GUERRAS E MASSACRES: O GENOCÍDIO DOS POVOS INDÍGENAS NO VALE DO CRICARÉ

» Índios Botocudos do Rio Doce. Indígena segurando um arco acompanhado de outros dois que observam. Foto: Walter Garbe, 1909. Acervo: APEES (Brasil)

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

A chegada de Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro donatário da Capitania do Espírito Santo, em 1535, marcou o início da conquista e colonização do atual estado e representou um apocalipse para os povos indígenas que aqui viviam. Estes perderam seu território, sua cultura, foram massacrados, torturados, mortos e, principalmente, esquecidos no processo complexo que é a formação do povo brasileiro. No norte da antiga capitania, o mais documentado conflito ocorrido no século XVI, foi travado próximo à foz do Rio Cricaré, no início do ano de 1558, entre portugueses e os tupi.

1558: A BATALHA DO CRICARÉ
No início da segunda metade do século XVI, com o avanço da conquista e colonização pelo litoral, as águas do nosso manso Cricaré (Kiri-kerê na língua tupi), tornaram-se rubras com o sangue daqueles que resistiam à escravidão e invasão de seus territórios. Tudo teve início com o agravamento do conflito com os indígenas dos arredores da Vila de Nossa Senhora da Vitória (atual Vitória) onde o donatário Vasco Coutinho, temendo ser derrotado, solicitou auxílio ao Governo Geral, na cidade de São Salvador (Bahia) a primeira capital do Brasil.

Recém-chegado, Mem de Sá, assumindo como 3º Governador-Geral do Brasil, enviou seu filho, Fernão de Sá, no comando de seis embarcações e de aproximadamente 200 homens. Este, no entanto, com o objetivo de obter escravos tupis resolveu atacar três aldeias fortificadas (mareriques – fortalezas) construídas na região rio Cricaré, retardando sua ida para Vitória. Os índios defenderam-se, porém foram derrotados nas duas primeiras, e seriam na terceira, se Fernão de Sá, estranhamente esquecido por seus companheiros e sem pólvora, não fosse flechado por eles, morrendo com mais cinco que ficaram ao seu lado na margem do rio. Dalí, a esquadra agora sob o comando de Diogo de Morim, seguiu para Vitória onde a situação já estava controlada e depois para São Vicente (no litoral de São Paulo), onde venderam como escravos, os indígenas aprisionados.

Mem de Sá, relatando o conflito para coroa portuguesa afirmava que haviam “mortos tantos e tam principaes” que não se levantariam por muito tempo, o que nos dá a dimensão do genocídio ocorrido naquele momento. Hoje a denominada “Batalha do Cricaré” figura entre os primeiros conflitos entre os povos originários e os portugueses em terras brasileiras e deixa claro o motivo dessas guerras: conquista territorial e a escravização dos indígenas.

1808: A GUERRA CONTRA OS BOTOCUDOS
Nos séculos seguintes, não somente a guerra, mas também doenças e a ação dos jesuítas com suas reduções, em especial o Aldeamento de Reis Magos (atual Nova Almeida), iram apagando a presença tupi no litoral do norte capixaba a ponto de se acreditar, em meados século XIX, que os indígenas envolvidos no conflito de 1558 eram os aimorés. Estes, porém desde fins daquele século, se movimentavam da região que hoje é o sul da Bahia em direção ao norte do Espírito Santo e leste de Minas Gerais chegando ao litoral e até os arredores de Vitória, depois se consolidando nos vales dos rios Doce, Cricaré e Mucuri, onde disputavam espaço com Maxacali e Pataxó e resistiram bravamente até o século XX a invasão e conquista de seu território. Apesar dos Aimorés terem permanecido com essa denominação até a atualidade na região do Vale do Cricaré, foi no século XVIII que outra denominação genérica e até pejorativa começava a se difundir: botocudos! Além dela, os termos “tapuia” ou “bugre” também foram muito utilizados por aqui.

Com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, o príncipe regente, objetivando a colonização do território indígena decreta “Guerra Justa” aos Botocudos. E os conflitos, que já eram comuns, se intensificaram a partir dessa época. José Marcelino P. de Vasconcellos, sem nos dar muitos detalhes, registrou que, em 1832, uma invasão dos Botocudos a então “Villa de São Matheus” destruiu lavouras e deixou pelo menos 140 indígenas mortos, infelizmente o autor não esclarece os motivos, mas não é difícil imaginar. Quase três séculos depois, o genocídio indígena continuava, agora não mais com os tupis, mas com os macro-gês (botocudo/borum).

Nessa época a escravização do indígena já havia sido substituída pela dos africanos e descendentes, porém, como denunciou Teófilo Otoni em 1858, o rapto das crianças (kurukas na língua borum), em especial meninas que eram abusadas sexualmente, era, na maioria das vezes, a causa dos ataques daqueles que queriam somente recuperar os filhos. Mercenários eram então contratados por fazendeiros para “matar uma aldeia” (gíria da época) onde, atacando de surpresa assassinavam com crueldade os adultos e levam as crianças que seriam criadas nas fazendas, sendo disfarçadamente entregues a servidão longe de seu povo.

Entre 1847-1848 foi assassinado traiçoeiramente, no sertão de Itaúnas, o cacique Jiporok, com o qual Otoni havia firmado amizade há menos de um ano, ele e mais 14 de sua tribo, foram mortos por um “cristão chamado Salles”. Este guerreiro provavelmente deu origem ao grupo que foi contatado em 1911 pelo Serviço de Proteção ao Indígena em Nova Venécia. Otoni ainda registrava que na Comarca de São Mateus, por volta da década de 1850, um militar comandante do destacamento, já de idade avançada e pessoa muito estimada, que por respeito à família não revelou a identidade, após atacar indígenas no sertão “trouxe para São Mateus o asqueroso despojo de 300 orelhas, que mandou amputar aos selvagens assassinados”.

CONFLITOS NO TERRITÓRIO DE NOVA VENÉCIA
Apesar de algumas tensões, o início da colonização de Nova Venécia não registrou inicialmente massacres. Pelo menos no início. Sabemos que o major Antônio Rodrigue da Cunha era fluente na língua borum, e enquanto viveu manteve relações pacíficas com os indígenas do território que hoje compreende Nova Venécia. Porém, após a sua morte em 1893, as coisas começaram a mudar.

Em 1911, quando o militar Antônio Estigarríbia, inspetor do recém-criado Serviço de Proteção ao Indígena e Localização dos Trabalhadores Nacionais (SPILTN) visitou a região que hoje é Nova Venécia, encontra algumas situações de tensão entre os colonos italianos e cearenses e os Giporok na região do Pip-Nuk e entre os fazendeiros e os Angrêtes no sul da hoje APA da Pedra do Elefante, onde descreve em seu relatório publicado em 1912 da seguinte forma: “O que muito se teme, e que se deu por duas vezes, ha 12 e ha 6 annos, é a sahida dos coroados (angrêtes). Estes índios estão, em guerra e tem razão para isso. Não só com os colonos, como principalmente com o engenheiro Antônio dos Santos Neves, proprietário da Fazenda da Neblina, tiveram luctas em que perderam alguns dos seus. A lucta com esse engenheiro se deu a 12 annos (1900); mais recentemente flecharam um seu parente. Felizmente ela ficou por aí”. Esse “parente” era o cunhado do Dr. Antônio Neves, Sr. Eleosippo Rodrigues da Cunha, figura política de grande influência, filho do major Antônio Rodrigues da Cunha.

Naquele mesmo ano de 1912, em um segundo relatório, ele descrevia que os Giporok aldeados no ano anterior no Posto Indígena dos Aimorés, na barra do rio Muniz Freire (entre Luzilândia e São Gonçalo), foram em parte “dezimados pela molestia súbita” que, ao que tudo indica, seria a varíola.
Séculos haviam se passado desde os primeiros conflitos, porém guerra e doenças ainda eram utilizadas para o extermínio destes povos. E isso, infelizmente, continua em pleno século XXI por esse nosso Brasil afora. Aqui o genocídio e o etnocídio foram tão intensos que se quisermos visitar alguma terra indígena e conhecer seu povo, ou vamos a Aracruz (ES) e visitamos remanescentes dos Tupiniquim, ou vamos a Resplendor (MG) para encontrar os Krenak. Da presença de Tupinambás, Pip-Nuks, Giporoks e Angrêtes, dentre inúmeros outros povos, só restou a memória de nossos índios mortos, a quem dedicamos estas linhas.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
ESTIGARRÍBIA. Antônio M. V. Trecho de um relatório apresentado pelo inspetor Antônio Estigarríbia, a directoria do Serviço de Proteção aos Índios, no ano de 1912, relativamente aos índios do Rio Doce. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Nº 7. Vitória: Vida Capichaba, 1934.
OLIVEIRA, José T. de. História do Estado do Espírito Santo. 3ª ed. Vitória: APEES/SECULT, 2008.
OTONI, Teófilo. Notícia sobre os selvagens do Mucuri. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
VASCONCELLOS, José M. P. de. Ensaio sobre a História e Estatística da Província do ES. Victória: Typ. de P. A. D’Azeredo, 1858.

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes

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