‘Israel é uma democracia racista’, diz Bruno Huberman


Opera Mundi – No programa 20 MINUTOS INTERNACIONAL desta quinta-feira (07/10), o fundador de Opera Mundi, Breno Altman, entrevistou o jornalista e professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Bruno Huberman, pesquisador da questão palestina, principalmente no que diz respeito aos Acordos de Oslo. 

“Acho que se olharmos para o mapa de Israel e Palestina é algo bastante revelador. Israel é uma democracia racista, une mecanismos democráticos com mecanismos de apartheid. A democracia existe para os israelenses brancos, mas não para os palestinos. Da mesma forma, eu vivo em Pinheiros [bairro de São Paulo] e existe democracia, em outros bairros não existe. A diferença é que em Israel o apartheid é institucional e com vários graus de institucionalidade”, explicou.

Segundo ele, essa forma de organização do Estado de Israel vem do sionismo que, apesar de em sua origem ser laico e socialista, se converteu em uma forma de colonialismo legitimada pela religião: “É uma colonização para a libertação, a libertação por meio da colonização do povo palestino”.

Nessa lógica, o professor afirmou que o judeu oprimido na Europa que vai para Israel se torna um opressor, estruturalmente, porque passa a formar parte de um projeto de Estado racialmente estruturado, “não tem a ver com ações individuais”.

“Qualquer sionista se beneficia da acumulação das terras e trabalho palestino, mesmo que ele não tenha diretamente explorado nenhum palestino”, reforçou.

Solução

Diante de um cenário de colonização legalizada e institucionalizada, algo regulamentado durante os próprios acordos de Oslo, segundo Huberman, e que foi se agravando com o passar do tempo, sobretudo durante os governos de Netanyahu, a solução dos dois Estados não é o ideal, na opinião do pesquisador.

Ele explicou que a solução dos dois Estados vem da ideia de garantir autonomia sob o jugo colonial, estratégia típica da colonização britânica e francesa, que viam os nativos como povos infantis, incapazes de se mostrarem soberanos.

“Os acordos de Oslo apenas levaram ao enfraquecimento do movimento de resistência palestino. Eles foram assinados por lideranças no exílio, não da guerrilha no território. Estes palestinos nunca defenderam os dois territórios, foram os israelenses que o fizeram para, pouco a pouco e por meio da força, ir conseguindo ampliar seus territórios”, argumentou.

O professor ainda enfatizou as características neoliberais dos Acordos de Oslo, pois a construção do Estado palestino viria construído pela iniciativa privada e liberação da economia israelense, algo determinado especificamente pelo Acordo de Paris.

“Se estimularia o desenvolvimento da indústria privada palestina, sob tutela israelense e com o capital estrangeiro, como forma de promover a libertação nacional, uma forma neoliberal. Se a libertação empreendedora é por meio do mercado, o mercado confina essa libertação a ele mesmo, você não consegue se libertar em última instância”, defendeu.

Por isso, para ele, a única solução possível é a de um Estado laico federado que traga justiça para todos, judeus e palestinos, “e leve à unidade da Palestina”.

Formas de luta

Diante da assimetria de forças entre Israel e Palestina, Huberman refletiu sobre as formas de luta por emancipação. Ele elogiou, por exemplo, o movimento de BDS, Boicote, Sanções e Desinvestimento, uma estratégia criada originalmente pelo movimento anti-apartheid na África do Sul: “É uma estratégia muito interessante de desmascarar os crimes de Israel e enfraquecer o país política, econômica e diplomaticamente”.

Do ponto de vista interno, apesar de não querer recomendar uma forma de luta aos palestinos, o pesquisador ponderou sobre uma forma de luta criada pelos Panteras Negras, nos EUA, que era de conquistar os bairros, por exemplo dando café da manhã à população negra, naquela época negligenciada pelo Estado norte-americano.

“Você constrói uma soberania e solidariedade desde o chão. Atualmente os palestinos dependem muito da elite dirigente e acho que isso barra a luta pela libertação”, afirmou.

Ele disse que existem setores palestinos que defendem o argumento leninista, que se aproveita das medidas instauradas pelos Acordos de Oslo, de construir dignidade primeiro, para depois se libertar. Em conjunto com outra parcela da população palestina, Huberman discorda dessa teoria. 

“Se você constrói dependência, é impossível conseguir independência. É preciso romper com os laços de dependência desde baixo”, reforçou.