desenvolver relações com a Armênia. A Turquia apoiou o Azerbaijão no conflito contra a Armênia na disputada região. Os enfrentamentos ​acabaram após um mês, com a trégua mediada pela Rússia.

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