Pastor batista é aclamado ao trocar sermão por discurso contra injustiça social, preconceito e violência contra minorias

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A congregação, no templo lotado, aplaudiu em pé o pastor Usiel Carneiro de Souza, da Igreja Batista da Praia do Canto, que, no dia de seu aniversário, neste domingo (31), pela manhã, trocou o tradicional sermão dos cultos por um pronunciamento escrito previamente fazendo uma espécie de declaração de seu “credo pessoal” no qual enfatiza estar cansado das tradições que “mais afastam do que aproximam de Cristo a sua igreja”.

No discurso, Usiel, pastor de uma igreja que nos últimos anos tem redefinido seus caminhos por uma experiência mais vivencial do evangelho, sem abrir mãos e nem contrariar as doutrinas básicas da Convenção Batista Brasileira, refutou as críticas que sua congregação tem sofrido por conta dessa nova orientação, e enfatizou a sua visão de um evangelho mais próximo das pessoas mais sofridas.

O pastor da IBPC, que havia acabado de ser surpreendido por uma comemoração de aniversário pela congregação, tem repetido em vários sermões que “o Espírito Santo é um dos Estados mais evangélicos do Brasil, mas é também líder em violência doméstica”, o que para ele soa estranho.

“Creio que a igreja precisa aprender a reconhecer o pecado da injustiça social, do preconceito racial e da violência contra as minorias. O trabalho escravo, ainda uma realidade em pleno século 21, deve ser uma preocupação da igreja, assim como a pobreza, os moradores de rua e a violência contra mulheres. Somos um dos estados mais evangélicos do Brasil e ao mesmo tempo, um dos mais violentos contra as mulheres”, disse Usiel, acrescentando:

“Parece que a igreja perdeu de vista a dignidade da vida humana. Passou a considerar que ocupar-se da fome, combater a injustiça, o preconceito e o racismo, valorizar e respeitar os direitos humanos sejam marcas do comunismo e não do Evangelho de Cristo”.

Em seguida, ele confrontou críticas que têm sido feitas à sua congregação no meio evangélico: “Há pessoas que têm falado mal de nossa igreja, dizendo que somos uma igreja mundana, conduzida por um esquerdista, que acolhe homossexuais e que por tudo isso faz dela uma igreja mundana. Sinceramente, não me espanto e nem me ocupo dessas pessoas. Uma igreja, é de fato expressão do Reino de Deus, coloca-se no mundo como Corpo de Cristo na medida em que se parece com Deus em sua capacidade de amar, cuidar, acolher e servir. E não na medida em que se afasta e se diferencia do mundo”.

ÍNTEGRA DO PRONUNCIAMENTO

Usiel Carneiro é pastor titular há nove anos na Igreja Batista da Praia do Canto

“Hoje completo 59 anos. Exatamente às 19hs. Nasci em 31 de julho de 1963. Era uma quarta-feira, dia de culto na Primeira Igreja Batista de Governador Valadares, onde meu pai era pastor. Sou o filho mais novo de uma família de oito. Nasci na espetacular cidade de Governador Valadares. Tornei-me membro da Igreja Batista da Praia do Canto em 1991 a convite do então pastor, João Brito, para ajudar trabalhando com casais.

Em 2000 fui consagrado ao ministério e passei a pastor auxiliar da IBPC, durante o ministério do Pr Mecenas. Saí em 2007 e passei quatro anos no Banestes. Tempo em que também atuei voluntariamente em duas igrejas: a Igreja Batista em Eurico Salles e a Igreja Batista em Morada de Camburi, a convite do Pastor Erasmo Maia. Em 2011 recebi convite para voltar para a IBPC e passei a compor a equipe com meu querido amigo Pr Leandro. Em 2013, a pedido dele, invertemos a posição e eu passei a liderar a igreja. E aqui estou desde então.

Algumas pessoas não compreendem bem porque me recuso a fazer de meu aniversário um evento da igreja, quando isso é tão comum entre pastores. Não é porque eu não goste de fazer aniversário. Eu gosto! A razão é porque não seria correto. Somos uma comunidade de irmãos e irmãs em Cristo. Entre nós não deve haver especiais, somos todos iguais. E entre nós os que menos têm devem ser os mais honrados. Então, se a igreja for fazer festa de aniversário que seja para todos e especialmente para os irmãos e irmãs menos favorecidos entre nós. Não para o pastor.

Um pastor não deve ser visto como aquele que merece honras, pois realmente não merecemos. Tenho sido amado e respeitado por vocês, IBPC, e isso é tudo que desejo e sou muito feliz por isso. Decidi me pronunciar hoje de uma forma pessoal, neste dia do meu aniversário, porque desde que ultrapassei a casa dos 50 anos a vida vem se tornando cada vez mais preciosa aos meus olhos.

Cada vez quero perder menos tempo e cada vez quero celebrar mais a vida. Não quero me apegar a lutas sem importância ou abraçar causas que não representem para mim algo realmente de valor. Cada vez menos preocupo-me com as pessoas possam pensar de mim, ou com o julgamento dos membros de outras igrejas ou mesmo dos colegas de ministério. Não tenho compromisso com as idealizações sobre mim. Não sou perfeito. Sou apenas um ser humano.

Cada vez mais quero estar bem com Deus e com a minha consciência. Sou grato por tanto que Deus fez e tem feito por mim. Sou grato por minha família e esta igreja. Sou grato pelos amigos e pelas muitas oportunidades de servir. Portanto, decidi me pronunciar hoje contradizendo um pouco a ideia de fazer meu aniversário passar despercebido, especialmente devido às peculiaridades dos últimos anos.

Muitas mudanças: pandemia, muitas pessoas deixaram a IBPC e muitas pessoa vieram. Num ritmo e por motivos que têm tudo a ver com o que desejo lhes dizer nesta manhã. Imagine só: a razão que levou tantos a nos deixarem tem sido a razão de tantos outros desejarem se unir a nós. De várias formas temos nos tornado uma igreja diferente do que éramos até certo tempo atrás. Alguns dizem que nos desviamos do Evangelho. Tenho comigo uma outra certeza: a de que temos nos aproximado cada vez mais dele. Creio que temos compreendido melhor o que Jesus disse e fez. E com isso temos experimentado o que Jesus disse que experimentaria todo aquele que aprende dele: o seu jugo é suave e seu fardo, leve.

Sinceramente, já vinha cansado de uma vida cristã intensamente religiosa. Vinha sobrecarregado por regras e por formas consagradas como sagradas, mas que são apenas manias humanas.

Vivi tempo demais sob o peso de liturgias orientadas para a perpetuação de tradições e que muitas vezes eram mais valorizadas do que pessoas.

Vivi muito tempo aprendendo um cristianismo que precisava do templo, do culto, do retiro para funcionarem bem.

Vivi muito tempo vendo pessoas com muitos textos bíblicos nos lábios e quase nada do Evangelho na vida. Acabei incomodado demais com pessoas emocionadas com músicas e desrespeitosas com pessoas.

Reconheço que tudo isso é parte de uma percepção muito minha, pessoal. Já outros, no mesmo ambiente, pareciam felizes e realizados. Mas eu passei a sentir, entender e ansiar por algo mais. Passei a desejar uma espiritualidade mais leve, mais conectada à vida e mais orientada pelo amor. Passei o olhar mais para as pessoas, especialmente aquelas que não entendem os jargões religiosos e as expressões do gueto evangélico.

Passei a desejar menos templo e mais vida. Uma vida mais integrada e mais saudável. Uma vida que revele mais a influência do Evangelho do que o conhecimento de textos bíblicos. E uma espiritualidade que descansa mais no movimento de Deus no que nos métodos eclesiásticos.

Desde que decidi que o centro de minha espiritualidade seria o amor, encontrei-me irrevogavelmente com a maravilhosa graça de Deus. Passei a ver com mais clareza as falsidades de uma vida centrada no mérito, que nos leva a falar da graça e a negá-la na prática, sem que nos demos conta.

Percebi como é ridículo para pecadores agarrarem-se ao moralismo e julgar pessoas. O moralismo é uma atitude que cega para a vida e demoniza a humanidade. Os moralistas, na melhor das hipóteses, repetem o caminho dos escribas e fariseus do tempo de Jesus a quem nosso Senhor disse:

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo.

Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro eles estão cheios de ganância e cobiça. Fariseu cego! Limpe primeiro o interior do copo e do prato, para que o exterior também fique limpo.

Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade. (Mateus 23.23-28)

Sobre ser pastor, é algo que resisti por bom tempo e que não me adaptei a ser, no modelo dos muitos exemplos que tive. Não diria que sou um pastor melhor que outros pastores. Mas tenho consciência de que sou diferente de muitos. Sobre igreja, cresci dentro de uma e conheço muitas. Não julgo que a nossa igreja seja a igreja a ser imitada, mas é a melhor para mim. Celebro todas as mudanças que temos experimentado.

Quanto às minhas escolhas e decisões, tanto pessoais quanto pastorais, tenho seguido da melhor forma possível a minha consciência diante do Evangelho e creio na influência de Deus sobre mim. Com todas as limitações e fragilidades, creio no caminho cristão que se define pelo amor e pela a graça. Não acredito no ser humano como contribuinte com a redenção proposta pelo Evangelho. E isso muda muita coisa do que me ensinaram sobre minha vida com Deus e sobre igreja. Para mim ela é a comunidade daqueles que, acolhidos em Cristo, caminham juntos para expressar a presença do Reino de Deus.

Depois de 21 séculos da vinda de Cristo, vivemos momentos em que muitos perguntam o que é o Evangelho, o que é a igreja e quem é o cristão. Pois há muita confusão nos envolvendo. Segurar o mesmo livro sagrado, a Bíblia, definitivamente não significa carregar as mesmas ideias sobre Deus, sobre a vida e sobre o ser humano. E o Reino de Deus, de várias formas, revela-se na história pelo modo como mostramos o que acreditamos sobre Deus, o modo como lidamos com a vida e com as pessoas.

Quero falar um pouco mais a respeito do que penso sobre igreja. E antecipo que, o que penso sobre a Igreja tem a ver com o que acredito sobre Deus. E o que acredito sobre Deus tem mudado muito o modo como leio a Bíblia. O Evangelho de Jesus tem sido a chave de tudo isso. Alguém pensa que não há essa coisa de como alguém lê as Escrituras, mas apenas as Escrituras em si. E, claro, creem que as “Escrituras em si” está fielmente representada no modo como eles a leem e compreendem.

Há pessoas que creem dessa forma porque se apoiam em pastores, e não são poucos, que lhes asseguram que não há interferência humana na leitura das Escrituras. Que não há maneiras de se ler as Escrituras. E que lhes garantem que a leitura que fazem e a compreensão que tem são a verdadeira expressão da revelação de Deus. Quanta imaturidade por parte dos que acreditam e quanta desonestidade por parte dos que fazem essas afirmações!

Creio que o Evangelho é a maravilhosa notícia de que Deus ama e abraça pecadores. Ultimamente tenho traduzido isso como o encontro da alma humana com a graça divina. Um encontro promovido por Deus e não pelo ser humano. Um encontro que produz adoração a Deus e promove a saúde do ser humano, que eu chamo de santidade. A santidade cristã é saúde existencial. Ela torna o ser humano uma benção para outros seres humanos e para toda a criação de Deus. Ela faz de pecadores, adoradores.

Creio que igreja é, em essência, uma comunidade de pessoas que se caracteriza pelo amor e pela graça. Jamais pelas regras que seus membros seguem, mas pelo amor gracioso que revelam. Lendo as Escrituras creio que a igreja deve tornar-se capaz de revelar ao mundo o coração amoroso e gracioso de Deus. Deve ser um exemplo de que há lugar para pecadores junto ao trono da graça. Deve aproximar o mundo de Deus e mostrar o valor da criação de Deus, em lugar de tirar da Bíblia motivos para acusar pecadores e afastar-se do mundo.

O Senhor da Igreja encarnou e andou entre pecadores. Escolheu as ruas, as praias e os montes em lugar do templo que era tão sagrado para os religiosos judeus.

Creio que a igreja precisa aprender mais sobre pessoas, sobre o ser humano, para que possa andar melhor com Deus. E deve aprender mais sobre Deus para servir melhor aos seres humanos.

Creio que a igreja tem pecado por pretender conhecer mais de Deus do que de seres humanos. Peca quando despreza os caminhos que possibilitam o conhecimento do ser humano e, apega-se ao tradicionalismo. Ao fazer isso, ela estreita os caminhos para o conhecimento de Deus. Quando age assim a igreja se empobrece, torna-se apenas uma instituição religiosa para agradar aos próprios frequentadores e revela-se fraca na missão de revelar o Reino de Deus ao mundo.

 Creio que a igreja não deve ter como alvo ser uma seleção dos melhores, dos mais adaptados e domesticados pelas normas e regras da religiosidade. Creio que esse tipo de pretensão produz muita hipocrisia e promove o adoecimento de todos, mas especialmente de crianças e adolescentes, pois impõe a eles controles e expectativas que frequentemente desrespeitam a natureza humana e as fases de seu desenvolvimento. Cada criança, cada adolescente, cada ser humano importa. E além disso, o caminho proposto pelo Evangelho à igreja é outro.

Creio que o caminho da igreja é seguir a Jesus. Ele se uniu a pecadores, caminhou com eles e jamais desistiu de nenhum deles. A vocação de Jesus foi revelar o amor de Deus e levar sobre si os pecados humanos. A igreja deve revelar o amor de Deus e levar sobre si os pecados das pessoas. A igreja não deve se importar de ser criticada ou incompreendida. Jesus jamais foi compreendido e foi muito criticado. Sua missão não é atender à consciência dos religiosos mas manifestar a presença do reino de Deus.

Creio que a igreja precisa cada vez menos se escandalizar com o mundo e cada vez menos pretender enquadra-lo em seu própria ética e moralidade. E deve cada vez mais amar as pessoas e cada vez mais tornar-se um espaço amigável para que possa indicar a todos que desejarem o caminho da cruz.

Creio que a igreja precisa aprender a reconhecer o pecado da injustiça social, do preconceito racial e da violência contra as minorias. O trabalho escravo, ainda uma realidade em pleno século 21, deve ser uma preocupação da igreja, assim como a pobreza, os moradores de rua e a violência contra mulheres.

Somos um dos estados mais evangélicos do Brasil e ao mesmo tempo, um dos mais violentos contra as mulheres. Parece que a igreja perdeu de vista a dignidade da vida humana. Passou a considerar que ocupar-se da fome, combater a injustiça, o preconceito e o racismo, valorizar e respeitar os direitos humanos sejam marcas do comunismo e não do Evangelho de Cristo.

Há pessoas que têm falado mal de nossa igreja, dizendo que somos uma igreja mundana, conduzida por um esquerdista, que acolhe homossexuais e que por tudo isso faz dela uma igreja mundana. Sinceramente, não me espanto e nem me ocupo dessas pessoas. Uma igreja, é de fato expressão do Reino de Deus, coloca-se no mundo como Corpo de Cristo na medida em que se parece com Deus em sua capacidade de amar, cuidar, acolher e servir. E não na medida em que se afasta e se diferencia do mundo.

Obrigado a IBPC por aceitar meu pastoreio. Obrigado por lidar bem com minhas limitações e por unirem-se a mim para experimentarmos o Evangelho de Cristo, vivermos da Graça, desfrutarmos o Amor de Deus e celebrarmos a presença de Deus na vida, não apenas no culto. Vamos nos unir e seguir firmes.

Há quem pense que estamos agonizando ou que nossos dias estejam contatos. Ignoram ou não querem reconhecer a graça de Deus sobre nós. Temos um tema a nos inspirar: Orar e Agir. Vamos seguir comprometidos.

Termino com algumas palavras de Paulo: Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus. (Fl 1.6)

“Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Mas graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil. (1 Co 15.55-58)”

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