'Gritos, muito gritos', diz turista que estava em ponte e viu queda de paredão que matou 10 em MG • SiteBarra

‘Gritos, muito gritos’, diz turista que estava em ponte e viu queda de paredão que matou 10 em MG

 

Um casal de turistas de Guaçuí, no Sul do Espírito Santo, estava passando por uma ponte na superfície dos cânions do Lago de Furnas, em Capitólio(MG), quando um deslizamento de pedras atingiu embarcações no local. O acidente deste sábado (8) deixou 10 mortos. A reportagem é da TV Gazeta.

O casal capixaba estava com os filhos durante o passeio e classificou o momento como traumático.

“No dia que aconteceu nós estávamos no passeio aéreo, que seria no mirante dos cânions, naquela ponte pênsil. Então, exatamente na hora que aconteceu o acidente, nós estávamos lá. Então nós vimos tudo, a gritaria, um barco batendo no outro correndo para sair, o barulho estrondoso, as pessoas gritando… É traumático, sem dúvida. Nossos filhos estavam com a gente, as famílias de São José dos Campos, interior de São Paulo, que vieram para cá com a gente também tinha criança no meio, todo mundo saindo gritando, foi horrível. É uma situação horrível, um barulho muito alto, complicado, traumático, na verdade”, disse Ricardo Fernandes.

Ricardo e Patrícia Fernandes ainda estão na cidade mineira e deram detalhes sobre como foi presenciar a tragédia.

“Quando aconteceu eu já tinha atravessado a ponte com as crianças e a gente foi para o mirante que é uma lanchonete também, o mirante mais alto. Na hora que eu acabei de atravessar, deixei as crianças e estava voltando para encontrar com Ricardo para eu poder tirar foto ali tudo. Escutei um barulho muito alto, na hora, parecia que era até uma tromba d’água, que foi um barulho muito alto, até comentei com a minha filha ‘nossa, deve ter caído alguma tromba d’água’, e gritos, muitos gritos”, descreveu Patrícia.

 

Um vídeo mostra o momento em que um dos cânions atinge as lanchas.

Veja o que se sabe até agora:

  • O deslizamento ocorreu por volta de 12h30. Ainda não se sabe o que causou o acidente
  • Quatro embarcações foram atingidas, segundo o Corpo de Bombeiros
  • Dez pessoas morreram
  • Vinte e sete pessoas foram atendidas e liberadas
  • Marinha vai investigar a causa do acidente
  • Defesa Civil havia emitido um alerta sobre chuvas intensas na região com possibilidade de “cabeça d’água”; Marinha também investiga por que os passeios foram mantidos
Pedra deslizou sobre turistas em Capitólio — Foto: Reprodução/Redes sociais

Pedra deslizou sobre turistas em Capitólio — Foto: Reprodução/Redes sociais

A região de Capitólio e outras cidades banhadas pelo Lago de Furnas, no Centro-Oeste de Minas, é bastante procurada por turistas por sua beleza natural.

Assim como outras partes do estado, a região tem sido atingida pelas chuvas recentes: na sexta, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) havia emitido um alerta de chuvas intensas, que durariam até a manhã de sábado.

No sábado, Defesa Civil de Minas Gerais havia feito um alerta sobre chuvas intensas e a possibilidade de ocorrências de “cabeça d’água’ em Capitólio, mas não há confirmação que essa foi a causa do acidente. A Marinha disse que investiga o motivo de os passeios serem mantidos.

O porta-voz do Corpo de Bombeiros de Minas, Pedro Aihara, explicou que a formação rochosa do local é do tipo sedimentar, o que torna as estruturas dos paredões frágeis, e a quantidade de chuvas agravou a situação por acelerar a erosão.

“A gente tem uma formação rochosa que é basicamente composta por rochas sedimentares, então são rochas que naturalmente têm uma resistência muito menor à atuação dos ventos, da água, dos elementos naturais que atuam sobre a região”, explicou Aihara.

“Uma outra situação que acabou infelizmente agravando foi porque a rocha cai numa trajetória perpendicular. Geralmente, quando a gente tem ruptura por tombamento, a rocha sai de uma forma mais fatiada, ela escorre por aquela estrutura e cai de uma forma ou diagonal ou então mesmo em pé. Nesse caso, como a gente teve esse tombamento perpendicular, e pelo tamanho da rocha, a gente acabou tendo essas pessoas diretamente afetadas”, explicou o bombeiro.

Para o especialista em gerenciamento de risco, Gustavo Cunha Melo, uma tromba d’água – inicialmente citada pelos bombeiros como motivo do deslizamento – pode ter agido como um gatilho para o deslizamento, mas não foi necessariamente a causa do problema.

Para Melo, a rocha se desprenderia de qualquer jeito, por causa da erosão.

“Essa rocha já estava com muita erosão, totalmente fragmentada, ela iria desabar em algum momento. A tromba d’água pode explicar o desabamento neste momento? Pode, assim como também não precisava nada – ela ia desabar em algum momento por erosão, por um processo natural”, afirmou.

Nesses casos, segundo o especialista, o gerenciamento de risco consiste em isolar o local.

“Não tem muito o que fazer nessas situações. O gerenciamento de risco é: manter distância. Você tem que isolar a área. A única gestão de risco que é feita é isolar a área. Infelizmente ali as embarcações estavam muito próximas e o desabamento aconteceu nesse mesmo momento”, explicou Melo.

O geólogo Fábio Braz, da Sociedade Brasileira de Geologia, relacionou o desprendimento das rochas às chuvas – intensas e por um longo período – e classificou o acidente como “raro”.

“Fica cada vez mais evidente que realmente as fortes chuvas contribuíram para a queda desse bloco. Esse fraturamento vertical é típico de regiões de cânion. A gente também observa nos cânions do Rio São Francisco o mesmo tipo de feição”, explicou.

“É um fenômeno raro. Não descaracteriza o apelo turístico da região de Capitólio. É preciso, sim, que sejam tomadas, a partir dessa tragédia, as precauções necessárias, as distâncias, que seja calculado por especialistas na área de geotecnia qual a distância segura desses paredões”, disse Braz.

Um segundo vídeo mostra passageiros de uma das lanchas tentando avisar sobre o deslizamento da pedra segundos antes.