NOVA VENÉCIA E SUA EVOLUÇÃO URBANA: ASPECTOS DE 129 ANOS DE DESENVOLVIMENTO (1892-2021)

» Detalhe de Vista Panorâmica do Centro da então Vila de Nova Venécia por volta de 1941. Em primeiro plano, a porteira que dava acesso às terras do Senhor Eleosippo Rodrigues da Cunha, mais conhecido como Lolô Cunha (terras que depois se tornaram o Loteamento Beira Rio). Em plena Segunda Guerra Mundial a povoação, que na foto repousa em aparente tranquilidade espelhada pelas águas cristalinas do Cricaré e a sombra da Pedra do Elefante (que pode ser vista ao fundo), ainda era servida pela EFSM – Estrada de Ferro São Matheus que, em sua construção, aterrou uma antiga lagoa dando origem a atual Praça Jones dos Santos Neves. Nessa época, porém, além de não estar totalmente aterrada a área da antiga lagoa era utilizada como campo de futebol pelos jovens daquele tempo. Parece quase irreconhecível, mas nesta região, que também é um trecho da atual Avenida Vitória encontramos hoje o edifício da prefeitura e a Praça do Imigrante. A singeleza das residências à beira do rio, com suas roupas estendidas no varal denunciam que o que hoje é o “Centro” da cidade ainda
respirava ares extremamente rurais. Acervo: Arquivo Público do
Estado do Espírito Santo (APEES) / Reprodução: Rogério Frigerio Piva.

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

REQUERIMENTOS DESPACHADOS PELA SECRETARIA GERAL Dia 28 de julho de 1896 Ernesto Ayres de Faria pedindo por compra um prazo urbano, no lugar denominado Nova Venecia. – Ao sr. dr. director das Terras para prestar a sua informação e parecer.” (Jornal ESTADO DO ESPIRITO SANTO, Victoria, sexta-feira, 31 de julho de 1896, Ano XVI, Nº 4275, Seção “Parte Official”, página 01)

A cidade de Nova Venécia apesar de se localizar, em parte, em área de relevo extremamente acidentado, vivenciou nas últimas décadas do século 20 e nas primeiras do século 21, um grande desenvolvimento, que resultou em considerável ampliação de sua área urbana. Apesar de seu aspecto moderno e dinâmico e de ter somente 67 anos de independência do município de São Mateus, a fundação do núcleo urbano que deu origem a atual Nova Venécia ocorreu há mais de 100 anos.

A origem do que hoje constitui o bairro Centro pode ser traçada a partir do ano de 1892. Neste ano o governo do Estado, por intermédio do Dr. Antônio dos Santos Neves, criou oficialmente o “Núcleo Colonial de Nova Venécia” no sertão da Serra dos Aimorés, município de São Mateus. Desde 1890 ele havia assumido a direção do Núcleo Santa Leocádia em São Mateus e já estava trabalhando na demarcação de lotes coloniais as margens do Córrego da Serra e do Braço Sul do Rio São Mateus, o nosso Cricaré.

Quase duas décadas antes, quando as terras do que hoje compreende o Centro eram os limites da Fazenda da Serra dos Aymorés, fundada pelo Major Antônio Rodrigues da Cunha, havia uma clareira na região da barra do Córrego da Serra onde também temos a Cachoeira Grande. Ali nas imediações do que hoje é a Câmara de Vereadores os membros da família Cunha vinham fazer piquenique e caçar as margens do rio e isso ainda em fins da década de 1870.

Devia ser uma paisagem paradisíaca e era até luxuriante observar o rio de águas cristalinas, encontrando um leito rochoso e encachoeirado e o areal da foz do Córrego da Serra, em meio a gigantescas árvores da Mata Atlântica. Esta habitada por uma diversidade de animais silvestres como onças, capivaras, jacarés e macacos e inúmeros outros que aqui eram encontrados com facilidade. É bem provável que antes dos colonizadores os povos indígenas que habitavam a região, não só frequentassem o local, como talvez fizessem acampamento regular por aqui devido à fartura de peixes e de caça.

Não bastasse tudo isso, ao subir uma elevação próxima ao rio, hoje denominada “Morro da Matriz”, que em seu cume está atualmente a Praça São Marcos, no passado olhando a noroeste, com alguma dificuldade entre a vegetação, visualizaria uma enorme lagoa, próxima ao mesmo rio onde hoje temos a Praça Jones dos Santos Neves.

Portanto é compreensível o fato do diretor do núcleo escolher esse nome de “Venécia” não somente pela procedência vêneta dos primeiros imigrantes italianos (em sua maioria das províncias de Verona, Treviso e Pádova), mas também porque aqui a abundancia das águas davam a nostalgia da rainha do Adriático, a sereníssima Veneza, capital da região da Venécia (Vêneto).
Exatamente nesse “Morro da Matriz”, a uma altura segura do nível do rio, para se proteger dos períodos de cheia e também das doenças que geraram as mortes de muitos pioneiros, mas próximo o suficiente para se abastecer com suas águas puras e cristalinas, o Dr. Antônio dos Santos Neves estabeleceu a sede do núcleo, onde por regra, se constituía uma povoação, marco inicial de nossa cidade. No estremo leste do que hoje é a Praça São Marcos, naquele 1892 foi erguido um rústico barracão que serviu de abrigo provisório aos imigrantes que estavam chegando, enquanto não podiam ocupar seus lotes ou prazos.

A citação que apresentamos no início, do requerimento feito em 1896 por Ernesto Ayres de Faria para um “prazo”, ou melhor, lote urbano em Nova Venécia, é um dos indícios de que, mesmo de maneira ainda embrionária, a insipiente povoação de Nova Venécia já existia. Faltam ainda muitas informações que somente com profunda e exaustiva pesquisa poderão ser conhecidas sobre esses primeiros anos em que do lado oposto da futura praça foi erguido o nosso primeiro cemitério público.

A trajetória é longa e marcada pelo desenvolvimento trazido pela velha ponte de madeira e da estrada de ferro, que aqui passaram a fazer parte de nossa paisagem ainda na década de 1920, quando o Battista Perletti construiu a nossa famosa Casa de Pedra e o já segundo distrito de São Mateus com sede na Vila de Nova Venécia, ou melhor, “Barracão”, deixou de se chamar Serra dos Aimorés e adotou o nome da vila que lhe servia de sede.

Além do café, a madeira trouxera muita gente para cá nas décadas seguintes de forma que quando a vila se libertou de São Mateus e assumiu o status de cidade, em 1953, surgiu um novo loteamento que lhe ampliou os limites, o bairro Beira Rio. Em fins da década de 1950, além do Córrego da Serra, também o bairro Filomena começaria a fazer parte da paisagem. No caminho que ligava a cidade até a sede da antiga fazenda que lhe havia dado origem, aquele mesmo jovem de havia requerido um terreno urbano em 1896, Sr. Ernesto Ayres de Farias, que depois se tornou nosso segundo tabelião do registro civil, criou mais um loteamento, marcado por uma grande rua que ainda hoje leva seu nome.

Nos anos 1960 além do desenvolvimento do bairro Beira Rio e do Filomena, temos a ocupação das terras rochosas além do Estádio Municipal e próximas ao novo cemitério público inaugurado em 1956. Em pouco tempo a então “Pedreira” foi incorporada a área urbana e passou a ser conhecida por Bonfim em homenagem ao padroeiro de sua comunidade católica.

Nos anos 1970, viriam os bairros Yolanda, Arranha-Céu, Monte Castelo, Cohab, Margareth, Rubia e São Francisco que consolidaram a ocupação da margem esquerda do rio iniciada pelo Bairro Beira Rio em 1953 e fizeram surgir o que hoje chamamos de Cidade Alta. Na década de 1980, chegou a vez da ocupação da região do bairro São Cristóvão incentivada pelo asfaltamento da Rodovia para Colatina e da Rodovia Antônio Daher, trecho antigo da mesma rodovia. São Cristóvão seria expandido pelo surgimento dos bairros Alvorada e Bela Vista que se ocuparam parte do vale do Córrego da Serra. Também do lado oposto, na saída para Boa Esperança surgiu o loteamento do Zé Aguilar, o Bairro Altoé, marcando um extremo físico mas também social, assim como antes fora o bairro Bonfim.

Mas para aqueles que não são daqui, basta dizer que a cidade de Nova Venécia não cabe mais em uma foto, pelo menos não uma foto que não possa ser tirada do céu. Seja por satélites, aviões, helicópteros ou drones que podem vir de sua pista de pouso, estrategicamente localizada na região do bairro “Aeroporto”.

Poderíamos citar todos aqui, porém nosso espaço e tempo são curtos. Infelizmente nossa ocupação urbana foi mal planejada e desordenada, gerando perdas ambientais inestimáveis, problemas de ocupação de áreas de risco, além de dificuldade de legalização devido aos inúmeros loteamentos irregulares. De cada um de nossos bairros e seus logradouros passaremos a falar futuramente de maneira mais detalhada.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.

** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Fontes Documentais:
· Estado do Espírito Santo (Órgão do Partido Republicano Constructor). Victoria. Ano XVI, Nº 4275, 31/07/1896, p. 1. – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional (RJ).
· Relatos de Antigos moradores coletados entre 1992 e 2021 por um dos autores deste texto.
Fontes Bibliográficas:
FURBETTA, Pe. Carlos. História da Paróquia de Nova Venécia. Nova Venécia: Edição do Autor, [1982].
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
PIVA, Rogério F. PIVA, Rogério Frigerio. Da Colonização à Emancipação: uma breve história de Nova Venécia (1870-1953). In: Patrimônio Fotográfico: catálogo de fotografias do município de Nova Venécia. Nova Venécia: AARQES, 2019. Páginas 12-31. Disponível para Download em: https://drive.google.com/file/d/1qLWTePp-vscIwdOmrRdXdcx8J8q7O93v/view, acessado em 17/03/2021.


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