Ex-assessor de Milton Ribeiro falta a quatro depoimentos na CGU

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Foto: Reprodução/Internet
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PAULO SALDAÑA, CÉZAR FEITOZA E CONSTANÇA REZENDE

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Um ex-assessor especial de Milton Ribeiro, amigo e braço direito do ex-ministro da Educação, faltou a quatro convocações da CGU (Controladoria-Geral da União) no âmbito da investigação sobre o balcão de negócios que operava no ministério.

Odimar Barreto dos Santos era importante elo de Ribeiro com os pastores que negociavam verbas federais para prefeituras mesmo sem cargos no governo.

Servidores do MEC confirmaram à CGU que o próprio Milton Ribeiro designou Odimar para atender os pastores Arilton Moura e Gilmar Santos e que ele se reunia com Arilton frequentemente na pasta.

Ele ainda fora designado pelo ministro a trabalhar em dupla com Luciano de Freitas Musse. O também ex-assessor do MEC fazia parte da comitiva dos pastores antes de ser nomeado -Musse recebeu R$ 20 mil de um empresário nas tratativas para realização de um evento com Ribeiro no interior paulista.

A Folha de S.Paulo mostrou em março que Odimar Barreto era uma das pessoas do MEC que frequentava o hotel usado como QG pelos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos nas tratativas com gestores. Os pastores hospedaram-se 64 vezes, sendo que em dez delas Arilton estava no local ao mesmo tempo que Luciano Musse, como o jornal revelou.

Ex-major da Polícia Militar, Odimar Barreto tem relações muito próximas com Ribeiro, inclusive familiares. Ele é pastor auxiliar na mesma igreja comandada por Ribeiro em Santos, no litoral de SP.

O ex-assessor se apresenta como pré-candidato a deputado nas redes sociais. Ele publicou foto em 28 de maio com o pré-candidato ao Governo de SP pelo Republicanos, Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL).

Em entrevista recente a um podcast, ele falou sobre sua candidatura e disse ter proximidade com Bolsonaro e outros ministros.

A CGU aponta que a atuação de Odimar é uma das linhas investigativas, mas não foi aprofundada até a finalização do relatório. “Evidências indicam que possivelmente tratar-se-ia de pessoa de confiança do ex-ministro Milton Ribeiro, destacada para auxiliar os pastores em suas demandas no âmbito do MEC”, diz o relatório da CGU.

O documento integra processo que resultou na prisão de Ribeiro, dos pastores, do ex-assessor Luciano de Freitas Musse e de Helder Bartolomeu, genro de Arilton.

As investigações sobre Odimar não teriam sido aprofundadas porque, segundo o documento do órgão, ele faltou a quatro depoimentos agendados para os dias 14 e 29 de abril e 5 e 13 de maio. A CGU não recebeu justificativa.

Odimar foi levado ao MEC por Ribeiro. Foi nomeado em 4 de agosto de 2020, menos de um mês depois da chegada de Ribeiro. Ambos têm grande proximidade, inclusive com relações familiares. Uma das filhas de Odimar vai se casar em breve com um sobrinho de Ribeiro. Foi o próprio Milton Ribeiro quem casou outra filha de Odimar, também com um familiar do ex-ministro.

MEC e Odimar foram procurados, mas não responderam.

Ele foi exonerado em edição extra do Diário Oficial da União em 18 de março, no mesmo dia em que as primeiras informações sobre a atuação de pastores vieram à tona em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo.

Ribeiro se afastou do cargo em 28 de março. A exoneração ocorreu uma semana depois que a Folha divulgou áudio em que ele afirma priorizar pedido de um dos pastores por indicação do presidente Bolsonaro.

Prefeitos e assessores relataram à reportagem que Odimar Barreto distribuía cartões com logotipo do MEC com contatos pessoais de telefone e email, aos quais a reportagem teve acesso. Aliados do governo já davam como certo que Odimar se candidataria desde o fim do ano passado.

Além de ter faltado aos depoimentos na CGU, Odimar Barreto também sumiu da Igreja Presbiteriana Jardim de Oração desde que foi exonerado do cargo no Ministério da Educação, segundo relataram á reportagem pessoas que frequentam a igreja. O sumiço, segundo os relatos, está relacionado com a pré-campanha de Odimar a deputado federal e à crise com Milton.

Odimar é pastor auxiliar de Milton Ribeiro na comunidade desde 2015. Mas mesmo com o cargo, ele não pregava na igreja e suas atribuições são desconhecidas pelos membros da comunidade.

Em entrevista ao podcast Loass, em 16 de junho, Odimar disse que saiu do governo para concorrer às eleições.

“É uma roupagem interessante. Ser amigo do presidente, dos ministros: todos que trabalham no governo, e isso parte do presidente e do ministro, tem essa aproximação. Ele entende que é um time. O presidente e todos os ministros entendem que somos um time”, disse ele.

Ao menos cinco funcionários do MEC falaram sobre Odimar à CGU. Um ex-assessor chamado Albério Júnio Rodrigues de Lima disse que chegou a se sentir desconfortável com a presença e atuação dos pastores, e teria pedido para ser retirado da função no começo de 2021.

Depois disso, “o então ministro Milton Ribeiro designou o sr. Odimar para atender a dupla”, cita relatório da CGU.

Albério pediu demissão por causa da atuação dos pastores, segundo declarado ao órgão. A informação foi revelada pela CNN Brasil.

O chefe da assessoria parlamentar do MEC, Marcelo Mendonça, disse à Controladoria que Luciano Musse foi deslocado para trabalhar com Odimar. Outras duas servidoras relataram que ambos eram vistos juntos e que Arilton também era recebido frequentemente por Musse.

O assessor Gustavo Bechelany, lotado no gabinete do MEC, disse à CGU que desconhecia as atribuições de Odimar no MEC. A única função conhecida era de análise dos nomes indicados para reitoria das universidades federais.

ENTENDA AS SUSPEITAS ENVOLVENDO O MEC

O foco da investigação

Os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura são peças centrais na Operação Acesso Pago. Os dois negociavam com prefeitos a liberação de recursos federais da Educação, na época comandada pelo então ministro Milton Ribeiro, mesmo sem terem cargos no governo.

Prefeitos relataram pedidos de propina, algumas em ouro. O ex-ministro e os dois pastores passaram um dia presos na semana passada.

A suspeita de interferência

Em telefonema com sua filha no dia 9 de junho, Milton Ribeiro afirmou que o presidente Jair Bolsonaro havia dito que estava com um “pressentimento” de que iriam atingi-lo por meio da investigação.

“Ele acha que vão fazer uma busca e apreensão… em casa… sabe… é… é muito triste”, afirmou.

Já em uma segunda interceptação realizada na última quarta (22), dia em que Ribeiro foi preso, a esposa do ex-ministro, Myrian Ribeiro, relatou a um interlocutor que seu marido “estava sabendo” do que ocorreria. “Para ter rumores do alto é porque o negócio estava certo”, disse em telefonema.

Posição dos investigadores

O Ministério Público Federal e a PF sustentam a versão de possível vazamento e interferência, com base em interceptações telefônicas.

Segundo a PF, a ligação de Myrian registrada leva a “crer que Milton Ribeiro teria conhecimento de uma possível operação policial”, fato que já estava na mira dos investigadores por causa de outras conversas do ex-ministro, entre elas uma “que teria tido com o presidente da República com este mesmo teor”.

A suspeita de interferência de Bolsonaro e de vazamento da operação embasaram a decisão do juiz Renato Borelli de enviar o caso para o Supremo Tribunal Federal.

A defesa de Bolsonaro

O advogado Frederick Wassef afirma que não houve conversa entre o presidente e o ex-ministro e que caberá a Ribeiro explicar o “uso indevido” do nome do chefe do Executivo. Wassef ainda reitera que Bolsonaro não interfere na PF.

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