ONDE “DORMEM” OS MORTOS: OS PRIMEIROS CEMITÉRIOS NO SERTÃO DO CRICARÉ

» Detalhe de foto datada do início da década de 1950 onde se vê o primeiro Cemitério Público de Nova Venécia ao fundo da primeira igreja Matriz de São Marcos. Esse cemitério foi extinto em 1960 para construção da atual Matriz. Desde 1956 os sepultamentos já eram feitos no atual Cemitério Senhor do Bonfim. Apesar de se acreditar por décadas que todos os sepultados foram exumados, descobertas recentes confirmam que ainda existem sepultamentos no local. Foto do Acervo: Orietta Toscano (in Memoriam).

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

Ao se aproximar o Dia de Finados os “lugares dos mortos na terra dos vivos”, parafraseando a historiadora carioca Cláudia Rodrigues, assumem destaque em nossa sociedade com todo seu simbolismo acerca de como lidamos com a morte, em especial, a saudade que sentimos de nossos entes queridos falecidos.

Os cemitérios como hoje conhecemos surgem a partir do século XIX, ao menos na América Portuguesa. Nos séculos anteriores os sepultamentos se davam no interior e ao redor das igrejas. Dessa forma o primeiro local de sepultamento cristão em nossa região é, sem dúvida, a antiga igreja Matriz de São Mateus, fundada na primeira metade do século XVIII. Este local só foi substituído pelo Cemitério Público no Centro de São Mateus em meados da década de 1850. Este é o cemitério mais antigo, e ainda em funcionamento, que temos no vale do Cricaré.

Não podemos esquecer que desde tempos imemoriais os povos indígenas praticavam rituais de sepultamento de acordo com os costumes de sua etnia. Os tupis, próximos ao litoral, enterravam seus mortos em suas aldeias. Achados arqueológicos recentes em São Mateus comprovam essa prática e indicam vários locais de sepultamento indígena. Os Macro-Gê, que habitavam o sertão do Cricaré eram caçadores-coletores nômades, sepultavam onde estavam arranchados, não destinando um local específico a esse ritual. Como não temos estudos arqueológicos na nossa região, até o momento não é possível identificar os locais dos enterramentos indígenas ocorridos no período anterior à colonização, e mesmo posterior a este.

O primeiro cemitério do qual temos notícia nestes sertões surgiu na Fazenda do Cachoeiro do Cravo de propriedade do Major Antônio Rodrigues da Cunha. Temos registro de que já estava ativo por volta de 1868. Essa região pertenceu ao território do segundo distrito de São Mateus (atual município de Nova Venécia) até 1949 quando passou a pertencer ao distrito de Nestor Gomes, um dos criados por desmembramento do distrito de Nova Venécia naquele ano, permanecendo ainda hoje em território mateense.

Primeiros cemitérios no município de Nova Venécia

O Cemitério Particular da Fazenda da Boa Esperança (atual região de Serra de Cima), propriedade do Coronel Matheus Gomes da Cunha, provavelmente surgiu entre fins da década de 1870 e início da década de 1880, a tradição oral afirma que tinha uma parte separada para sepultamento de pessoas escravizadas.

Ainda no vale do Córrego da Boa Esperança houve um pequeno cemitério particular onde se sepultavam principalmente cearenses, a tradição oral também informa que próximo a ele foi construída uma capela em honra a Nossa Senhora dos Anjos. Esta capela foi depois transferida para região da Água Preta (próximo ao Assentamento do Pip-Nuk).

Outro local muito utilizado para sepultamentos era o Cemitério Particular da Fazenda da Terra Roxa, então pertencente ao fazendeiro Constante Gomes Sudré, localizado em região próxima ao Rio Preto (Assentamento Zumbi dos Palmares) foi substituído no final da década de 1930 pelo atual Cemitério do Rio Preto.

Esse e os outros cemitérios anteriormente citados recebiam os sepultamentos das regiões que lhes eram vizinhas, pois não era comum naquele tempo, devido às dificuldades de transporte, fazer grandes deslocamentos para sepultar. Geralmente se sepultava na mesma região onde se havia falecido. No alvorecer da República e do próprio século XX esses velhos cemitérios ou se tornaram públicos ou foram extintos.

Em 1892 o governo do estado criou o Núcleo Colonial Nova Venécia demarcando lotes coloniais no Córrego da Serra e no Rio Cricaré. A sede do Núcleo foi estabelecida onde hoje fica o Centro da cidade, mais precisamente nos arredores do que hoje é a Praça São Marcos. Do lado leste do largo que posteriormente deu origem ao logradouro, ficava o barracão para acolhimento de imigrantes recém-chegados e do lado oeste o local onde se estabeleceu o Cemitério Público de Nova Venécia que existiu até 1960 quando parte dele foi ocupada pelo altar da atual Matriz de São Marcos. Hoje o local exato que tinha uma modesta área de 36×37, 5 metros, além de parte da igreja matriz foi ocupado por um estacionamento e pela Gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Obras de reforma e ampliação do antigo hospital que existiu em terreno ao lado do mesmo no ano de 1995 e as recentes obras de construção do muro de arrimo da Matriz do lado sul, em 2019, revelaram que diversas sepulturas permaneceram intactas no local até os dias de hoje contrariando a ideia de que todos os restos foram exumados em 1960. Ao menos os restos de seis sepultamentos contíguos a lateral sul do cemitério foram revelados em 2019 na construção do muro e os restos encontrados foram respeitosamente recolhidos e albergados em uma caixa de granito na base de um cruzeiro instalado na Gruta de Nossa Senhora de Lourdes que aguarda uma identificação como memorial ao primeiro Cemitério Público da cidade cujo sítio histórico-arqueológico ali permanece.

Juntamente com o primeiro Cemitério Público do que hoje é a cidade de Nova Venécia foi também criado o Cemitério Público do Pip-Nuk localizado do lado oposto à foz do Córrego da Volta. Os primeiros sepultamentos dos colonizadores do atual município de Vila Pavão foram feitos nele, pois era o mais próximo daquela região. Foi ativo até meados da década de 1950, hoje também se encontra extinto, porém no local que virou pasto ainda existem alguns pequenos vestígios de sua existência.

Com o avanço da exploração e colonização do território do município já nas décadas de 1920 e 1930 outros locais surgiram como o Cemitério Público do Refrigério, Cemitério da Cristalina, Cemitério do Córrego da Penha só para citar os mais antigos que ou ainda estão ativos ou já foram substituídos por outros e em seus locais surgiram cafezal ou pasto pelo interior a fora. Entre as décadas de 1940 e 1950 houve um grande número de novos cemitérios.

Já na cidade o segundo cemitério público substituiu o primeiro em 1956, porém este só teve o nome de “Cemitério Senhor do Bom Fim”, oficializado por lei, em 1983 quando a cidade inaugurou sua mais nova necrópole, o Cemitério São Marcos, que hoje, superlotado, vem recebendo periódicas ampliações.

A palavra Cemitério vem do latim tardio COEMETERIUM que por sua vez se originou do grego Kimitírion que, derivando do verbo kimáo, lembra a esperança dos primeiros cristãos de que quem ali “jaz deitado”, dorme a espera da “Ressurreição dos Mortos”.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
Fontes Documentais:

· Códice 352 (São Mateus – Assuntos Eclesiásticos e Outros – Correspondência Recebida pelo Presidente da Província da Câmara Municipal – 1846-1870) – Série Documental Accioly – Fundo Governadoria – Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.
· Livros 01-C, 02-C e 03-C (Registro de Óbitos) – Cartório de Registro Civil e Tabelionato de Nova Venécia (ES).
Fontes Bibliográficas:
LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. Origem Histórica dos Cemitérios. São Paulo: Secretaria de Serviços e Obras da Prefeitura do Município, 1977.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
PIVA, Rogério F. Exumando Memórias: o primeiro cemitério público da cidade de Nova Venécia (1892-1960). In: Jornal A Notícia. Nº 2.706. Ano XXIII. Páginas 04 e 05. Data: 01/11/2012. Disponível em: http://projetopipnuk.blogspot.com/2012/11/exumando-memorias-o-primeiro-cemiterio.html . Acessado em 23/10/2020.
RODRIGUES, Claudia. Lugares dos mortos na cidade dos vivos: tradições e transformações fúnebres no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura do RJ, 1997.

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes

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