PAIXÃO PROIBIDA: AS RELAÇÕES ÉTNICAS ENTRE NEGROS E INDÍGENAS NO INÍCIO DA COLONIZAÇÃO DE NOVA VENÉCIA

Vista da região da Serra de Baixo (terras da antiga “Fazenda da Serra dos Aymorés”) na Área de proteção Ambiental Pedra do Elefante, a partir do morro do “Mirante das Torres” localizado entre o vale do Córrego da Lapa e a região da Terra Roxa. A Serra de Baixo e seus arredores foram cenário da “paixão proibida” de um negro por uma indígena, no início da colonização de Nova Venécia, a qual teve consequências trágicas. Foto: Rogério Frigerio Piva, 2012

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

De certa feita, encontrou índios amotinados, cantando uma onomatopeia. Quis saber o motivo daquela cerimônia. Os índios disseram que uma índia foi apanhada por um civilizado, que era um negro. O Barão mandou colocar um negro no tronco e chegar os ferros nele. Os índios se sentiram vingados. E assim ele pôde fundar em paz sua nova fazenda, que ficou nos contrafortes de uma serra que hoje é conhecida como Serra de Baixo, a 12 quilômetros para o sul da sede do município de Nova Venécia.” Eugênio Cunha (neto do Barão de Aymorés), 1974. (Entrevista concedida ao jornalista Rogério Medeiros, publicada no jornal “A Tribuna” de Vitória-ES).

Os escassos registros escritos e orais que nos apresentam o
início da colonização do território que atualmente pertence ao município de
Nova Venécia, no coração do norte do Espírito Santo, sempre transmitiram a
ideia de que a chegada de luso-brasileiros, africanos e afro-brasileiros a
estas terras se deu de maneira totalmente pacifica, mesmo registrando algumas
tensões, mas sem maiores consequências, como a pitoresca história do “Senhor do
Sol”, lembrada pela nossa querida Dona Ecila Emiliana Capucho, proprietária da
bucólica Fazenda Santa Rita na APA da Pedra do Elefante.

A fundação da “Fazenda da Serra dos Aymorés” pelo major
Antônio Rodrigues da Cunha, em 1870, é o marco originário do que hoje é a cidade
e município de Nova Venécia. Porém nosso território já era ocupado por povos
indígenas milhares de anos antes, no que podemos afirmar que este não foi o
começo da história da presença humana nestas terras. Contudo, a chegada de
luso-brasileiros, africanos e afro-brasileiros por aqui, gerou um grande
impacto nos povos originários que aqui resistiam preservando suas culturas,
fazendo com que, aqueles não aculturados, fossem lentamente exterminados, seja
por conflitos ou doenças.

Quanto ao papel do colonizador de origem europeia muito já
se abordou a cerca da violência e imposição de sua cultura, porém, aspecto que
merece um aprofundamento diz respeito às relações étnicas entre indígenas e
afro-brasileiros que ocorreram por aqui. Estas foram por vezes pacíficas e
formadoras de alianças, devido a elementos comuns identificáveis entre estes
povos, porém em alguns casos houve conflito, como o que relatamos acima.

Registros históricos mostram em diferentes escalas a
miscigenação entre indígenas, africanos e afro-brasileiros no sertão do
Cricaré. Neste caso, a tradição oral relatada pelo senhor Eugênio Neves Cunha
(pai do patrono da Biblioteca Pública Municipal de Nova Venécia, o Dr. Eduardo
Durão Cunha) registra a paixão fulminante de um “negro” por uma indígena,
deixando os integrantes do grupo indígena (provavelmente pertencente a nação
borum/botocudo) em pé de guerra no exato momento em que estava sendo fundado um
dos principais latifúndios no extremo oeste do antigo município de São Mateus,
pelo futuro Barão de Aymorés. Seu relato deve ser considerado, pois ele
(Eugênio Cunha) era neto do barão e provavelmente escutou a história de seu
pai, Wantuyl Rodrigues da Cunha, um dos filhos mais velhos do segundo
casamento.

 O breve relato que
foi transcrito pelo jornalista Rogério Medeiros, que afirma somente que a
“índia foi apanhada” não nos permite ter certeza se a indígena foi, na gíria da
época, “pega a laço” pelo negro ou se ela consentiu ir junto com ele. Porém,
aqui caem por terra as afirmações sobre o não uso de castigos corporais pelo
fazendeiro, que não hesitou em “colocar um negro no tronco e chegar os ferros
nele” para assegurar a pacificação dos indígenas e a implantação de seu novo
empreendimento comercial. Apesar de grande empreendedor, de ser dito que
trataria seus cativos com humanidade e de tê-los libertado antes da abolição,
mantendo-os como trabalhadores livres em sua fazenda, o major Cunha era um
homem de seu tempo e agiu como normalmente agiriam todos os homens de sua
época, presos a uma mentalidade escravocrata.

Pela forma como o Sr. Eugênio Cunha relatou, o negro que foi
supliciado não seria o mesmo que “apanhou” a índia, pois cita apenas “um
negro”. Ele também não esclarece se o “negro” que a “apanhou” foi capturado,
deixando nossa imaginação livre para especular o que aconteceu com o casal que,
simbolicamente, representa para nós o início da miscigenação entre africanos,
afrobrasileiros e indígenas neste sertão do Cricaré. Infelizmente não temos
mais detalhes sobre esse episódio que marcou de maneira trágica o início da
colonização deste território. Esse conflito inicial não deve ser tomado de
forma genérica, tendo em vista que, mesmo entre os indígenas, havia sérias rivalidades
e desavenças. Há indícios de que houve também grandes alianças e relações
pacíficas entre indígenas, africanos e afro-brasileiros como as registradas em
1911, pelo então Inspetor do Serviço de Proteção aos Indígenas e Localização de
Trabalhadores Nacionais (SPLTN) no Espírito Santo, Antônio Martins Viana
Estigarríbia, como a intrigante referência a um grupo tribal denominado “Marvouh”,
(Mavón ou Mawon) que segundo ele seriam “pretos”, no que a professora Izabel
Missagia Mattos, citando linguista B. Rudolph diz significar “mestiço de negro
e índio”, demonstrando mais uma vez que havia miscigenação entre negros e
indígenas mesmo antes destes serem “pacificados”.

Infelizmente, Estigarríbia não nos oferece maiores detalhes
acerca deste grupo que, pelo que ficou registrado nos relatórios do SPILTN, não
chegaram a ser contatados. Seriam eles africanos ou afro-brasileiros vivendo
com indígenas segundo a sua cultura e formando um verdadeiro quilombo em meio a
Mata Atlântica? Provavelmente nunca saberemos. Porém, no mesmo relatório,
Estigarríbia fala de um “velho africano” chamado Ladislau, o qual ele contratou
para servir de intérprete entre ele e os Giporok, grupo dos Borum/Botocudo que
estava sendo pacificado pelo SPILTN em Nova Venécia, devido ao fato que: “Esse
homem quando escravo, fugiu de seus senhores, acolheu-se a uma tribo de índios,
acompanhando-a por muito tempo. Dahi lhe vieram as relações e um certo
conhecimento da língua, de que se valeu agora para pôr-se em contato com elles
e modera-los.”

Tais relatos nos mostram como indígenas, luso-brasileiros,
africanos e afro-brasileiros iam se miscigenando e ajudando a formar o brasileiro
atual. Nesse processo, por vezes pacífico ou violento, foi-se gerando um povo,
sobre o qual o grande Darcy Ribeiro, em sua obra “O Povo Brasileiro”,
refletindo sobre a miscigenação que nos gerou destaca: “Todos nós, brasileiros,
somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós
brasileiros somos, por igual, a mão possessa que o supliciou. A doçura mais
terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente
sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos.”

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Fonte Documental:
·ESTIGARRÍBIA, Antônio M. V. Serviço de protecção aos indios e localização de trabalhadores nacionaes. In: O Diário. Ano VII, Nº 297, 31/10/1912, p. 1 e Nº 298, 01/11/1912, p. 1 e 2. Vitória: Oficcinas d’O Diário. – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional (RJ).

Fontes Bibliográficas:
MATTOS, Izabel M. Civilização e Revolta: os Botocudos e a catequese na Província de Minas. Bauru: EDUSC, 2004. MEDEIROS, Rogério. A história do colonizador do norte do estado. Disponível em: http://projetopipnuk.blogspot.com/2012/12/eugenio-cunha-historia-do-colonizador_1.html. Acesso em: 18 dez 2020.

PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. –1 ª ed. 1995–2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes


Leia mais

Leia também