GUERREIROS DA LIBERDADE: A LUTA DOS AFROBRASILEIROS NO VALE DO CRICARÉ NOS ÚLTIMOS ANOS DO IMPÉRIO

» Além dos registros da tradição oral recolhidos por Maciel de Aguiar, poucos documentos da época mencionam esses guerreiros da liberdade, contudo, sempre de maneira pejorativa e depreciativa, como o trecho do relatório do Ministro da justiça do Império aqui destacado. Também não temos seus retratos, porém aqui homenageamos a “Benedito Meia-Légua” e todos africanos e afro-brasileiros que lutaram pela liberdade no vale do Cricaré com esta simbólica imagem, cuja legenda diz somente “Retrato – Tipos Negros”. Foto: Alberto Henschel, Recife (PE), 1869. Acervo : Instituto Moreira Salles.

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

Termo de São Mateus – Ao Chefe de Polícia comunicou o Delegado que um grupo de 20 a 30 escravos, fugidos de diversas fazendas, todos armados e capitaneados por Benedito, criminoso evadido da cadeia, vivem nas matas da fazenda de João Rodrigues de Oliveira Guedes, atacando na estrada os viandantes e roubando as fazendas, sem ser possível captura-los por falta de força. Acrescentava o informante que os escravos do município pretendiam, no dia de Sant’Ana, fazer uma insurreição, a fim de ficarem todos livres. O Presidente (da Província) fez logo seguir para S. Mateus 24 praças de linha, um inferior e um corneta, sob o comando de um oficial de confiança, a fim de bater os quilombolas e restabelecer a ordem e a segurança na localidade. (…)” Rio de Janeiro, 5 de maio de 1885. Francisco Maria Sodré Pereira, Ministro da Justiça. (Citado por Maciel de Aguiar. Os Últimos Zumbis. (2001), p. 230.)

O regime escravista no norte do Espírito Santo teve seu auge na segunda metade do século XIX quando, além da produção de farinha de mandioca e cana de açúcar, houve a intensificação da cafeicultura na região da Serra dos Aimorés (atual Nova Venécia), antigo sertão de São Mateus. Os escravizados lutavam pelo fim da escravidão, considerada necessária pelos fazendeiros devido ao trabalho manual e pesado, que não deveria ser desenvolvido pelos brancos, segundo a visão racista dos escravocratas. Desde a segunda metade do século XIX, jornais da capital indicavam que o fim da escravidão era iminente pela crueldade que ela trazia em si, tentando promover na população um sentimento de empatia pelo sofrimento dos escravizados, mas também consideravam os negros fugitivos como criminosos em suas matérias. A ambiguidade social despertada pela causa da abolição da escravidão foi frequente por todo o século XIX e em todo o Brasil.

De fato por todo esse período houve um aumento considerável de ações promovidas pelos escravizados com o objetivo de promover a abolição, seja de um pequeno grupo, seja em sua região, como estopim para um evento nacional. Os escravizados tinham redes de contatos, promoviam discussões, organizavam guerrilhas e movimentos que davam fugas a muitos em fazendas, organizavam revoltas e principalmente formavam quilombos, tanto para acolher os fugitivos como para ter um local onde reinava a liberdade, a cultura africana e era possível traçar novas estratégias visando novas possibilidades de luta pela libertação dos ainda escravizados.

Aqui no vale do Cricaré memórias e histórias contadas pelos descendentes desses escravizados demonstram a saga dessa libertação. Na época ainda bem jovem, o escritor Maciel de Aguiar recolheu uma forte tradição oral, entre as décadas de 1960 e 1980, com referência aos líderes negros que lutaram pela liberdade de seus irmãos negros, dentre eles Constância de Angola, Benedito Meia-Légua, Viriato Cancão-de- Fogo, Negro Rugério, além de muitos outros, que atuaram nos últimos anos o Império.

Constância de Angola que viveu na região de Serra de Cima (entorno da APA da Pedra do Elefante em Nova Venécia), na antiga Fazenda da Boa Esperança, do Cel. Matheus Cunha, teve seu bebê assassinado ao ser jogado no forno de farinha. Constância, desesperada, gritava ameaçando a senhora que ordenara tal ato. Por se desesperar ao ver a morte do filho, a escravizada foi açoitada no e permaneceu no tronco. Quando foi resgatada pelo grupo de Viriato Cancão-de-Fogo, tornou-se guerreira e invadia fazendas, libertando os irmãos das senzalas. Morreu em luta com o feitor que jogou seu bebê no forno. Foi sepultada no antigo Cemitério da Fazenda do Cachoeiro do Cravo no atual distrito de Nestor Gomes, município de São Mateus.

Benedito Meia-Légua tinha em sua cultura religiosa o sincretismo, fruto da mistura das crenças africanas, aqui desenvolvidas com a prática da Cabula, e a devoção ao catolicismo, representado para ele na figura de São Benedito que, negro como ele, trazia na pele o sofrimento gerado pelo preconceito racial. Sempre levava junto a si a imagem do santo, dentro de um embornal. Organizava fugas, ações em quilombos, e tinha sua alcunha devido a lugares distantes que andava para ajudar os irmãos africanos. Em uma dessas andanças foi aprisionado por um capitão do mato que o arrastou pelas ruas de São Mateus amarrado pelo pescoço. Seus companheiros foram obrigados a espanca-lo até quase a morte. Foi deixado para terminar de morrer. No outro dia, quando os algozes vieram buscar o corpo, encontraram apenas pegadas de sangue. Benedito fugira mais uma vez. Fatos como esse faziam aumentar a lenda em torno de Benedito. Em 1881 organizou uma revolta dos escravizados para exigir a libertação, na data da festa de Santana – 26 de julho – e toda a cidade de São Mateus saía às ruas para os folguedos. O plano de Benedito foi descoberto, e em retaliação houve o ataque ao Quilombo do Negro Rugério com uma imensa agressividade contra os revoltosos resultando em prisões e mortes. Ele e outros guerreiros escaparam e continuaram com suas ações e planos até que, anos depois, ele foi encurralado dentro do tronco de uma grande árvore, onde dormia em meio à mata. Depois de quarenta anos fugindo dos capitães do mato, e já idoso, foi queimado até a morte dentro deste tronco. Seu santinho, milagrosamente sobrevivendo ao fogo, encontrado pelos seus irmãos, tornou-se um símbolo de resistência até os dias atuais, com a festa promovida em honra a São Benedito das Piabas, por descendentes de africanos da região.

Outro que deixou raízes em sua luta pela liberdade foi Viriato Cancão-de-fogo, líder da religião africana Cabula. Diziam ser ele encantado, pois surgia à noite, inesperadamente, nas fazendas onde seus irmãos estavam sendo castigados para libertá-los. Diziam que só andava à noite, pois como tinha sido roubado da família na África, muito criança, não se lembrava dos pais, por isso a África era sua mãe e a noite sua irmã. Não temos referência de sua morte. Os antigos diziam apenas que ele se tornou encantado.

Muitos desses líderes eram respeitados por alguns da sociedade mateense. Um deles foi Negro Rugério. Administrou o Quilombo de Santana em Conceição da Barra, que produzia uma quantidade considerável de farinha de mandioca – diziam ser a melhor de toda a província – e negociava o produto com Dona Rita Cunha, mãe do major Antônio Rodrigues da Cunha, agraciado mais tarde com o título de Barão de Aymorés. O acordo entre Rugério e Dona Rita incluía a proteção desta sobre o quilombo localizado dentro das terras de sua fazenda, em troca da exclusividade na comercialização da farinha. De fato o Quilombo de Santana só foi atacado em 1881, quando foi morto o Negro Rugério, após o falecimento de Dona Rita Cunha, ocorrido em 1879. Rugério nos mostra a sagacidade desses guerreiros que sabiam permear diferentes camadas sociais para manter a luta pela liberdade, bem maior desejado por todos os escravizados.

Nossa homenagem a Benedito, Constância, Viriato, Rugério e a todos que lutaram pela liberdade e, aos que hoje lutam contra a desigualdade e o racismo em nossa sociedade.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
Fontes Bibliográficas:

AGUIAR, Maciel de. Os últimos Zumbis: A saga dos negros do Vale do Cricaré durante a escravidão. Brasil-Cultura: Porto Seguro (BA), 2001.
MARTINS, Robson L. M. Em louvor a Sant’Ana: notas sobre um plano de revolta escrava em São Matheus, norte do Espírito Santo, Brasil, 1884. Estudos Afro-Asiáticos, 1999 (38), 67-83. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-546X2000000200004&script=sci_arttext&tlng=pt Acessado em 27/11/2020.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
RUSSO, Maria do Carmo de O. Escravidão em São Mateus/ES: Economia e Demografia (tese de doutorado – Universidade de São Paulo). – – São Paulo (SP) : [s. n.], 2011.

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes


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