Pensão Pereira, uma história fincada no Centro de Nova Venécia

» Salão do almoço permanece com as antigas portas coloniais

Mesmo com o surgimento dos hotéis mais sofisticados, o estabelecimento simples e bucólico, permanece ali, desde os tempos que foi erguido. Trazendo comida caseira com gostinho de afetividade, o local serve água ainda do filtro de barro e conta com 11 dormitórios


Um ponto de encontro entre o passado, em meio ao Centro de Nova Venécia, que hoje, praticamente perdeu toda a identidade dos antigos casarios. Situada na principal via da cidade, na Avenida Vitória, a Pensão Pereira conta por si, um pouco da história do Município. A reportagem é Cintia Zaché, da Rede Notícia.

De um lado da calçada, uma portinha com uma placa muito simples escrito apenas, “Comida Caseira e Dormitório”, é o que há na fachada do estabelecimento. Quem passa por ali e vê algo tão simplório, jamais imagina a grandeza no sabor das comidas que tem lá dentro. Quem faz? A dona Florisbela, a filha mais velha do segundo casal proprietário da pensão, o seu João Pereira Pinto (In Memória) e a dona Vitória Bassani (In Memória). “Aqui quem cozinha sou eu, é o que o pessoal gosta, do meu tempero. Acordo às seis da manhã e já começo a preparar tudo, devagar vou dando conta”, relata ela, aos 84 anos, e com ainda muita vitalidade.

Sentada ao lado do fogão durante a entrevista, Florisbela conta um pouco do que é preparar as refeições, e com muito carinho, trazendo sempre para cada prato, aquele gostinho de afetividade. A irmã, a Almerinda Pereira Pinto, 67, que administra o local, sem a poderosa cozinheira saber, conta em um canto afastado que, devido à idade da Florisbela, já contratou uma cozinheira, mas não deu certo. “Não adiantou muita coisa, tive de dispensar. A Florisbela não se conformava e argumentava que era ela quem tinha que cozinhar para quem vem almoçar na pensão, que o sabor da comida dela é diferente, tive que deixá-la continuar na cozinha”, diz Almerinda.

No cardápio, cada dia um prato diferente, ali permanece a tradição do antigo PF, aquele, o Prato Feito. Exposto na mesa do cliente, um prato com o arroz e feijão, outro com a salada e outro com a carne, tudo separadinho, com um copo americano ao lado. Refrigerante tem para vender, mas a água não é aquela engarrafa, a mineral. “Nosso filtro é de barro, e a água que colocamos a mesa, caso a pessoa peça, é dali, filtrada à moda antiga”, fala Almerinda.

» Refeição da última sexta-feira (24) teve costela bovina ensopada, ou bife, à escolha da preferência de cada um

No dia da sessão de fotos para a reportagem, a vez do conteúdo do PF, que custa R$ 18, foi de arroz, feijão, macarrão, salada e costela bovina ou bife, com direito aquele cafezinho no final. “Uma situação que acontece rotineiramente é que, sempre pedem um ovo frito junto, o pessoal adora, pode ter a carne, mas tem que ter aquele ovo para colocar em cima do arroz com feijão”, descreve aos risos a Almerinda.

Funcionando de segunda-feira a sábado, a Pensão Pereira serve refeições a partir das 10h30, indo até as 13h30, para em média 35 pessoas por dia. Quando perguntado a Almerinda qual o segredo do local resistir ao tempo, trazendo ainda aquela famosa comida e hospedagem, ela descreve de uma forma bastante reservada. “Acho que o pessoal gosta de almoçar aqui pela simplicidade, existe ainda quem goste daquele sabor caseiro, tudo é feito com carinho, sem perder a herança na culinária deixada por nossa mãe”, conta.

Erguido por seu Geordano Salvador (In Memória), o estabelecimento, segundo a Almerinda, já existia antes da emancipação de Nova Venécia, em 1954, levando o sobrenome do idealizador do empreendimento, Pensão Salvador, que também já era dormitório. “Meu pai era amigo do seu Geordano e ficou sabendo que ele queria vender o imóvel. Nós morávamos na roça e mudamos para cá, com a finalidade de tocar o negócio”, conta Almerinda.


A história

A família, que morava no Córrego da Areia, na Comunidade Nossa Senhora D’Ajuda, assumiu a administração da empresa, que mudou então de nome no ato da compra, em 1973, sendo até hoje, a famosa, Pensão Pereira.

Nesta época, seu João Pereira Pinto e a dona Vitória Bassani, junto aos cinco filhos, a Maria José, a Judith, a Almerinda, Arlinda e o José, mais conhecido como Pereira, mudaram para a cidade, a fim de continuar com o funcionamento do negócio.

Somente esses filhos acima mudaram juntos, porque os outros, de acordo com a Almerinda, já tinham tomado outros rumos, como casado, por exemplo. Mas o casal teve 13 filhos. Além dos cinco e a Florisbela, que já foi citada na entrevista, a Florinda, Flozina, Florentina (In Memória), Joventina, Mariquinha (In Memória), Jovelina e Argeu.

De acordo com a Almerinda, quando os pais compraram o local, a comida ficava por conta da sua mãe, já as roupas de cama e de banho do dormitório, as lavadeiras buscavam as peças na pensão para lavar, e depois entregavam limpinhas.

Do mesmo jeitinho que foi construído, com as portas e camas de solteiro antigas, chão de assoalho, os quartos do dormitório continuam da mesma forma que foram erguidos, e com quartos trazendo uma vista para o majestoso Rio Cricaré. A diária de R$ 30, inclui o café da manhã. São 11 quartos, trazendo duas camas em cada, ventilador, já os banheiros, são coletivos, e tudo, muito limpo e organizado. “Até 2013 existiam as 20 unidades de dormitório ativas, porém, a enchente danificou a parte de baixo da casa, e ainda não reformamos”, diz Almerinda, que além da irmã, tem mais uma funcionária que auxilia nos trabalhos do local. São as três que dão conta de tudo ali, e com muito capricho, trazendo sempre aquele ar de simplicidade, envolvido em afetividade e muito zelo. “Tenho muito carinho pela pensão, eu estudei, fiz Contabilidade, magistério, o antigo adicional, mas, minha vida sempre foi traçada e dar vida a esse local, não tenho dúvida que esse é meu lugar”, finaliza Almerinda.