O JORNALISTA QUASE INDEPENDENTE

Em uma cidade do interior chegou um jornalista avisando que em breve estaria circulando o seu jornal. Propagou pelo comercio que o seu periódico não seria como os demais, que eram a favor ou contra a administração publica municipal. Tratava-se de um trabalho independente e que contaria com o apoio dos comerciantes e profissionais liberais, a quem venderia espaço para anúncios no “O Independente”.

A primeira edição do “O Independente” noticiou os fatos como ocorreram. A matéria de capa era sobre um crime passional: o marido havia flagrado a mulher na cama com um homem e matado a esposa. No mais tinha o relato da vida do Senhor Zezinho, o morador mais antigo da cidade. Também trazia as belezas do lugar: fotos da pracinha com suas arvores, flores, bancos de cimento e um chafariz.

O jornalista do “O independente” havia feito um bom trabalho, o que chamou a atenção do prefeito. O chefe do executivo mandou buscar o jornalista para lhe dar os parabéns e com ele ter uma conversa. No gabinete do prefeito o jornalista é cumprimentado por todos, recebendo os efusivos elogios pelos serviços prestados à comunidade local.

Terminado a rasgarão de seda, o mandatário da cidade vai direto ao assunto. Meu amigo, seu jornal ficou muito bom, mas não sobreviverá por muito tempo. Os comerciantes daqui são mão de vaca e não gostam de gastar com este negocio de fazer propaganda em jornal. Eles gostam mesmo é de botar estas caixas de som fazendo barulho pelas ruas da cidade.

– quando sairá o segundo numero do “O Independente”?

– o projeto é de publica-lo quinzenalmente.

– o primeiro saiu com seis paginas. Correto?

– sim. São três folhas grandes que dobradas dão seis paginas. De acordo com o patrocínio eu pretendo aumentar de duas em duas paginas.

– a minha proposta é a seguinte: você lança a segunda edição com oito paginas. Eu lhe pago a metade do custo do jornal e em uma pagina você publica os decretos e portarias da prefeitura. Em duas paginas você publica as obras feitas pela atual administração, colocando junto umas fotos minha e dos nossos vereadores.

– vou pensar. A proposta do jornal é de ser independente, razão do seu nome.

-o seu trabalho vai continuar do jeito que você quer. Só não vai dar certo você publicar as obras da prefeitura e ao mesmo tempo falar mal da administração.

– assim, sim. Eu aceito a proposta.

Na segunda tiragem do “O Independente” estava lá os decretos e portarias da prefeitura, em letras grandes para ocupar uma pagina inteira. Duas paginas continham a foto do trator novo; do calçamento de uma rua e de uma ponte feita no patrimônio. As cinco paginas restantes mostravam a blitz da policia; briga de vizinhos; acidentes sem vitimas e festa da escola. Na coluna social estavam as fotos do casamento da filha de um anunciante e do aniversario de uma das filhas do Presidente da Câmara Municipal.

Era ano de eleição municipal e “O Independente” continuou sendo publicado a cada quinze dias, com oito paginas. O mesmo formato. Uma pagina de atos do Poder Executivo e duas com as prestações de contas do prefeito. As cinco restantes com as matérias imparciais do jornalista, que só não poderia criticar o trabalho do seu maior colaborador.

Inesperadamente, dois meses antes das eleições “O Independente” veio recheado de noticias bombásticas contra o prefeito e seus secretários. Todos agora alçados a condição de corruptos. O lixão da cidade foi fotografado com urubus sobrevoando-o. As valas de esgoto foram retratadas, mostrando os excrementos a céu aberto. O carro da educação carregando jogadores de futebol foi denunciado como coisa muito grave.

O pessoal do grupo do prefeito saiu em ação e o primeiro passo foi conversar com o jornalista. Alguma coisa havia motivado o jornalista a mudar de lado. Encontraram com o jornalista em casa e lhe fizeram a pergunta mais obvia: quanto foi que o outro lado te pagou? Na verdade eu estava com muitas dividas na praça e eles assumiram as contas.

Na edição seguinte do jornal as coisas reviraram. Os atos do executivo agora ocupavam duas paginas. Outras duas noticiavam as ocorrências policiais. Seis paginas continham as prestações de contas dos três anos e meio da administração municipal, com a repetição das fotos da frota dos veículos e maquinários adquiridos. Três campos de futebol inaugurados, algumas pontes construídas e uma escola reformada completavam a matéria. Uma pagina enaltecia a pessoa do vice-prefeito, à época candidato a sucessão do prefeito.

Dois dias se passaram e o jornalista não foi visto na cidade depois da ultima edição do jornal. O fato foi sentido por que ele circulada a cidade diuturnamente. Passava na policia todos os dias para saber do ultimo crime ocorrido. Era assíduo frequentador do Bar do Preto, onde sempre sentava para tomar uma cerveja. Será que o homem viajou? Não demorou muito e correu a noticia que o jornalista estava em Londres, onde já havia arranjado um serviço em um restaurante.

Diria o meu avô: debaixo deste angu tem carne. Procurei me inteirar sobre o ocorrido, pois as eleições estavam se aproximando e não era normal aquela mudança repentina do jornalista. Circulou um boato de que o pessoal adversário do prefeito não gostou nada da reviravolta do jornalista e o tinha botado para correr.

O adversário ganhou as eleições e assumiu o poder, trocando todos os ocupantes de cargos comissionados e revogando as concessões de funções gratificadas daqueles que foram contrários na eleição. Eu ocupava cargo de carreira e fiquei trabalhando no meu canto, engolindo alguns sapos, eis que havia manifestado que votaria no ex-vice-prefeito.

Um dia eu criei coragem e perguntei a um fiel escudeiro do novo prefeito sobre a historia do sumiço do jornalista. O homem, hoje já falecido, me contou que ele e mais dois seguranças do novo prefeito foram incumbidos de tentar virar o jornalista de lado. Propuseram a ele pagar as suas contas penduradas na praça, o que foi aceito de imediato. Também iriam bancar as próximas edições do jornal “O Independente”, que agora teria a missão de mostras os podres da prefeitura. Depois nós fomos pegos de surpresa com a edição seguinte. Aquele safado nos enganou e de nada valeu pagar as contas dele.

E ai, por que ele foi embora? Um informante me contou que o grupo do ex-prefeito ofereceu o dobro para ele retornar para o lado deles, com o que ele teria concordado. Assim que soubemos do ocorrido saímos à procura do jornalista, disse o “pau pra toda obra” do novo prefeito. Na hora em que ele voltava para casa, já tarde, paramos o carro e falamos para ele entrar. Seguimos para o sitio do Sicrano e o homem foi tremendo igual motor de toyota. Lá na roça demos um aperto nele. Pedimos o nosso dinheiro de volta e avisamos que se ele continuasse com aquele jornaleco iria ver o que era bom para tosse. No outro dia cedo ele deixou o dinheiro na minha casa e pegou o ônibus para a capital.

O cara era um sujeito bacana e simpático. Mas mexer com interesses de alguns políticos é complicado. Tentar passar a perna neles é mais complicado ainda.

Viva a liberdade de imprensa.

Parabéns a quem faz jornalismo com imparcialidade.

Infeliz aquele que é usado para dizer meias verdades ou para tentar enganar a opinião publica.

Texto: Creumir Guerra
Creumir Guerra é Promotor de Justiça no Estado do Espírito Santo

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