O Barracão que se fez Cidade

Vista da Foz ou Barra do Córrego da Serra no início da década de 1920, local onde foi feita a primeira clareira na mata a
partir do qual surgiu a cidade de Nova
Venécia (atualmente local em frente à Câmara de Vereadores) com destaque para os “barracões” erguidos na beira da Cachoeira Grande do Rio Cricaré pelos irmãos Wantuyl e Eleosippo Rodrigues da Cunha para pilar café por tração hidráulica, além de armazém de “secos e molhados”. Fotocópia Colorida obtida de original do Acervo de Zéa Cunha (In Memoriam).

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

Nos tempos da outrora Fazenda da Serra dos Aymorés (latifúndio do major da Guarda Nacional que às vésperas da República tornou-se barão), que a princípio se estabelecia das terras da atual região da Serra de Baixo estendendo-se até a margem sul do rio Cricaré, no que hoje é o Centro da cidade, as matas compunham o que não estava cultivado como lavoura. Sabemos, por relatos dos antigos, que a região da foz ou barra do Córrego da Serra (nas imediações em frente onde atualmente está a Câmara de Vereadores), era uma área de lazer, em que família Cunha vinha para fazer piquenique, caçar e se banhar nas águas do Cricaré em sua Cachoeira Grande. Neste território, aberto em meio à Mata Atlântica, teve início a colonização, com sua fazenda que abrangia o caminho do Córrego da Serra até sua foz.

Neste período, o governo imperial com a intenção de embranquecer e europeizar a população brasileira, cada vez mais negra, estabeleceu imigrantes europeus em cidades de predominância africana, também com o objetivo de substituir a mão de obra escrava pela livre. Esse foi o caso de São Mateus.

No ano de 1888 foi instalado o Núcleo colonial de Santa Leocádia, às margens do Córrego Bamburral (situado a aproximadamente 23 quilômetros a oeste da cidade de São Mateus) administrado pelo engenheiro Gabriel Emílio da Costa. Viajando no navio a vapor Ádria, de bandeira italiana, chegaram em fins de setembro a cidade de Vitória e, depois da “quarentena” em uma hospedaria improvisada nos arredores do centro da capital, procedimento comum aos imigrantes, embarcaram no navio Mathilde, que fazia o transporte entre o Rio de Janeiro e o sul da Bahia, passando pelo Espírito Santo.

Desembarcaram 87 pessoas, sendo que por pressão dos fazendeiros da região, 43 foram deslocadas para a região da Serra dos Aimorés. Mas como não foi respeitado o contrato de trabalho por parte dos fazendeiros, quase todos retornaram para Santa Leocádia ou mesmo Vitória. Com uma revolta por melhores condições de trabalho teve início a Imigração Italiana na Serra dos Aimorés, sertão de São Mateus.

Muitas outras levas de imigrantes italianos chegaram depois até o ano de 1892, quando o Dr. Antônio dos Santos Neves, novo Diretor do Núcleo Colonial de Santa Leocádia, sendo sobrinho e genro do Barão de Aymorés, fundou o Núcleo Colonial de Nova Venécia. O nome seria em referência ao Vêneto, região de onde viriam a maioria dos imigrantes chegados até aquele momento e da qual a capital é a histórica cidade de Veneza. O núcleo foi dividido em seções como a do Rio Preto (onde se estabeleceram os imigrantes anteriormente chegados as Fazendas da Terra Roxa, Gruta e Destino), Seção Córrego da Serra (que recebeu os imigrantes da fazenda do Barão de Aymorés, atual região da Serra de Baixo), Seção Pip-Nuk (onde predominavam imigrantes da fazenda do coronel e comendador Matheus Cunha, irmão do barão). Havia ainda as seções de Córrego Aguirre (hoje no distrito de Nestor Gomes em São Mateus) e Rio São Mateus.

Quando os imigrantes chegaram, como era prática em todos os núcleos coloniais organizados pelo Estado, para recebê-los foi construído um barracão que servia de alojamento e moradia provisória aos estrangeiros que vinham aqui residir. Esse barracão estava localizado onde hoje se encontra um laboratório de análises clinicas próximo ao Fórum, em frente Igreja Matriz de São Marcos, do lado oposto da atual praça. Dali os imigrantes eram encaminhados para seus lotes de terra que em alguns casos também foram ocupados por brasileiros.

Esse núcleo colonial estava inserido dentro do território do “Segundo Districto do Município de São Matheus” que, criado legalmente em 1896 e reconhecido em 1903 abrangia originalmente os atuais territórios dos municípios de Nova Venécia, Vila Pavão, Boa Esperança, Barra de São Francisco, Ecoporanga, Mantenópolis, Água Doce do Norte e parte de São Mateus (distritos de Nestor Gomes e Nova Verona).

Este era o espaço colonizado, no interior ou sertão de São Mateus como se dizia à época, no distrito de Serra dos Aimorés, primeiro nome oficial do território. Por aqui a sede do Núcleo Colonial de Nova Venécia era popularmente chamada de “Barracão”, e por volta de 1900 era composto de poucas casas de estuque, sendo a edificação mais proeminente, e já feita de tijolos, a do Juiz de Paz e futuro vereador, Sr. Salvador Cardoso, casa esta resistente até os dias atuais aos arrombos arquitetônicos progressistas. Diante desta centenária edificação, a mais antiga ainda de pé no Centro da cidade, em 1915 foi plantada uma mangueira por ocasião do nascimento de seu filho, Romeu Cardoso. A árvore hoje centenária permanece lá, literalmente no meio da rua que desde 1958 foi denominada de Rua Salvador Cardoso, em homenagem a seu ilustre morador. Há mais de 100 anos a velha árvore é uma testemunha da evolução urbana da cidade.

Além das casas, nesta antiga rua, por muitos anos, existiu o barracão que abrigou os imigrantes chegados a partir de 1892, onde atualmente existe o laboratório já citado. A Rua Salvador Cardoso, cujo traçado se consolidou em 1935, quando o Engenheiro Henrique Ayres projetou a primeira planta da então Vila de Nova Venécia, liga a região da foz ou barra do Córrego da Serra ao alto do morro onde se estabeleceu um grande largo que hoje compõe a Praça São Marcos. Tangendo a praça pelo lado norte a rua continua, porém com o nome de Rua Dr. Renato Araújo Maia, primeiro médico que se estabeleceu em Nova Venécia e que, falecendo precocemente em 1963, teve seu nome eternizado no logradouro que antes se chamava Rua Guarapari. Além da primeira igreja dedicada a São Marcos Evangelista concluída no início da década de 1940, a rua dava acesso primeiro Cemitério Público de Nova Venécia que compreendia a área que atualmente está ocupada pelo presbitério e estacionamento da nova igreja matriz de São Marcos.

Na barra do Córrego da Serra, primeira clareira aberta na mata no que hoje é o centro da cidade, uma rústica represa de pedras sobre a Cachoeira Grande foi feita para guiar o fluxo da água do rio para outro “barracão” que, aliás, já foi confundido com o barracão acima, como o que teria dado origem ao nome popular com o qual o que hoje é a cidade de Nova Venécia foi conhecida em seus primórdios. Este outro barracão era feito de com esqueleto de madeira e paredes de tijolos, onde os irmãos Cunha instalaram uma engenhoca para pilar café e arroz, por tração hidráulica com roda d`água, instalando junto a um comércio “armazém”, que pertencia aos irmãos Wantuyl e Eleosippo Rodrigues Cunha, filhos do então falecido barão.

Quanto a igrejas, em fins do século XIX e início do XX, nem a de Nosso Senhor do Bom Fim (surgida por volta de 1932) e a de São Marcos (surgida por volta de 1942) existiam, mesmo sendo as devoções mais antigas no que hoje é o centro da cidade. Porém, no vale, ou melhor, seção do Córrego da Serra, dividido originalmente em 27 lotes coloniais, um oratório (em dialeto italiano chamado de capitello) foi erguido no lote da família do imigrante italiano natural da província de Verona, Sr. Angelo Piombin, em devoção à Santo Antônio de Pádova, sendo portanto a única edificação religiosa até então existente por aqui naqueles primeiros anos. A atual capela de Santo Antônio, erguida em meados da década de 1940 já é a terceira em honra ao santo casamenteiro no Córrego da Serra e conserva a imagem de madeira do santo esculpida pelo imigrante italiano Celeste Rizzo por volta de 1898.

Vista da Foz ou Barra do Córrego da Serra a partir de outro ângulo no início da década de 1940, onde se pode ver além da ponte sobre o Córrego da Serra, os trilhos e a caixa d’água que faziam parte da “Estrada de Ferro São Matheus”. Os pilares da velha ponte ainda existem no local sob os pilares da nova construída no início dos anos 1970. Local (atualmente em frente à Câmara de Vereadores) onde foi feita a primeira clareira na mata a partir do qual surgiu a cidade de Nova Venécia com destaque para os “barracões” erguidos na beira da Cachoeira Grande do Rio Cricaré pelos irmãos Wantuyl e Eleosippo Rodrigues da Cunha para pilar café por tração hidráulica, além de armazém de “secos e molhados”. Acervo: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES).
Vista da antiga Rua Salvador Cardoso quando ainda era chamada de Rua João Pessoa por volta de 1957. É o logradouro mais antigo de Nova Venécia onde existiu o “Barracão” que albergou os imigrantes chegados a partir de 1892, na então sede do Núcleo Colonial de Nova Venécia e que popularmente deu nome a Nova Venécia por muitos anos. Em seu centro foi plantado um pé de manga em 1915 quando do nascimento de Romeu Cardoso, filho do homem que hoje tem seu nome eternizado nesta rua. Sua casa com mais de cem anos, sendo a mais antiga do centro da cidade, ainda resiste por lá e deve continuar a ser preservada para as futuras gerações. Acervo: Biblioteca IBGE.

Chegam os anos 1920 e com o progresso, a velha “Ponte de Madeira”

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Fontes Documentais:
Entrevista concedida por Tito Santos Neves em sua residência no Bairro Margareth no ano de 1985 sobre diversos aspectos da sua vida política em Nova Venécia aos integrantes do Movimento Cultural de Nova Venécia.
Ata Nº 153 da Sessão Extraordinária realizada no dia 28 de Agosto de 1953 na Câmara Municipal de São Mateus às 19:30 horas sob a Presidência do Sr. Antônio de Carvalho. Arquivo da Câmara de Vereadores de São Mateus (ES).
Lei Estadual Nº 65 de 30 de Dezembro de 1947. Disponível em: http://www3.al.es.gov.br/Arquivo/Documents/legislacao/html/LEI651947.html. Acessado em 20/01/2021.
Lei Municipal de São Mateus Nº 329/53 de 28 de Agosto de 1953 – “Cria o Município de Nova Venécia” (Cópia). Arquivo da Câmara de Vereadores de Nova Venécia (ES).
Processo “Assembléia Legislativa – Encaminhando, por cópia, o ofício que lhe foi dirigido pelo Sr. Presidente da Câmara M. de S. Mateus, a propósito da criação do Município de Nova Venécia.” 17/12/1953. Fundo Governadoria, Série Processos, Ano 1953. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES).

Fontes Bibliográficas:
Jornal “A Tribuna Livre” – órgão da Câmara Municipal de Nova Venécia. Ano I- Nº 01 – Março a Junho de 1988.
Revista “Memória Legislativa” – órgão oficial da Câmara Municipal de Nova Venécia –ES. Ano I- Nº 01 – Abril de 2000.
FURBETTA, Carlos. História da Paróquia de Nova Venécia. Nova Venécia: Paróquia São Marcos, [1982].
GASPARINI, Waldir (agente de estatística). Nova Venécia – ES. In: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, Volume XXII. Rio de Janeiro: IBGE, 1959. p.126-129.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
PIVA, Rogério Frigerio. Da Colonização à Emancipação: uma breve história de Nova Venécia (1870-1953). In: Patrimônio Fotográfico: catálogo de fotografias do município de Nova Venécia. Nova Venécia: AARQES, 2019. p. 12-31. Disponível para Download em: https://drive.google.com/file/d/1qLWTePp-scIwdOmrRdXdcx8J8q7O93v/view

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes


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