“Os europeus não querem ficar para trás”, diz analista sobre possível cúpula entre UE e Rússia


Sputnik – Nesta quinta-feira (24), 27 líderes de países-membros da União Europeia (UE) começaram o primeiro dia de uma cúpula na qual abordam vários assuntos, como as relações com Rússia e Turquia, o contexto europeu pós-pandemia e questões migratórias.

O encontro, que acontece em Bruxelas, na Bélgica, começou com um diálogo entre o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, anunciado no Twitter do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel.

Para saber mais a fundo sobre os objetivos gerais do encontro, como será discutida a questão entre a União Europeia e a Turquia e a proposta apresentada para uma cúpula UE-Rússia, a Sputnik Brasil conversou com o professor e doutor Demétrio Cesário, coordenador do núcleo de Relações Internacionais da ESPM, em São Paulo.

A Cúpula e os temas do encontro

Cesário conta que a Cúpula da UE é um órgão administrado pelo Conselho Europeu dentro da própria União Europeia, que em 2009 ganhou um presidente específico, representado pelo ex-primeiro-ministro da Bélgica, Charles Michel. Os encontros da cúpula são bastante regulares e envolvem os 27 líderes do bloco.

Segundo o professor, as expectativas em torno dessas reuniões são sempre grandes, pois além de reunirem os representantes máximos dos países sabe-se que o Conselho Europeu é o grande centro impulsor de decisões políticas do bloco.

Sobre os temas abordados, Cesário acredita que estará no topo da agenda questões relacionadas à pandemia, visando uma perspectiva de abertura dos países para geração de receita através do turismo, assim como discussões acerca do passaporte europeu de vacinação.

Porém, o professor pontua que essa circulação de pessoas pode se normalizar mais internamente, entre os países europeus, e possivelmente não abrangerá o Brasil, a Índia e outros países que não estão com a pandemia controlada.

A recuperação econômica do bloco pós-pandemia também será um tema abordado. Questões de imigração e as relações com a Rússia e a Turquia também estarão na agenda, de acordo com o professor.

Entretanto, Cesário diz que gostaria de ver como pauta da cúpula o acordo Mercosul-União Europeia, assunto que interessaria muito aos brasileiros.

Portugal, que está atualmente na presidência do Conselho da União Europeia (órgão abaixo do Conselho Europeu) tem enorme interesse para que esse acordo se ratifique, e o professor gostaria que o país exercesse sua influência para finalmente concluir o pacto.

Questão migratória

Cesário explica que a questão migratória é um assunto sensível para Europa, e que o bloco vem paulatinamente tentando equilibrar a questão, encontrando como solução barrar a migração oriunda de países fora da do continente, liberando com maior fluidez apenas o trânsito de pessoas com passaporte europeu.

“A maioria dos migrantes vem do Leste Europeu em direção aos países do oeste. E tem as fronteiras externas da UE, reguladas pela Frontex [Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas], que devem cuidar bastante da questão do Mediterrâneo, especialmente em relação [as pessoas que vêm] da Itália, da Líbia, onde naufragam muitos barcos, do Norte da África e especialmente da fronteira entre a Grécia e a Turquia”, contou o professor.

Ele enfatiza que nessas áreas existe um controle maior e que possivelmente essas regiões podem ser abordadas no encontro.

Turquia e UE

Conforme citado anteriormente, a Turquia também será uma pauta da cúpula. Mas por que Ancara recebe tanta atenção do bloco europeu?

Cesário explica que o país tem uma relevância nos assuntos da UE por uma parte territorial do mesmo ser dentro da Europa, e pelo fato da Turquia ser “uma eterna candidata” a entrar no bloco, já que tenta fazer parte da União Europeia desde 1987.

As imigrações provenientes de Ancara também são uma questão para a UE, pois há uma comunidade turca muito forte na Europa, especialmente na Alemanha. Além disso, há entraves com a Grécia e com o Chipre, segundo o especialista.

De acordo com o professor, as relações entre a Turquia e o bloco acontecem “entre idas e vindas instáveis” por conta de todas essas questões, e que por isso, há uma baixa probabilidade de Ancara entrar para o quadro de países-membros da UE.

Cúpula União Europeia e Rússia

Durante o encontro, o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, devem propor a realização de uma cúpula UE-Rússia, que seria a primeira desde 2014.

Antes de entendermos os objetivos da proposta e se a mesma teria sucesso, é importante destacar a importância desses dois países no bloco, os quais, segundo o especialista, exercem profunda influência nas tomadas de decisões da união.

Para Cesário, França e Alemanha sempre foram os motores da integração europeia desde o princípio da comunidade, sendo os líderes desse processo de união entre os países e até hoje continuam a dominar o bloco. Com a saída do Reino Unido por conta do Brexit, o terceiro país com maior influência seria a Itália.

A partir do momento que a proposta para uma cúpula entre Rússia e União Europeia origina dessas duas nações, existe uma grande chance da ideia prosperar pois “em geral, os países acabam aderindo as propostas desses dois países”, explicou o analista.

Entretanto, mesmo com essa robusta influência, Cesário acredita que pode haver uma forte resistência por parte de outros países, principalmente os do Leste Europeu, especialmente a Polônia, e os países bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia.

“Esses países que fizeram parte da União Soviética, e que tiveram sua independência em 1991, têm uma oposição muito forte em relação à Rússia, além do receio de que essa dominação também possa voltar.”

O professor também enfatiza como forte oposição a Polônia, onde foi assinado o Pacto de Varsóvia, pois os poloneses “não têm uma lembrança muito boa da época da União Soviética”.

O país é o mais forte do Leste Europeu, que pode se opor a essa cúpula, pois grande parte das votações e a própria composição do Parlamento Europeu é baseada na população, e a Polônia é o país mais populoso da região.

Ao mesmo tempo, na interpretação do especialista, essa cúpula entre União Europeia e Rússia seria muito importante. Em primeiro lugar porque Moscou é vizinha da Europa e há uma parceria estratégica, ou seja, existem relações próximas, assim como há relações delicadas, como a questão da Ucrânia e da Belarus.

“Após a anexação da Crimeia por parte da Rússia, a União Europeia emitiu sanções contra Moscou, e uma cúpula poderia tratar do cancelamento dessas sanções”, explicou Cesário.

Contudo, o especialista diz que após o encontro de Biden com Putin, os europeus ficaram “sentidos” com essa reunião, e “não querem ficar para trás, já que eles têm relações muito mais próximas tanto comerciais como territoriais com a Rússia”, completou.

Bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas, na Bélgica 06/03/2019

Bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas, na Bélgica 06/03/2019 (Foto: REUTERS/Yves Herman)

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