HISTÓRIAS SEPULTADAS NO VALE DO CRICARÉ

» Vista das ruínas do antigo muro de pedra do Cemitério Particular da Fazenda do Cachoeiro do Cravo, tendo ao fundo o Rio Cricaré no distrito de Nestor Gomes, em São Mateus (ES). Segundo a tradição oral recolhida pelo pesquisador Sebastião Maciel de Aguiar, neste local jazem os restos de Constância de Angola e de seu filho. Este cemitério consta como o mais antigo do sertão do município de São Mateus e já estava ativo por volta de 1868. Assentamentos de Óbitos existentes no Cartório de Registro Civil de Nova Venécia atestam que o local recebeu 32 sepultamentos entre 1902 e 1937, sendo que a partir de 1914 foi denominado de cemitério “público”. Provavelmente substituído pelo atual Cemitério do distrito de Nestor Gomes em meados da década de 1940. Essa região, até 1949, pertencia ao então distrito de Nova Venécia. Este “lugar de memória” é um patrimônio cultural de extrema importância para nossa história, infelizmente suas ruínas não são tombadas como Patrimônio Cultural e correm o risco de desaparecer. Foto: Denise Rocha, 2014.

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

“Esta cova em que estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida. É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe deste latifúndio.” (João Cabral de Melo Neto)

Quando João Cabral de Melo Neto escreveu o poema acima, depois musicado por Chico Buarque, imaginava a vida e a luta dos sem-terra desse país. Sabia que a terra que encontramos no cemitério é a última parte de tudo que temos nesta vida. E na verdade, todo ser humano, independente de fatores como riqueza, classe social ou gênero, tem consciência que um dia, vai a morte encontrar. Uns de maneira cômoda, deitados em uma cama, outros guerreando, como a escravizada Constância de Angola que, aqui na região de Nova Venécia, teve seu bebê brutalmente assassinado em um forno de farinha.

Açoitada, presa e depois lutando contra a escravidão, Constância tombou na localidade de Piaúna, às margens do Cricaré, pelejando contra o feitor que tirou a vida de seu bebê. Foi enterrada em meados da década em 1880, no Cemitério Particular da Fazenda do Cachoeiro do Cravo (próximo à atual vila de Nestor Gomes, em São Mateus) onde já estavam as cinzas do filho que, na morte, pode voltar a se acostar no corpo da mãe. Quem passa próximo ao Cachoeiro do Cravo não faz ideia das histórias de luta pelo fim da escravidão e que ali, no velho cemitério, demarcado por um muro de pedras em ruínas, jazem a guerreira Constância e seu bebê.

Quanto à senhora que mandara matar o bebê, Francelina Cardoso Cunha, anos depois faleceu e foi enterrada no Cemitério Particular da Fazenda da Boa Esperança (em Serra de Cima, Nova Venécia). Devido à fama que obteve em vida, diziam os antigos que à noite se ouviam uivos vindos do túmulo, e uma grande serpente de fogo saía do mesmo, arrastando-se pelas redondezas. Reza a lenda de maior destaque do folclore local que foram necessárias muitas orações de padres missionários para que, numa tempestade, a serpente fosse levada na enchente pelo Córrego da Boa Esperança e desaguasse no rio Cricaré chegando até o mar e desaparecendo para sempre.

Já seu esposo, Coronel Matheus Gomes da Cunha, foi sepultado anos depois, em 1907, no Cemitério Público da Cidade de São Mateus, em túmulo suntuoso, com uma bela lápide de mármore de Carrara, como era esperado para um grande proprietário de terras. Porém seu irmão, o Major Antônio Rodrigues da Cunha, agraciado ainda em vida com o título de Barão de Aymorés, teve um destino diferente do esperado.

Na madrugada de 31 de julho de 1893, em sua residência na cidade de São Mateus, às 3 horas da manhã, morreu, aos 58 anos, o Barão proprietário da Fazenda da Serra dos Aimorés (atual Serra de Baixo, Nova Venécia). Segundo tradição oral de seus descendentes, também foi enterrado no Cemitério Público da cidade de São Mateus, a 14 palmos de profundidade – o equivalente a 3 metros – ou seja, o dobro do normal. Ainda em vida, teria dado orientação para que nenhuma ostentação ou identificação fosse colocada em sua sepultura. O motivo que teria levado o Barão a tal ordem é desconhecido, talvez o desejo de redenção ou paz não encontrada em vida.
Pediu ainda que fosse enterrado no limiar entre o espaço reservado à Irmandade do Santíssimo Sacramento – composta por membros da elite local – e a parte pública – destinada aos mais pobres. Ali, sem nenhuma forma de ostentação e identificação, jazem os restos mortais de um dos homens mais poderosos da Província do Espírito Santo e fundador de Nova Venécia.

Outro grande proprietário e senhor de terras e gentes nestes sertões foi o cunhado do Barão, Major José Gomes Sudré, proprietário da Fazenda Independência. Este terminou seus dias com 83 anos, sendo sepultado, em 1906, no Cemitério Particular da Fazenda da Terra Roxa (próxima ao Rio Preto em Nova Venécia), esta, uma das propriedades nas quais a Fazenda Independência foi desmembrada entre seus filhos. Neste mesmo cemitério, que foi ativo até o final da década de 1930 e recebeu ex-escravos, imigrantes e migrantes, talvez até ao lado de sua sepultura, foi enterrado Victorino do Nascimento, natural da África, com seus estimados 130 anos, em 1922. Quase nada sabemos sobre Victorino, porém ali, naquele local onde crescia um pasto verdejante e alguns pés de açucena, que eram os únicos vestígios do antigo cemitério, jazem, sem distinção, aquele que um dia foi senhor e aquele que um dia foi cativo, mas que resistiu ao sofrimento da escravidão tendo uma vida extremamente longa e deixando descendência nesta terra.
Quanto a nós, foram necessárias longas jornadas percorridas por nossos antepassados, regadas a muito sangue, suor e lágrimas para construir o tempo presente. Honrá-los, preservando sua memória, faz parte do ritual que inclui o Dia dos Finados. Nestes e em outros cemitérios de nosso município estão os restos mortais de nossos ancestrais que fazem parte de nossa história.

Alguns ainda hoje conhecidos por muitos, outros totalmente anônimos. Dizem que a morte é a única certeza que temos na vida e, diante dessa certeza, só podemos reafirmar o que consta em uma inscrição que, desde o século XIX, foi registrada no portal do Cemitério de Paraibuna, interior de São Paulo: Nós que aqui estamos por vós esperamos.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
Fontes Documentais:

· Códice 352 (São Mateus – Assuntos Eclesiásticos e Outros – Correspondência Recebida pelo Presidente da Província da Câmara Municipal – 1846-1870) – Série Documental Accioly – Fundo Governadoria – Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.
· Livros 01-C, 02-C e 03-C (Registro de Óbitos) – Cartório de Registro Civil e Tabelionato de Nova Venécia (ES).
Fontes Bibliográficas:
AGUIAR, Maciel de. Constância D’Angola: A eterna luta das mães negras. Série História dos Vencidos. Caderno 03. Brasil-Cultura: Centro Cultural Porto de São Mateus: São Mateus, 1995.
AGUIAR, Maciel de. Lauro e Rosalvo: Cantadores e Tocadores. Série História dos Vencidos. Caderno 20. Brasil-Cultura: Centro Cultural Porto de São Mateus: São Mateus, 1996.
AGUIAR, Maciel de. Os últimos Zumbis: A saga dos negros do Vale do Cricaré durante a escravidão. Brasil-Cultura: Porto Seguro (BA), 2001.
MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina e outros poemas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
NARDOTO, Eliezer. e LIMA, Herinéa. História de São Mateus. EDAL: São Mateus, 1999.
PIVA, Izabel M. da Penha. Constância de Angola: mulher, mãe e guerreira do vale do Cricaré. Disponível em: http://projetopipnuk.blogspot.com/2010/03/constancia-de-angola-mulher-mae-e.html . Acessado em 29/10/2020.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
PIVA, Rogério F. Exumando Memórias: o primeiro cemitério público da cidade de Nova Venécia (1892-1960). In: Jornal A Notícia. Nº 2.706. Ano XXIII. Páginas 04 e 05. Data: 01/11/2012. Disponível em: http://projetopipnuk.blogspot.com/2012/11/exumando-memorias-o-primeiro-cemiterio.html . Acessado em 29/10/2020.
PIVA, Rogério F. Alunos de Ensino Médio fazem aula de campo em antigo cemitério de São Mateus. Disponível em: http://kimitirion.blogspot.com/2012/11/alunos-de-ensino-medio-fazem-aula-de.html . Acessado em 29/10/2020.
PIVA, Rogério F. A mulher que virou serpente. Disponível em: http://lendasvenecianas.blogspot.com/2012/08/a-mulher-que-virou-serpente.html . Acessado em 29/10/2020.

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes

Leia mais

Missão Xavante atendeu mais de 10 mil indígenas do Centro-Oeste

Missão Xavante atendeu mais de 10 mil indígenas do Centro-Oeste

Com apoio do Itamaraty, 22,5 mil brasileiros já retornaram ao País

Voo humanitário de repatriação: Lima – São Paulo – Foto: MRE ...

Avante anuncia convenção municipal em Mantena

O AVANTE deve oficializar, em convenção partidária que será realizada neste sábado,(12), nas dependências da Câmara Municipal de Mantena, a candidatura do empresário Gentil...

Rede Cuidar Norte inicia atendimentos via telemedicina

A Rede Cuidar Norte, instalada em Nova Venécia,...

Leia também

Em sete meses, asilos do Espírito Santo registram 100 mortes por Covid-19 entre idosos

  Entre abril e novembro deste ano, as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI's) no Espírito Santo registraram 1.015 diagnósticos da Covid-19. O coronavírus...

Secretário justifica reabertura de escolas nos municípios de risco moderado: ‘Não é um ambiente altamente perigoso’

Antes da decisão, as escolas nos municípios desse grupo estavam proibidas de abrir, sendo autorizadas apenas as atividades remotas. Considerando a classificação mais recente...

Criada comissão para transição na prefeitura de Vila Pavão

O processo de transição da atual gestão municipal de Vila Pavão para a próxima administração, que assumirá a partir de 1º de janeiro de...

Risco baixo, moderado e alto: veja as restrições contra a Covid para cada grupo de municípios do Espírito Santo

  O Governo do Espírito Santo instituiu desde o dia 20 de março um mapeamento de risco que direciona as medidas a serem adotadas no...