Idoso linchado no ES, não estuprou crianças e foi vítima de mentira criada por ex

A conclusão do inquérito da Polícia Civil aponta que Antônio Batista da Fonseca foi vítima de uma mentira. O idoso foi acusado pelos criminosos de ter abusado sexualmente de duas crianças.

No entanto, o estupro foi descartado pelos investigadores da Divisão Especializada de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, que descobriram, por meio de exames e de depoimentos, que o fato foi inventado pela mãe das duas meninas. Ela era ex-namorada da vítima e queria se vingar.

“Ficou confirmado com absoluta certeza que Antônio não abusou sexualmente das duas crianças. Ele morreu sem dever absolutamente nada”, destacou o titular da DHPP Serra, delegado Rodrigo Sandi Mori em coletiva de imprensa nesta segunda (19).

Entre os acusados pelo assassinato estão André Luiz Alves Ferreira de Souza, de 29 anos, que é pai das duas meninas; Patrick Joe Cabrini Alvarenga, de 33, e Marcia dos Santos, de 31.

Os três foram presos em 15 de maio, 16 dias após o crime durante uma operação policial realizada nos bairros Vila Nova de Colares e Central Carapina.

Já Jocimar Lima Ferreira, de 35 anos, se entregou à polícia seis dias depois, acompanhado de sua advogada.

Motivação do crime

De acordo com Rodrigo Sandi Mori, a trama que levou ao assassinato de Antônio foi inventada por uma mulher de 27 anos com quem o idoso manteve um relacionamento por 20 dias.

Ela, que já foi casada com André Luiz Alves, é mãe de duas meninas, de nove e de três anos de idade. Após uma discussão, Antônio, que costumava presentear a namorada e as crianças com dinheiro e comida, decidiu pegar de volta um celular que havia dado à mulher. E foi por isso que ela decidiu se vingar.

O delegado explica que a mulher induziu as crianças a mentir para o pai, dizendo que Antônio havia cometido os abusos.

“Ela, inclusive, se aproveitou do fato de a filha estar com uma assadura para inventar a história”, disse Sandi Mori.

A acusação falsa levou André Luiz a querer matar o idoso. Para isso, ele teve a ajuda de Patrick, de Márcia e de Jocimar.

“No dia do crime, Márcia e Jocimar estavam em um bar quando viram Antônio passar. Jocimar segurou a vítima e mandou uma foto para André, que falou para os dois o segurassem até a sua chegada. Os dois encurralaram as vítimas em um muro e a agrediram com socos e chutes. Márcia passou a incitar a população chamando Antônio de estuprador. Ela aparece em imagens feitas no dia do crime”, detalhou o delegado.

Uma sobrinha do idoso tentou livrá-lo das agressões. Os dois estavam a caminho de casa, sendo seguidos por várias pessoas, quando André Luiz chegou e matou Antônio junto com Patrick.

“André chegou e desferiu dois golpes com um pedaço de pau com pregos e na cabeça do Antônio, fazendo com que ele caísse. A partir desse momento, André e Patrick desferiram várias pauladas até que a vítima morresse”, disse Sandi Mori.

Laudos comprovam que não houve estupro

Os laudos dos exames de conjunção carnal atestam que as duas meninas não foram violentadas sexualmente. Além disso, as crianças também passaram por atendimento psicossocial na Delegacia de Proteção à Crianças e Adolescentes (DPCA).

De acordo com Rodrigo Sandi Mori, a mãe das crianças chegou a mentir em um primeiro depoimento, sustentando a falsa versão. No entanto, ao ser confrontada com as provas, a mulher confessou que mentiu por vingança.

Ela não será indiciada pela morte de Antônio, pois não participou do crime. Na data do assassinato, a mulher estava há cerca de dois meses em Minas Gerais. No entanto, como chegou a fazer um boletim de ocorrência denunciando o falso estupro, será indiciada por denunciação caluniosa, crime que pode gerar pena de dois a oito anos de prisão.

Já os quatro acusados de assassinato já são réus perante a Justiça por homicídio qualificado por motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima. Além disso, há um agravante pelo fato de Antônio ter mais de 60 anos.

As crianças deverão entrar em um programa de enfrentamento à violência, por orientação dos psicólogos.

Rodrigo Sandi Mori pontua que nenhum crime pode justificar outro crime. “É importante ressaltar que fazer justiça com as próprias mãos constitui crime, pois cabe ao estado e não às pessoas o poder e o dever de punir. Além disso, tomar decisões precipitadas pode gerar consequências graves, como aconteceu neste caso, em que um senhor de 74 anos foi morto de maneira covarde e brutal sem dever absolutamente nada”, destacou.

Informações: G1


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