Espírito Santo: indígena com Covid-19 sofre aborto espontâneo e recebe feto em recipiente plástico

Jacieli Pego Ramos Bolonese, de 31 anos, é da etnia Tupinikim e mora na aldeia Caieiras Velhas, em Aracruz. Feto foi recolhido pelo hospital na casa da mulher, um dia após a alta

Jacieli e o marido, David, com o pote de plástico que receberam com o feto — Foto: Reprodução/Facebook

Por Any Cometti, G1 ES

 

Uma indígena com Covid-19 sofreu um aborto espontâneo e denuncia que recebeu o feto que havia morrido dentro de um recipiente de plástico. Jacieli Pego Ramos Bolonese, de 31 anos, é da etnia Tupinikim e mora na aldeia Caieiras Velhas, em Aracruz, no Norte do Espírito Santo.

O marido dela, David, gravou um vídeo que circulou pelas redes sociais, em que mostra o desespero e tristeza da esposa, que segura o recipiente com o feto dentro da casa em que o casal mora com os outros três filhos.

Na gravação, eles afirmam não saber o que fazer com o material. “Não sabemos se pode enterrar”, diz David.

Jacieli contou que sofreu o aborto em casa e foi levada por uma ambulância ao hospital. Segundo a mulher, o feto ficou com ela no quarto, enquanto esperava pelo procedimento de curetagem, que deve ser feito em mulheres que sofrem abortos espontâneos.

A indígena disse ainda que, depois do procedimento, e na frente dela, o feto foi colocado por uma técnica de enfermagem em uma garrafa de soro fisiológico, cortada de forma improvisada. Ela também contou que foi colocado formol no recipiente.

Jacieli também contou que o recipiente foi lacrado com fita adesiva. A mulher chegou a colocar o recipiente improvisado dentro da mala que levou para o hospital e as roupas ficaram molhadas com o formol. Somente no dia seguinte, quando o marido dela ligou para o hospital e relatou o caso, uma equipe foi até a casa deles recolher o material.

O caso aconteceu no Hospital São Camilo e profissionais da unidade foram procurados pela reportagem. Alguns não foram localizados e outros não quiseram falar sobre o assunto. O G1 tenta contato com a direção da unidade.

Descoberta

Jacieli conta que descobriu a gravidez no dia 19 de junho, fazendo um teste de farmácia. Dois dias depois, teve o primeiro sangramento.

Ela foi até o Hospital São Camilo, mas disse que não foi atendida porque o exame feito na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do município não foi aceito pelo médico como comprovante da gravidez. “Ele disse que aquilo não comprovava que eu estava gestante”, disse.

Mesmo com uma tosse muito forte, Jacieli voltou para casa. Ela ficou mais quatro dias em casa, sentindo dores, até ser novamente atendida na UPA. Nesta vez, a indígena foi encaminhada novamente ao Hospital São Camilo e atendida.

“Me passaram direto para o obstetra. Ainda estava sangrando, mas com muita dor de cabeça, dor nas juntas. Fui atendida, e o obstetra me encaminhou para a clínica geral. Ela fez todos os exames, que estavam todos certos, e perguntou se eu aceitava fazer o exame para Covid. Por ser somente uma suspeita, voltei para casa”, detalhou.

No dia seguinte, ela voltou ao hospital e teve a notícia de que o sangramento havia surgido por conta de um descolamento de placenta.

“Mas não era para eu me preocupar, era para eu me cuidar, porque estava tudo bem com o bebê. Ele tinha batimentos cardíacos, estava com o crescimento de acordo com a idade gestacional”, lembrou.

Covid-19

O exame para a Covid-19 foi colhido no dia 25 de junho, o resultado saiu no dia 29 e foi positivo. Jacieli foi comunicada por telefone do resultado.

Três dias depois, ela teve um novo sangramento, este mais forte e intenso. Ela retornou ao hospital e fez os exames, que atestaram que estava tudo bem com o bebê, apesar do diagnóstico de Covid.

Aborto

Na última sexta-feira (3), Jacieli acordou sentindo dor e contrações. “Eu me contorcia de dor. Parecia que eu estava parindo um filho”, descreveu.

“Por volta das 15h40, senti uma cólica forte. Senti estourar, e fiquei toda molhada. Quando aconteceu isso, fui para o banheiro e vi o feto. Comecei a chorar, entrei em desespero”, lembrou.

Jacieli foi levada ao hospital por uma ambulância, junto com o feto que havia expelido minutos antes, para fazer a curetagem. Ela ficou isolada, e por volta das 18h30 foi encaminhada ao centro cirúrgico.

No entanto, chegando ao centro cirúrgico, já havia outra pessoa sendo atendida e Jacieli foi novamente levada para o quarto.

“Depois de um tempo, depois da troca de plantão, não sei quanto tempo foi, fui para o centro cirúrgico. Mas ninguém trouxe cadeira de rodas. Eu já estava muito fraca, cansada. Fui para o centro cirúrgico andando e a técnica de enfermagem não me ajudou a andar, ela foi andando na frente. Se fosse para morrer de uma hemorragia, eu tinha morrido”, disse.

Pote de plástico

Ela lembra que saiu da cirurgia de curetagem por volta das 21h30. Mais de duas horas depois, o feto ainda estava no quarto dela, da forma como tinha sido levado de casa até o hospital.

Foi neste momento que uma profissional entrou com um recipiente de plástico no quarto dela, e armazenou o feto nele.

“Por volta das 23h, uma técnica de enfermagem pegou um vidro de soro fisiológico, passaram um esparadrapo no bico, colocaram formol que eu vi que era formol porque estava escrito na embalagem. Ela colocou a placenta, o feto, envolveu aquela fita de papelaria em volta do corte do pote. Ela me chamou e perguntou que horas eu sofri o aborto e disse ‘meu Deus, agora que me pedem para fazer isso?'”, relembrou.

Para ela, que nunca passou por essa situação, o procedimento foi tido como normal.

“Fiquei o momento todo com o feto do meu lado. A gente se sente segura em hospital. Achei que o procedimento fosse normal. Em momento nenhum pegaram o feto para nada”, relatou.

Feto

No outro dia, sábado (4), Jacieli recebeu alta. Mas, antes, ela questionou a uma técnica de enfermagem o que deveria fazer com o feto.

“E o feto, o que eu faço? Ela respondeu ‘a única coisa que a gente pode fazer é te dar uma sacolinha pra senhora levar consigo’. Eu nunca tinha passado por essa situação. Eu estava nervosa, não é fácil o que eu estou vivendo. Depois disso, outra técnica me deu o papel para assinar. Perguntei de novo sobre o feto. Ela disse ‘a gente não tem sacola aqui’. Eu perguntei o que eu faria, ela disse que eu tinha que decidir o que fazer. Tentei colocar esse pote dentro da minha bolsinha de roupa, derramou formol dentro. Eu estava desnorteada, sofrendo por causa dessa situação”, relembrou.

Desespero

Depois de ter perdido o bebê estando com o diagnóstico comprovado de Covid-19, Jacieli ficou até o outro dia com o feto em casa, dentro do mesmo recipiente de plástico, fechado com fitas adesivas.

“Ficava com o pote nos braços, chorando muito. Meu marido, desesperado. A gente nunca passou por isso, achávamos que continuava sendo protocolo”, disse.

No domingo (5), Jacieli entrou em contato com a enfermeira da unidade de saúde que atende às aldeias indígenas de Aracruz, que a informou que se ela quisesse levar o feto por questões culturais, teria que assinar um termo liberando essa saída. “Eu não assinei nada disso”, contou.

Recolhimento

Diante do desespero da esposa, que contou que estava tentando até comprar um pote de vidro para ficar com o embrião em casa, o marido decidiu ligar para o hospital, que foi recolher o feto no domingo.

“Eu fui violada. Até ontem (domingo) à noite, quando gravamos aquele vídeo, eu não conseguia falar nada, eu só conseguia ficar com o feto na mão. A fita transparente já ficou branca, o feto já está preto. Não me deram orientação nenhuma”.

Ela foi orientada pelos profissionais que buscaram o embrião de que aquele procedimento não poderia ter acontecido.

“Eles me explicaram que o procedimento não era esse. Disseram que iam levar para a Casa Rosa, para onde também levam membros amputados, e que o resultado da biópsia seria encaminhado para nós. Eles pediram desculpas. Reconheceram que foi um erro”.

Discriminação

Depois de passar por essa situação, Jacieli acredita que sofreu discriminação por ser uma mulher indígena.

“Eu sou uma índia Tupinikim. Não sabemos porque aconteceu o aborto, e queremos saber. Nós somos discriminados, sim, por ser indígenas. Eu me senti isolada dos meus direitos por ser mulher, indígena e ainda senti o preconceito por estar com a Covid. Me senti isolada dos meus direitos”.

Ministério Público

O Ministério Público Federal (MPF) comunicou em nota que a superintendência do hospital informou que enviou uma equipe até a residência da indígena, para orientá-la sobre o ocorrido.

Além disso, o MPF requereu ao Distrito Sanitário Especial Indígena que seja dado apoio psicológico à família. O fato ainda foi informado à Defensoria Pública, que, assim como o MPF, está analisando a adoção de medidas cabíveis.

Município

A Secretaria de Saúde de Aracruz declarou que somente tomou conhecimento deste caso nas redes sociais após o fato ocorrido e que o atendimento ocorreu fora das unidades públicas municipais.

Em relação à assistência psicológica para acolher a gestante, a Secretaria de Saúde de Aracruz informa que o órgão conta com programas de tratamentos e acompanhamento à gestante na Casa Rosa e que a família pode buscar atendimento.

Sesa

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informou que o Hospital São Camilo é uma entidade filantrópica, com gestão própria, e que possui alguns leitos contratualizados pelo estado.

Disse, ainda, que até o momento não havia recebido denúncia sobre essa situação, e que irá apurar o caso e adotar as medidas necessárias caso se confirmem irregularidades.

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