Filmes capixabas participam de Mostra Nacional de Cinema de Quilombos

As produções audiovisuais capixabas “Senhoras do Dendê”, de Auzerina Baptista e Jefferson Gonçalves Correia, e “A Viagem de Seu Arlindo”, de Sheila Altoé, foram selecionadas para serem exibidas durante a segunda Mostra de Cinema dos Quilombos, que tem início nesta quarta-feira (14) e segue até 24 de julho, e podem ser conferidas por meio do site www.cinemadosquilombos.com.br. Além da exibição on-line de filmes, haverá debates com realizadores transmitidos ao vivo. Para assistir aos filmes, basta acessar o site ou a plataforma Todes Play.

Contemplado pelo Edital 002/2017, de Diversidade Cultural Capixaba, “Senhoras do dendê” (2019), de Auzerina Baptista e Jefferson Gonçalves Correia, traz narrativas das mulheres de Sapê do Norte, em torno do dendê e dos dendezeiros, árvores quilombolas sagradas, que estão sendo extintas com a acusação de serem “plantas exógenas” ao bioma brasileiro. No dia 20 de julho, terça-feira, uma das participantes do filme, Dona Gessi, participará de um debate, às 19 horas, sobre a produção do documentário. 

“Se o dendê é invasor, nós somos o quê nesse Brasil?”. É o que pergunta Dona Gessi, lembrando das sementes trazidas pelos africanos escravizados que reconstruíram no Brasil “um pedaço da África”.

Espaço de representação

A segunda Mostra de Cinema dos Quilombos, projeto idealizado pelo cineasta mineiro Cardes Monção Amâncio, coordenador do Cinecipó, foi elaborada durante a realização do documentário “Rota do Sal Kalunga”, filme que fala sobre o quilombo dos Kalungas.

Na ocasião, o diretor percebeu o quanto seria importante um espaço que ampliasse a visibilidade de filmes produzidos nos quilombos, realizados por quilombolas ou em parceria com pessoas de fora das comunidades. Nasceu dessa premissa o projeto Cinema dos Quilombos, cujas mostras são resultado de um levantamento realizado por meio do site www.cinemadosquilombos.com.br, e que traz um panorama amplo da produção audiovisual dos quilombos, contando com curtas, documentários, séries e outras obras ficcionais. Mais do que organizar uma mostra, o projeto realiza oficinas audiovisuais em comunidades quilombolas, além de manter aberto um chamamento para filmes produzidos por quilombolas e cineastas, cujos trabalhos dialoguem com o tema.

A primeira mostra foi em agosto de 2020, já em formato on-line, devido à pandemia, e apresentou uma programação com sete curtas, incluindo um filme dirigido por Danilo Candombe, um dos primeiros quilombolas a dirigir uma ficção, além de filmes resultantes de oficinas. A segunda edição segue o mesmo formato, com uma programação mais robusta que contará com 13 curtas. A curadoria é assinada pelas pesquisadoras Alessandra Brito e Maya Quilolo, que também atuaram na primeira edição da mostra. O processo curatorial foi compartilhado com os moradores do Quilombo dos Marques: Edson Quilombola, Rosinere Souza, Claudiene Souza, Maria Eunice, Wiliam Souza Franco e Dione Marques.

  Confira abaixo os filmes selecionados. Saiba mais sobre a curadoria, as sessões e os debates aqui.

1 – Quilombo Mata Cavalo

Direção: Jurandir Amaral / 2018 / 16’ / livre

Quilombo Mata Cavalo / Nossa Senhora do Livramento – MT

No Quilombo Mata Cavalo, quilombolas distribuídos em seis comunidades resistem para preservar seus traços culturais, manter a integração comunitária e conquistar a regularização das terras herdadas de seus ancestrais.

2 – O Mundo Preto tem Mais Vida

Direção: Sabrina Duran / 2018 / 37’ / livre

Quilombo de Santa Rosa dos Pretos / Itapecuru-Mirim – MA

A construção e ampliação da Estrada de Ferro Carajás, da BR-135, atravessa violentamente a comunidade quilombola de Santa Rosa dos Pretos Itapecuru-Mirim, no Maranhão. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a empresa Vale S.A. cometem severas violações contra os quilombolas. Mas a vida preta de Santa Rosa ainda resiste, à revelia do buraco branco que tudo devora sem se dar por satisfeito.

3 – Cumbe – memórias quilombola

Direção: Iorana Silva, Vivian Raqueli Silva, Nicolas Michel Silva, Jhonatan Moreira, Nicoly Silva, Antônio Martins Neto, Robert Rocha, Ednilson Oliveira, Tiana Cassiano, Amanda Nogueira, Cleomar Rocha / 2020 / 11’ / livre

Quilombo do Cumbe / Aracati – CE

Uma colcha de retalhos. Memórias de quem somos.

4 – Cofo do Rampa

Direção: Naýra Albuquerque / 2019 / 12 / livre

Quilombo Rampa / Vargem Grande – MA

O fazer do cofo de palha do Quilombo Rampa, acompanhado atentamente pelas visões de uma câmera aprendiz, gerando um cinema-aprendiz.

 

5 – Jacá do Quilombo

Direção: Raimundo José e Aparecida Leite / 2020 / 11’ / livre

Quilombo Rampa / Vargem Grande – MA

O quilombola Modesto Santos, de 56 anos, mostrando como se faz o jacá, uma prática ancestral que passa de geração para geração no quilombo Rampa.

 

6 – A Viagem de Seu Arlindo

Direção: Sheila Altoé / 2018 / 16’ / livre

Quilombo de Pedra Branca / Vargem Alta – ES

Na comunidade Quilombola de Pedra Branca, nas montanhas capixabas, os mais velhos preservam a tradição de contar histórias para os mais jovens como a do dia em que o Seu Arlindo decide fazer uma misteriosa viagem, deixando intrigados os moradores locais.

7 – O Retorno de Luzia

Direção: Coletivo Ficcionalizar / 2019 / 10’ / livre

Quilombos Quixabeira e Feijão / Mirandiba – PE

Do centro da cidade de Mirandiba aos quilombos da Quixabeira e Feijão, a paisagem sertaneja e o Baobá, árvore ancestral de África, vão abrigar a narrativa do retorno de Luzia ao quilombo, depois da dor e superação do racismo vivido na cidade.

8 – Mulher Guerreira

Direção: Carlúcia de Melo Soares / 2015 / 12’ / livre

Arraias – TO

O filme conta a história da diretora, uma descendente quilombola que não desistiu diante das dificuldades, estudando, aprendendo a profissão de pedreira e conquistando seus sonhos.

9- Pra se contar uma história

Direção: Elen Linth, Lucicleide Santos, Diego Jesus e Leandro Rodrigues / 2013 / 25’ / livre

Quilombo Santiago do Iguape / Cachoeira – BA

Na comunidade quilombola Santiago do Iguape, Neguinha conta uma história de resistência.

10 – Senhoras do Dendê

Direção: Auzerina Baptista e Jefferson Gonçalves Correia / 2019 / 38’ / livre

Quilombo Sapê do Norte / São Mateus – ES

As Senhoras do Dendê ocupam tradicionalmente o território quilombola do Sapê do Norte, nos municípios de São Mateus e Conceição da Barra, no Espírito Santo, há muitas gerações, mantendo e transmitindo diversos saberes e fazeres coletivos. Também ocupam posições de destaque em casas de candomblé e umbanda no Sapê do Norte e na Grande Vitória. O filme registra um encontro dessas senhoras, suas trocas de saberes e de luta contra o extermínio dos dendezeiros por uma grande empresa de celulose.

11- Candombe do açude: o passado contado pelo canto. Ep. 1: Pandemia – Isolamento ou Respiro?

Direção: Danilo Candombe / Quilombo do Açude / Jaboticatubas – MG / 2020 / 29’ / livre

Série de três documentários sobre o quilombo do Açude. O primeiro episódio – Pandemia: isolamento ou retiro – retrata sobre como foi o ritual do Candombe nesse momento de pandemia, no ano de 2020, e mostra como a nova geração vivenciou e sentiu a manifestação de suas tradições, pela primeira vez em 20 anos, sem a influência de visitantes.

12 – Tambor na Mata

Direção: Raimundo José da Silva Leite / Quilombo Rampa / Vargem Grande – MA / 2019 / 25’ / livre

Tambor na Mata é uma manifestação cultural realizada todos os anos no Quilombo Rampa, município de Vargem Grande (MA). Sempre no dia 31 de dezembro, crianças, jovens, homens e mulheres do quilombo escolhem uma parte da mata onde vão pela manhã e voltam só de tarde para casa, passam o dia inteiro cantando e dançando tambor na mata.

13 – Lealdade

Direção: Ana Stela Cunha e Milla Negrah Avelar / Quilombo do Damásio / Guimarães – MA / 2019 / 7’ / livre

No Quilombo de Damásio, tal como em praticamente todo o Estado do Maranhão, a brincadeira da “dança portuguesa” faz parte dos extensos festejos juninos. Mas quando nos deparamos com esta brincadeira numa “terra de preto” (como tem sido definido pelos seus moradores este espaço, que extrapola a geografia) o estranhamento vem à tona.

 


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