ESTRADA DE FERRO SÃO MATHEUS (EFSM): A FERROVIA QUE ENTRE 1929 E 1942 LIGOU A OUTRORA VILA DE NOVA VENÉCIA AO MUNDO

» Locomotiva e vagão da EFSM – Estrada de Ferro São Matheus – estacionados ao lado da caixa d’água que existia em frente onde hoje se localiza a Câmara de Vereadores de Nova Venécia (trecho da atual Avenida Vitória – Centro da Cidade de Nova Venécia, próximo a foz do Córrego da Serra no Rio Cricaré). Fonte: “Anuário do Espírito Santo e Norte do Brasil” do ano de 1939, p. 37. Acervo: Carlos Benevides Lima Junior (via Facebook).

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

S. MATHEUS, 2. Com devida permissão dr. inspector estradas, communico-vos em excursão autoridades município inaugurei novo trecho Estrada Ferro S. Matheus até kilometro sessenta sete meio fronteiro Nova Venécia W. Congratulo-me v. exa. mais esse melhoramento que permitte inicio construcção novas estradas autorizadas beneficiando população município. Respeitosas saudações. – Ribeiro Martins, director.” (Telegrama do Diretor da Estrada de Ferrro São Matheus comunicando ao Presidente do Estado, Sr. Aristeu Borges de Aguiar, a inauguração do trecho de Nova Venécia no Km 67,5 em 02/05/1929)

O projeto da construção de uma ferrovia que ligasse a cidade de São Mateus ao sertão da Serra dos Aimorés (atual Nova Venécia) partiu do Major Antônio Rodrigues da Cunha, o Barão de Aymorés, que requereu a concessão a Assembleia Provincial ainda no ano de 1887. E com apoio de seu sobrinho na Assembleia Provincial, então deputado, Dr. Constante Gomes Sudré, recebeu o privilégio para sua construção e exploração por 30 anos através da Lei Provincial Nº 22 publicada em 27 de Setembro de 1888. Contudo, até sua morte em 1893, nada havia se concretizado.

Coube a seu filho primogênito, Antônio Rodrigues da Cunha Junior (Antunico Barão) e a um de seus sobrinhos, Dr. Antônio Gomes Sudré, assinar um contrato com o Governo do Estado em 1895, para a concessão do privilégio de explorar a ferrovia. O projeto de construção foi elaborado pelo engenheiro Dr. Antônio dos Santos Neves em 1896. Ela deveria partir do porto de São Mateus e terminar na barra do Córrego da Boa Esperança com o Rio Cricaré, a alguns quilômetros acima do que depois veio a se tornar a cidade de Nova Venécia. Mais tarde pretendeu-se levá-la até Barra de São Francisco, e quem sabe Minas Gerais. Porém seus trilhos, de bitola estreita, nunca foram além do que hoje é a cidade de Nova Venécia.

O sonho da ferrovia então denominada “Estrada de Ferro Serra dos Aymorés” não chegou a se concretizar. Na prática, abriu-se leito até um pouco a frente do que se tornou a Estação de Santa Leocádia (no km 23 da ferrovia). No formal de partilha do espólio do Antunico Barão (Antônio Rodrigues da Cunha Junior), herdeiro da Fazenda do Cachoeiro do Cravo, no ano de 1912, consta, entre seus bens, as ações da malfadada iniciativa particular.

Somente em 1921 com o prazo para a execução do projeto (como uma concessão particular) já caducado, o Presidente do Estado (Governador) Coronel Nestor Gomes, tornou a ferrovia uma iniciativa estatal e deu início a sua construção. A partir deste momento ela passaria a ser denominada de “Estrada de Ferro São Matheus” – EFSM. Entre 1921 e 1924 teve seu leito aberto até uns três quilômetros além do km 41 (onde existia a estação que deu origem a vila de Nestor Gomes) e também recebeu os trilhos e equipamentos rodantes.

Durante a gestão do Presidente do Estado Florentino Avidos (1924-1928) veio a iniciativa de ligar este “ramal” com a Estrada de Ferro Vitória a Minas – EFVM em Colatina e, para isso, ele transpôs o maior obstáculo para mesma, construindo a ponte sobre o caudaloso Rio Doce e um pequeno trecho de linha em São Silvano, também abrindo leito por dezenas de quilômetros. Contudo, o Presidente Avidos trouxe a EFSM do Km 41 até as imediações de Nova Venécia (cerca de 66 quilômetros), mas somente no início de Maio de 1929 foi inaugurado o trecho final que alcançou a então Vila de Nova Venécia, no governo de Aristeu Borges de Aguiar. Neste mesmo ano, o projeto de ligar a pequena ferrovia a Estrada Ferro Vitória a Minas foi abandonado e convertido na atual Rodovia do Café.

Em maio de 1940 o “Guia Levi: Horário Geral das E. Ferro Brasileiras”, de publicação mensal, trazia em suas páginas o quadro com o horário dos trens da EFSM de onde destacamos, para exemplificar, a saída da Estação de São Mateus (Km 0) as 08:00h e a chegada na Estação de Nova Venécia (Km 68) as 12:56h, passando pelas estações e paradas de João Bento (Km 18), Santa Leocádia (Km 23), Santa Teresa (Km 29), Constantino Mota (Km 36), Nestor Gomes (Km 41), Parada Industrial (Km 47), Tapuio (Km 52) e Rio Preto (Km 59).

Apesar de termos tráfego entre as estações de São Mateus e Nestor Gomes a partir de 1924, somente em 1929 os trilhos alcançaram Nova Venécia e aí permaneceram até 1942, quando a EFSM foi alienada e teve seu material vendido, totalizando a soma de Cr$ 2.008.829,50 (dois milhões, oito mil, oitocentos e vinte e nove cruzeiros e cinquenta centavos). Essa quantia foi investida no Plano Rodoviário do Estado conforme especificado no Decreto-Lei Nº 13.007 de 04 de Novembro de 1941, assinado pelo Interventor de Vargas no Espírito Santo, João Punaro Bley.

Como justificativa legal, além da bitola (espaço entre os trilhos) ser estreita, o fato de que a mesma estava sempre em déficit gerando prejuízo para o governo que tinha que arcar com sua manutenção. Apesar disso é inegável o desenvolvimento que a mesma trouxe para nossa região gerando “rapidez” e facilidade para se deslocar até São Mateus.

Portanto, entre 1888-1920 a estrada era denominada de “Estrada de Ferro Serra dos Aymorés”, sendo uma concessão particular que, como não foi efetivada, seria absorvida pelo governo estadual, surgindo assim a EFSM – “Estrada de Ferro São Matheus”, entre 1921 e 1942, quando foi alienada, e seu material rodante vendido pelo governo do Estado. Seu antigo leito tornou-se, com algumas alterações, a atual Rodovia BR-381 “Miguel Curry Carneiro” estrada de rodagem que continua ligando Nova Venécia a São Mateus e ao mundo.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.

* Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Fontes Documentais:
· A Província do Espírito-Santo. Ano VI, Nº 1437, 14/08/1887, p. 2 e Ano VI, Nº 1760, 27/08/1888, p. 2. Vitória: Typographia d’A Província do Espírito-Santo. – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional (RJ).
· Diário da Manhã. Ano XXII, Nº 2024, 07/05/1929, p. 1. Vitória: Oficcinas d’O Diário. – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional (RJ).
· Processo “Estrada de Ferro São Matheus” (1943). Nº E 15.467 Caixa 21 – Fundo Fazenda. – Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES).
· Mensagem Final apresentada pelo Exmo. Snr. Presidente do Estado do Espírito Santo, Dr. Florentino Avidos, ao Congresso Legislativo, a 15 de Junho de 1928. pp. 263-271. – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional (RJ).

Fontes Bibliográficas:
Estações Ferroviárias do Brasil: Nova Venécia. Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/es_outras/novavenecia.html. Acesso em: 04 mar 2021.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
RIBEIRO, Lucílio da R. Contribuição à História da Imigração Italiana no Município de Colatina. Vitória: Edição do Autor, 1996. pp. 123-124.

 

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