ES: investigação revela como criminosos maquiavam exames toxicológicos de motoristas

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Uma organização criminosa vinha burlando o sistema do Detran-ES para conseguir falsificar exames toxicológicos de motoristas de ônibus e caminhoneiros que pagavam para não serem flagrados após uso do chamado “rebite”, estimulante que aumenta o estado de alerta, reduz e cansaço e é usado ilegalmente por motoristas para estender a jornada à noite. A reportagem é de Roger Santana e Esther Radaelli, da TV Gazeta.

O esquema era negociado nas ruas e também por telefone. Nas investigações do Ministério Púbico do Estado do Espírito Santo (MPES), há captação de conversas telefônicas autorizada pela Justiça onde é revelado detalhes do esquema.

Além da falsificação do exame toxicológico, que é obrigatório para motoristas a cada dois anos e meio, o esquema fraudava ainda cursos para obtenção ou renovação de CNH e cursos de reciclagem, tudo através de métodos simples para burlar o sistema do Detran-ES.

Segundo o Ministério Público, donos e funcionários de clínicas, laboratórios, empresas de capacitação de condutores organizaram uma rede criminosa para efetuar as fraudes.

O carro chefe, no entanto, era a fraude do exame toxicológico, que o Detran exige de motoristas de ônibus e caminhoneiros a cada dois anos e meio. O teste é feito com material genético do motorista e indica se eles usam substâncias ilícitas nos últimos 90 a 180 dias.

“O posto de coleta ou laboratório vai raspar o pelo (do motorista), e colocar num envelope. O mesmo procedimento é feito com a contra prova. Todos assinam, é lacrado e aquilo é encaminhado para o laboratório. No entanto, eles inseriam o material biológico de pessoas diversas e que garantiria o resultado negativo para o consumo de substâncias proibidas”, explica Luiz Agostinho Abreu da Fonseca, promotor e coordenador da Gaeco Sul.

Segundo a investigação, quem emitia o laudo não tinha como saber que o material recolhido não era do motorista indicado. A fraude acontecia antes do processo de análise.

Em uma das empresas identificadas, que oferece curso de reciclagem e um laboratório de análises clínicas, tudo está fechado por determinação da Justiça. No local, os investigadores encontraram diversas mechas de cabelo, usadas para falsificar os exames.

Para o Ministério Público, são as mechas limpas que substituem as amostras de quem compra o serviço, que podem custar R$ 800.

“Outra coisa que convém pontuar é que tanto essa empresa quanto esse laboratório, o endereço é o mesmo, fica na mesma residência dos investigados”. A reportagem esteve no local e casal de proprietários, já denunciado pelo Ministério Público, abordou a equipe de rispidez. Em nota, a defesa do casal diz que não tem conhecimento das conclusões da investigação e só se manifestará em juízo.

Um dos nomes apontados como agenciador do esquema era de Luiz Carlos Borges Serafim, que fazia a intermediação entre os motoristas e os postos credenciados do Detran. As negociações estão nas interceptações telefônicas feitas com autorização da Justiça.

Motorista – Mas na prova não vai ter dificuldade, não?

Luiz Serafim, agenciador – Não, eu faço o curso, faço tudo para ele, marco a prova, ajeito tudo para ele.

Em outra ligação, Luiz Serafim negocia com o filho de um homem que está com a carteira de habilitação vencida há 20 anos. Um curso de atualização necessário em casos assim deveria durar 15 horas, mas ele promete uma única ida do cliente à empresa para que tudo seja resolvido.

Luiz Serafim, agenciador – Vinte anos já, então o que acontece? Eu tenho que fazer curso de atualização, recadastramento dela, e eu boto ele aqui pra só vim aqui e… E assinar. Fazer o examezinho de vista, por fazer, entendeu? Aquele jeito. Gasta uns 2 mil (reais).

Cliente – Tá, mas ele só vai aí uma vez mesmo? O problema todo é esse.

A reportagem conseguiu falar com Luiz Serafim, denunciado como agenciador, mas ele não quis prestar informações. O filho dele, Lucas Serafim, também envolvido no esquema, não foi localizado.

Para burlar as aulas, os criminosos agiam de duas formas: quando era online, usavam a foto do motorista para fazer o reconhecimento facial e outra pessoa fazia o curso.

Lucas Serafim, agenciador – Aí eu peguei e joguei a foto do cara aqui, entrei e to fazendo o curso pro cara aqui, agora até nove horas da noite.

Quando o curso era presencial, a organização enganava a biometria com moldes de impressões digitais caseiras, feitas com silicone e massinha de modelar. Uma conversa revela o uso da digital falsa em outra clínica:

– Suspeito sem identificação – Eu tinha que entrar lá dentro só pra pegar o negócio do menino.

– Funcionária da clínica – O que?

– Suspeito sem identificação – Dedo.

– Funcionária da clínica – O dedo, que dedo?

– Suspeito sem identificação – Eu tô fazendo a reciclagem dele, depois a gente resolve.

Até o momento, nove pessoas foram denunciadas. As investigações continuam e o Ministério Público trabalha para identificar os motoristas que participaram do esquema, eles podem responder por falsidade ideológica.

“Há o risco de uma pessoa drogada dirigir um veículo de cargas muitas vezes perigosas ou sensíveis, como é o caso do motorista de ônibus que circula com passageiros. O risco que todos nós estamos expostos por causa disso é muito grande. Há de existir uma forma mais restrita e severa de fiscalização”, diz o promotor do MPES.

Em nota, o Departamento estadual de Trânsito do Es informa que o credenciamento e controle das clínicas é responsabilidade da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), que não respondeu aos questionamentos da reportagem.

O Detran-ES, no entanto, diz colaborar com as investigações, suspendeu a atuação das empresas credenciadas e vai cancelar as CNHs fraudulentas. O órgão apela ainda para que a população não se deixe levar por facilidades ilícitas oferecidas por criminosos.

Motoristas de ônibus e de caminhões estariam entre os principais "clientes" do esquema que fraudava exame toxicológico

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