POVOS INDÍGENAS: OS PRIMEIROS HABITANTES DE NOVA VENÉCIA

» Índios Botocudos do Rio Doce utilizando técnica milenar para fazer fogo. Foto: Walter
Garbe, 1909. Acervo: Biblioteca Nacional (Brasil)

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

O território do atual estado do Espírito Santo possui vestígios de ocupação humana que foram datados de pelo menos sete milênios atrás. Sendo a Arqueologia responsável por desvendar os mistérios que envolvem a vida dos povos originários nestas terras, é um consenso de que aqui viveram grupos humanos que pertenciam a dois troncos linguísticos: o Tupi-Guarani e o Macro-Gê.

Dentro da população destes troncos linguísticos é possível reconhecer quatro grupos que circularam no estado; os Tupi-Guarani, os Puri-Coroado, os Maxacali, Pataxó e Malali e os Gê ou Borum (denominados primitivamente de Aimorés e depois de botocudos em referência aos adornos que usavam nas orelhas e nos lábios).

Aqui no norte do Espírito Santo, há aproximadamente 6.500 anos antes do tempo presente, a faixa litorânea e algumas as bacias hidrográficas já eram povoadas. Entre 2.500 e 1.500 anos atrás se registram os primeiros indícios de agricultura e cerâmica nos povos primitivos que viviam em nosso litoral. A tradição ceramista encontrada próxima à foz do Rio Cricaré faz referência aos povos Tupi-Guarani, que com o advento do colonizador europeu há mais de 500 anos, sofreu um intenso processo de aculturação e se miscigenou. Hoje alguns de seus descendentes ainda resistem mantendo suas origens no município de Aracruz.

Outro grupo indígena com presença marcante em nossa região, a partir do século XVIII, e que resistiu até o século passado à colonização deste território foi o dos Gês ou Borum, que eram denominados de botocudos ou aimorés.

Ainda podemos citar os Maxacali, os Pataxó e os Malali, que viviam nas regiões próximas ao Cricaré. Já no sul do estado estavam presentes os Puri-Coroado. Mas, e nas terras que originaram Nova Venécia, que grupos indígenas viviam?

Os Indígenas no Território de Nova Venécia

Registros arqueológicos indicam que o território do município já era povoado há mais de 500 anos. Recentes e ainda inéditas descobertas de sítios arqueológicos em nosso município futuramente poderão levantar o véu sobre esse período de nossa História.

Contudo, sabemos que em 1911, o Inspetor do recém-criado Serviço de Proteção dos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN) no Espírito Santo, Antônio Martins Viana Estigarríbia, esteve na região do atual município de Nova Venécia para implantar um posto de atração com o objetivo de “pacificar” os indígenas que, naquele momento, estavam em conflito com fazendeiros e colonos, nada diferente do que vemos hoje nos noticiários, com relação à região amazônica, mais de 100 anos depois.

Ele identificou grupos de caçadores-coletores nômades que ainda habitavam a região, destacando três: os Giporok que circulavam na região entre o braço sul (rio Cricaré) e o braço norte (rio do Norte ou Cotaxé) do rio São Mateus; os Angrêtes ou Coroados que habitavam a região ao sul do braço sul (rio Cricaré) o que abrangia a região da atual APA da Pedra do Elefante, e o terceiro, infelizmente, naquele momento já dado como extinto, os Pip-Nuk que, segundo informava, foram aldeados na região que hoje leva seu nome e posteriormente dizimados pelo grupo rival dos Giporok.
O Inspetor Estigarríbia ainda acrescentou que Pip-Nuk era o nome de seu chefe e que todos esses grupos pertenciam à nação dos Aimorés.

Aproximadamente 45 anos antes de Estigarríbia fazer estes apontamentos, o geólogo Charles Frederick Hartt visitou a região do Rio São Mateus e nos deixou importante documento etnográfico onde descreveu os aimorés ou botocudos como de cor morena clara, que se pintavam com tintas feitas com urucum e jenipapo e não praticavam a agricultura como outros povos. Além dos botoques, usavam em seus corpos colares feitos de sementes e dentes de animais.

As armas mais utilizadas por esse grupo indígena eram o arco e a flecha, e seus chefes eram guerreiros escolhidos por sua força e valentia, sendo que o nome desse indivíduo era dado ao grupo, caso dos Pip-Nuk.

Faziam seus ranchos na floresta com folhas de palmeiras, instalavam fogueiras ao centro e utilizavam cuias e cabaças para preparar alimentos. Sua alimentação era constituída de sementes, frutos e raízes. Com a chegada dos colonizadores também se alimentavam de milho, bananas e mandiocas, que pegavam nas fazendas. Em relação à carne, preferiam macacos, como também onças, tamanduás, jacarés, lagartos e até jiboias, além de aves como mutuns e jacupembas e seus ovos. Ainda por meio de flechas ou raízes, atordoavam os peixes, facilitando a pesca.

Os botocudos adotavam a monogamia como constituição familiar, no entanto as mulheres eram subjugadas aos seus companheiros e responsáveis pelas crianças. Quanto à religiosidade, acreditavam em espíritos bons e um maligno, que Hartt traduz da língua borum como “Janchon”, que era muito temido por todos, a ponto de enterrarem seus mortos sob uma fogueira para que esse espírito não o levasse.

A riquíssima cultura desse povo se perdeu com o genocídio e etnocídio praticado contra eles em nossa região. Hoje identificamos raras reminiscências dos povos originários em nosso processo cultural. Alguns hábitos alimentares, a prática do banho diário, a toponímica regional e outras permanências nos indicam que temos muito a descobrir sobre as raízes indígenas em nós.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
HARTT, Charles F. Geologia e Geografia Física do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941.
HASSE, Geraldo, KOGURE, Linda e ALJEUS, Abmir. Suplemento especial Documento Estado: nº I – Os sete milênios dos antigos donos desta terra. Jornal A Gazeta. Vitória, 1992.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.

 

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