“O povo está cansado de Pereiras e dos Anjos”, Mito ou Verdade?

Sempre que o assunto é política, moradores de Barra de São Francisco usam uma frase que já se tornou popular. “O povo está cansado de Pereiras e dos Anjos”, referindo-se às duas famílias que dominam a política na cidade há mais de 30 anos.

Mas será que isso é realmente verdade? Ou será apenas um Mito?

Desde que Edinho Pereira, em 1982, e Enivaldo dos Anjos, em 1988, foram eleitos prefeitos, a cidade nunca mais teve um prefeito sem ligação com os dois políticos. Quando não eram os próprios na disputa, sempre tinha alguém que contava com o apoio de um dos dois. Isso sem contar as inúmeras vezes que eles conseguiram garantir um mandato de deputado.

Zé Lauer foi eleito em 1992 e teve como padrinho político Enivaldo dos Anjos. Ele administrou o município de 1993 a 1996 e logo após deixar a prefeitura teve que se mudar do município.

Quem assumiu o comando da cidade no ano seguinte foi José Honório Machado, que teve como padrinho político Edinho Pereira. Ele venceu o candidato apoiado por Enivaldo e administrou o município de 1997 a 2000. Porém, na reta final do seu mandato, Machado prestava continência muito mais à Enivaldo que ao próprio Edinho.

Nessa época, porquíssimas pessoas falavam a frase, que atualmente ainda é usada por quem declara independência dos dois caciques políticos. Mesmo assim, eles continuaram ditando as regras e definindo qual seria os rumos da cidade.

A eleição do ano 2000 deixou ainda mais evidente a intenção dos dois grupos se perpetuarem no poder. Foi a primeira vez que moradores cogitaram “a terceira via”, quando decidiram apoiar o empresário Jonas Gervásio (Check Parafusos) para prefeito.

Parecia que a era “Pereira e dos Anjos” tinha chegado ao fim. Após anos elegendo representantes dos dois grupos, surgiu a oportunidade da cidade ter um nome que não era ligado a Edinho, nem a Enivaldo.

Para tristeza de alguns e felicidade de outros, a continuidade da alternância dos dois grupos no poder se confirmou com a eleição de Edinho Pereira.

O que pouco sabem nessa parte da história é que Edinho venceu Check com a ajuda de Enivaldo dos Anjos.

Tudo aconteceu “da noite pro dia”.

Com a campanha de Check a todo vapor e ele como favorito para vencer a eleição daquele ano, o grupo rejeitou o apoio de Enivaldo. O troco veio rápido e Edinho, ao contrário de Check, não dispensou o apoio do adversário. Essa história tem mais detalhes, mas deixaremos para outra ocasião.

Edinho assumiu em 2001 e deu início a um mandato marcado por denúncias e muito populismo. Ele se consagrou como o político mais popular da cidade, porém, como administrador, não tinha o mesmo sucesso. Atrasos no pagamento de funcionários e fornecedores marcaram época.

A eleição de 2004 seria, em tese, uma nova oportunidade de mudar a administração municipal de Barra de São Francisco, pois muitos acreditavam que Check, que “bateu na trave” na eleição anterior poderia vencer dessa vez. Mas em política as coisas mudam muito rápido.

O Check já não era a “bola da vez” e Enivaldo não estava disposto a apoiar os Pereiras novamente. Edinho tinha outros planos e dependia de uma reeleição.

Surgiu então o nome do servidor público Waldeles Cavalcante, contador da Câmara Municipal.

Para a grande maioria que não acompanha de perto a política, Waldeles era considerado a “terceira via”, termo que ressurgiu no município naquele ano. A estratégia de fazer parecer um grupo independente agradava boa parte do eleitorado e muitos que, já na naquela época, diziam estar cansados de “Pereiras e dos Anjos”, viram no contador a chance de tirar as duas famílias do poder.

A questão é que, mais uma vez, a história estava sendo contada bem diferente do que realmente era. Waldeles nunca foi independente, seu DNA político era 100% “dos Anjos”. Mesmo assim, o conto do vigário emplacou.

Lançado e apoiado pelo grupo de Enivaldo, Waldeles foi um adversário forte e a eleição ficou polarizada entre os dois grupos, deixando Check isolado.

Mas não adiantou. Mesmo com todo empenho de Enivaldo e Cia., Edinho foi reeleito e comandaria a cidade por mais 4 anos.

Enivaldo também foi vencedor nessa eleição, pois conseguiu reerguer um grupo que estava apagado. Comparado a 2001, quando não conseguiu lançar um candidato, foi rejeitado pelo grupo de Check e teve que ajudar e eleger Edinho, o então Conselheiro do Tribunal de Contas viu novamente seu capital político crescer na cidade, abrindo caminho para projetos futuros. E deu certo!

Dois anos depois, Enivaldo elegeu seu filho, Giuliano dos Anjos, deputado estadual. Edinho fez seu dever de casa e também garantiu uma vaga para Luciano Pereira na Assembleia Legislativa.

Em 2006, muitas peças foram movimentadas no tabuleiro político de Barra de São Francisco. Com dois deputado estaduais eleitos, a cidade ganhou destaque no estado e a hegemonia de “Pereiras e dos Anjos” foi estabelecida.

Mas os Pereiras tiveram uma baixa nesse ano. Antes da eleição de deputado, o prefeito Edinho Pereira teve seu mandato cassado. Para sorte dele, tudo que planejou para eleger Luciano naquele ano estava feito e mesmo sem o pai no comando da cidade, Luciano foi eleito.

Waldeles, que havia perdido a eleição para Edinho dois anos antes, assumiu a prefeitura de Barra de São Francisco e tornou-se popular. Com a prefeitura “entregue às moscas”, não foi difícil para Waldeles ter destaque. Simplesmente passou a pagar os funcionários em dia, pagou alguns fornecedores e garantiu o favoritismo para a eleição de 2008.

Waldeles tinha do seu lado todo o grupo de Enivaldo. Tinha também alguns que ainda não sabiam que ele tinha “dos Anjos” no DNA e outros que surgiram, vindo dos Pereiras, após a troca de poder.

A popularidade do novo prefeito era tamanha, que o grupo de Edinho e Luciano, mesmo com Waldeles “atravessado na garganta”, não se arriscou. Estrategicamente, lançaram o antigo vice de Edinho, Juraci Virgilino, “para perder” para Waldeles. Eles sabiam que a chance de uma vitória naquela eleição era remota, mas tinham que manter o pouco que restava do grupo e tentar se fortalecer para a próxima eleição.

Waldeles foi para seu segundo mandato em 2009 e logo viu que aquela facilidade encontrada nos primeiros meses que assumiu após Edinho ser cassado tinha ficado para trás. Agora ele era o prefeito eleito e o antecessor era o próprio. Dois anos e alguns meses já tinham se passado e não colava mais a desculpa de que tudo era culpa de Edinho.

Naquele fim de mandato o véu já tinha caído e não era mais segredo para ninguém que Waldeles não era e nunca tinha sido uma “terceira via”. Todos já sabiam que Waldeles foi colocado lá por Enivaldo e ele terminou o mandato com a popularidade em baixa.

O sonho de alguns franciquenses de ver nascer uma “terceira via”, independente de “Pereira e dos Anjos”, tinha sido novamente adiado.

Veio então a eleição de 2012. Um novo nome surgia naquele ano, com a velha promessa de ser independente, pois estava viva a famosa frase, “o povo de Barra de São Francisco está cansado de Pereiras e dos Anjos!”. Jovem, professor e com fama de honesto, Alencar Marim era uma “joia rara”. Naquele ano o PT ainda não era “endemonizado” como nos dias de hoje e Marim surgia como uma opção para os que se consideravam independentes.

Mas não demorou muito tempo e Alencar se rendeu aos caprichos de Enivaldo dos Anjos.

Enivaldo tinha se aposentado do Tribunal de Contas do Espírito Santo em 2010 e deixou de ser candidato a deputado naquele mesmo ano para tentar reeleger o filho como deputado estadual. Não deu certo, Giuliano perdeu.

No lado dos Pereiras, a situação era mais confortável. Luciano conseguiu se reeleger deputado estadual e sua popularidade estava em alta. O segundo mandato de Waldeles contribuiu para que os Pereiras voltassem a ser cogitados para comandar a prefeitura da cidade e Luciano era o principal nome para a disputa.

Sem poder, Enivaldo também não tinha muita opção a não ser se lançar candidato a prefeito. Administrar Barra de São Francisco naquele momento era o último dos desejos do Conselheiro recém aposentado, mas a oportunidade era única.

O que Enivaldo queria era ser deputado estadual, mas esperar dois anos e ainda com a possibilidade de Luciano ser eleito prefeito, era um risco que ele não estava disposto a correr. Ele viu que, mesmo se perdesse a eleição, o caminho para sua eleição dois anos mais tarde estaria pavimentado.

Foi então que Enivaldo seduziu Alencar, que aceitou abrir mão de sua candidatura a prefeito para ser o vice de Enivaldo. O PT rachou, pois queria uma candidatura independente. Parte seguiu Alencar e a outra ficou com Luciano Pereira.

O resultado dessa eleição ainda está vivo na memória de quase todos os francisquenses, mesmo os mais jovens. Numa disputa histórica, cheia de detalhes – que também ficarão para outra ocasião – Luciano Pereira venceu Enivaldo dos Anjos.

A cidade estava novamente divida entre os dois grupos políticos. A eleição polarizada fez desaparecer os chamados “independentes”. Não se falava mais em “terceira via” e praticamente ninguém mais se lembrava da frase “o povo de Barra de São Francisco está cansado de Pereiras e dos Anjos”.

Para Luciano, vitorioso na eleição, o objetivo era fortalecer o grupo e crescer um pouco mais que o adversário.

Enivaldo, mais uma vez, saiu vitorioso com uma derrota. Muito tempo fora da política como candidato, ele conseguiu se fortalecer. O resultado veio dois anos depois, quando foi eleito deputado estadual.

Luciano assumiu a prefeitura em 2013 e parecia ser invencível. Sua autoestima era incomparável e seu desejo político insaciável. Ao contrário de Enivaldo, que não conseguiu mais eleger o filho a nenhum cargo, Edinho tinha transferido seu capital político para o filho.

Mas nem tudo são flores. Luciano enfiou os pés pelas mãos e conseguiu o que parecia impossível, acabar com o mais valioso bem que seu pai havia lhe dado. Mesmo assim, ele ainda acreditava na reeleição.

Luciano tinha altos e baixos em seu mandato e parecia não ter sido feito para o executivo. Os quatro anos dele na prefeitura também são cheios de detalhes que, assim como os outros acima, vamos deixar para outra ocasião.

O termo “terceira via” foi ressuscitado e junto com ele a frase “o povo de Barra de São Francisco está cansado de Pereiras e dos Anjos”.

Pegando carona na volta do desejo popular, surge novamente como candidato a prefeito, Alencar Marim. A situação agora era diferente, pois seu partido, o PT, era o mais odiado em todo o Brasil e seu adversário, o então prefeito Luciano Pereira, queria a todo custo a reeleição. O que tinha a favor de Alencar era a rejeição adquirida por Luciano nos 4 anos que ficou à frente da prefeitura.

Outros nomes surgiram nessa eleição, como o do ex-prefeito Waldeles Cavalcante, mas a disputa ficaria mesmo entre o prefeito e o professor.

Apesar de ter sido candidato a vice de Enivaldo em 2012, Alencar chegou na eleição 2016 como independente. A ideia era reforçada com a candidatura de Waldeles, que representava o grupo de Enivaldo.

Com Luciano representando os Pereiras e Waldeles representando “dos Anjos”, Alencar teve caminho livre para se declarar a “terceira via”. A estratégia deu certo e “o povo”, que dizia estar cansado de Pereiras e dos Anjos, passou a acreditar que a cidade, após muitos anos, teria um prefeito independente das duas famílias.

A esperança começou a diminuir com a saída de Waldeles da disputa. Enivaldo tirou Waldeles para garantir que Alencar venceria Luciano, afinal de contas, “o racha” estava na oposição. Alencar entendeu a ajuda, mas a história da “terceira via” estava dando certo e ele não tinha como assumir Enivaldo naquele momento. Mesmo assim, ele não fez o que Check fez 16 anos antes. Ao invés de dispensar o apoio de Enivaldo, aceitou, mas não o assumiu publicamente.

Uma reunião política chegou a cancelada de última hora, pois Enivaldo apareceria no palanque ao lado de Alencar, o que desmontaria a tese de “terceira via”.

Para não ver Luciano reeleito, Enivaldo aceitou calado as investidas de Alencar e do PT.

Marim terminou a eleição sem aparecer ao lado de Enivaldo, vencendo Luciano com uma diferença que escancarou a rejeição do grupo dos Pereiras na cidade naquela ocasião.

A cidade ficou em festa e muitos passaram a dizer que depois de muito tempo a cidade tinha um prefeito que não tinha DNA de Pereiras nem dos Anjos. A história tinha colado.

Mas até quando Alencar conseguiria fingir ser independente? Até quando conseguiria esconder que, assim como Waldeles e Zé Lauer, era cria de Enivaldo? Até quando ele conseguiria manter a farsa?

A resposta é simples. Até quando Enivaldo quisesse! E não demorou muito.

No início, Enivaldo fez como um bom “soltador de pipa”, deu linha. Deu tanta linha, que Alencar ficou bem alto. E como diz o velho ditado, que o cantor Zé Geraldo incorporou muito bem em sua canção “Milho aos Pombos” , “quanto mais alto o voo, maior o tombo”.

2020 chegou e novamente a população voltou a dizer que “o povo estava cansado de Pereiras e dos Anjos”. O sonho da chamada “terceira via” nasceu novamente, dessa vez com o policial militar Marcelo Firmino.

O tombo de Alencar foi forte. O prefeito chegou ao fim do mandato sem ter condição nem mesmo de tentar a reeleição.

Para os que acreditaram que ele era realmente independente, restou a decepção. A cada dia de seu mandato ele demonstrava ser mais limitado e cada vez mais submisso a Enivaldo.

Logo após anunciar que não seria candidato, Alencar declarou apoio à candidatura de Enivaldo dos Anjos, selando seu pacto com o grupo dos Anjos.

Firmino deu demonstração de ser independente dois anos antes da eleição municipal. Em 2018, quando foi candidato a deputado estadual, a cidade tinha Enivaldo e Luciano também candidatos. Firmino manteve sua candidatura e ganhou a confiança de quem se dizia cansado dos dois grupos que comandam a cidade há mais de 30 anos.

O resultado das urnas não deu o mandato de deputado a Firmino, mas o credenciou a disputar a prefeitura de Barra de São Francisco com a identidade de independente. Entre os três nomes da cidade, ele ficou em segundo, perdendo em número de votos apenas para Enivaldo. Considerando que ele nunca tinha sido candidato e que Enivaldo estava no poder há 4 anos, Firmino saiu vitorioso com a derrota.

Dois anos passam rápido, mas muitas coisas acontecem. A expectativa de ter o policial militar disputado a prefeitura contra os Pereiras e dos Anjos aumentava a cada dia. Muitos eleitores acreditavam que enfim a cidade tinha uma “terceira via”.

E parece que realmente Firmino seria independente. Parece! Porque antes mesmo de registrar a candidatura o militar foi surpreendido com a informação de que não poderia ser candidato devido a problemas em sua prestação de contas de 2018, quando foi candidato a deputado estadual.

Além de Enivaldo, o vereador Juvenal Calixto Filho também registrou sua candidatura a prefeito da cidade.

O terceiro candidato é Denilson Ferreira, que foi vice de Alencar Marim, mas rompeu logo no início do mandato, quando percebeu que o prefeito não era exatamente o que ele conheceu na campanha. Denilson era o maior cabo eleitoral de Firmino, mas com a saída do policial da disputa, manteve o nome como candidato independente.

As teorias conspiratórias sobre a saída de Firmino da disputa são muitas e vão permanecer por muito tempo. O certo é que fora da disputa ele acabou comprometendo sua independência.

Com Enivaldo, Denilson e Juvenal na disputa, Firmino resolveu apoiar Juvenal, que faz parte do grupo dos Pereiras.

Mais uma vez Barra de São Francisco chega na reta final de uma eleição com “dos Anjos” de um lado e “Pereiras” do outro.

Enivaldo, tido como favorito, tem ao seu lado Alencar, que é o atual prefeito.

Juvenal, que representa os Pereiras, tem também o apoio de Firmino.

Denilson, que se declarou independente dos dois grupos, está isolado. Sua candidatura, além de servir para ajudar Enivaldo rachando a oposição ao deputado, servirá também para revelar o tamanho real dos chamados independentes, que nesse momento parece minúsculo.

A pergunta que está ainda sem resposta é, a frase “O povo de Barra de São Francisco está cansado de Pereiras e dos Anjos“, é MITO ou VERDADE? E qual será realmente o tamanho desse grupo chamado “povo”?

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