ES: gêmeos médicos fazem sucesso na internet tirando dúvidas sobre a Covid-19

Mudar para uma cidade desconhecida após uma recente formação em medicina e começar a atender pacientes em postos de saúde no meio de uma pandemia foi o desafio que os gêmeos Jordan Souza de Andrade e Jorlan Souza de Andrade, de 25 anos, enfrentaram no ano passado.

Eles trabalham em unidades de saúde do pequeno município de Pedro Canário, no Norte do Espírito Santo, onde atendem casos gerais de diversas doenças. Inclusive, atenderam muitos pacientes com a Covid-19, ajudando no tratamento e na cura de vários deles. A reportagem especial é de Any Cometti e Naiara Arpini, do G1 ES e TV Gazeta.

Jordan e Jorlan se formaram na faculdade no início de 2020, e logo depois, no mês de março, começaram a surgir as primeiras notícias sobre a transmissão do coronavírus no estado. Foi quando eles decidiram sair da casa dos pais, em Cariacica, na Grande Vitória, para ajudar outras pessoas.

“A decisão foi difícil. Morávamos com nossos pais. Assim que nos formamos, vimos na televisão toda a informação, a procura muito grande dos profissionais de saúde. Seria egoísta da nossa parte continuar em casa. Decidimos que iríamos fazer parte disso porque o propósito de fazer medicina é ajudar as pessoas quando estão doentes. Acendeu a chama de que esse é o nosso objetivo de vida”, lembrou Jordan.

Mas tinha uma condição: eles queriam ir juntos. Procuraram municípios em que houvesse duas vagas para médicos. E conseguiram. Juntos, eles se mudaram para Pedro Canário, a 264 quilômetros de Vitória.

“Procuramos um local que tinha duas vagas, não queríamos nos separar. Mandamos currículo para várias prefeituras. Estávamos dispostos a sair de casa e optamos por vir pra cá [Pedro Canário] para continuar juntos”, explicou.

Os irmãos contam que, antes mesmo de chegarem à cidade, a fama dos “gêmeos médicos” já se espalhou e a população os recebeu muito bem.

“Antes da gente chegar, já foi divulgado que iam chegar médicos gêmeos. São áreas diferentes, temos pacientes diferentes, mas de vez em quando, quando nos encontram na rua, eles comentam. Estamos com uma boa fama, procuramos sempre ser atenciosos, fazer o melhor, e a população tem gostado bastante”, comentou Jordan.

Aproveitando esse sucesso, os gêmeos decidiram fazer uma página nas redes sociais, em que orientam sobre as doenças, falam sobre cuidados com a saúde e desmistificam mentiras sobre a Covid-19, divulgando informações sobre a pandemia.

Médicos gêmeos do ES decidiram fazer uma página nas redes sociais em que orientam sobre a Covid-19

Médicos gêmeos do ES decidiram fazer uma página nas redes sociais em que orientam sobre a Covid-19

“Buscamos fazer os vídeos para passar informação, para aproveitar esse caso de sermos gêmeos médicos, que chamam a atenção. Aproveitamos que existe muita informação falsa e desmascaramos. Sobre a vacina, por exemplo, explicamos que se a maioria não se vacinar, não protegeremos quem não pode se vacinar. Usamos o marketing dos gêmeos para o bem”, considerou Jorlan.

Jordan e Jorlan sempre estiveram juntos nas principais etapas da vida. Durante toda a infância, estudaram juntos na mesma turma. Em 2010, foram aprovados para cursar o ensino médio no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).

Em 2013, disputaram juntos uma vaga no curso de medicina da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A mãe deles chegou a passar mal em um dos dias do vestibular, preocupada com a possibilidade de só um deles ser aprovado e eles terem que se separar.

Mas os dois foram aprovados na universidade, e estudaram juntos mais uma vez.

Jordan contou que, como o modo de aprendizagem deles é diferente, os gêmeos conseguem ter uma parceria de sucesso até mesmo nos estudos.

“Jorlan aprende mais ao ouvir, em aulas. Já eu prefiro ler e falar. Quando chegávamos em casa depois da aula, estudávamos juntos. Estávamos sempre nos ajudando”, disse.

Para Jordan, sair de casa foi uma experiência fundamental para o amadurecimento da dupla, e estar na companhia do irmão tornou tudo mais especial.

Gêmeos Jordan Souza de Andrade e Jorlan Souza de Andrade, de 25 anos, são médicos no ES

Gêmeos Jordan Souza de Andrade e Jorlan Souza de Andrade, de 25 anos, são médicos no ES

“Foi uma experiência muito boa ter saído de casa. Alugamos uma casa, compramos móveis juntos. É muito agradável nos tornarmos independentes. Todo esse processo de amadurecimento e crescimento profissional tem nos ensinado cada vez mais”, refletiu. “No horário de almoço, nós vamos para casa, almoçamos juntos. Comentamos sobre os casos dos pacientes, discutimos um com o outro, estamos sempre nos ajudando nesse aspecto”, contou.

Mas nem todos os momentos foram tranquilos. Jorlan contou que algumas vezes, com o estresse e o cansaço da profissão, pensou em desistir. Se não fosse o apoio do irmão, ele diz que não teria conseguido chegar até ali.

“Talvez teria desistido. Fiquei muito instável emocionalmente. Tê-lo por perto foi muito importante. Apesar de sermos gêmeos idênticos, temos a personalidade bem diferente, e ao mesmo tempo é como se a gente se complementasse. Chegamos a um equilíbrio até em termos de conduta. Tem sido muito bom estar ao lado até aqui”, considerou Jorlan. “Poder contar com alguém próximo em que posso confiar em todos esses momentos foi muito importante, como também é agora”, explicou.

Com a atenção aos pacientes e a exposição constante a casos suspeitos e positivos, os gêmeos também foram contaminados pelo coronavírus. Tiveram mal-estar, mas se recuperam em poucos dias.

“Pegamos Covid, não teve jeito. Os sintomas começaram no mesmo dia, tivemos muita dor no corpo, perdemos completamente olfato e paladar, senti um pouco de dor de cabeça e tosse. Ficamos três dias dessa forma, depois de uma semana o Jorlan se recuperou, e eu ainda fiquei sem o olfato por quase três semanas”, explicou Jordan.

Enquanto desafios profissionais, Jorlan listou o caso de dois pacientes que o surpreenderam pela gravidade da Covid-19. O primeiro, um idoso que estava sem comer e não apresentava outros sintomas, mas acabou morrendo.

“Era um paciente idoso, mas com idade não tão avançada. Ele não queria ir ao médico, estava sem comer há duas semanas e a filha dele insistiu. Quando chegou lá, a oximetria estava pouco mais de 70. Encaminhamos direto ao hospital, e ele estava saturando muito menos. Acabou evoluindo a óbito”, lamentou.

O segundo, uma idosa que ficou muito fraca por causa do coronavírus, mas sobreviveu depois de dias internada.

“Essa paciente, que achei que ia falecer, estava bem mal. Encaminhei direto para o hospital, ela era idosa e estava com sintomas muito pesados: fatigada, pressão baixa, vomitando. Nós realmente achamos que ia falecer, mas ela se recuperou”, disse.

Os gêmeos Jordan Souza de Andrade e Jorlan Souza de Andrade, de 25 anos, são médicos no ES

Os gêmeos Jordan Souza de Andrade e Jorlan Souza de Andrade, de 25 anos, são médicos no ES

Com tantos desafios enfrentados e superados, os gêmeos acreditam que ter passado por essas transformações e ter iniciado no atendimento à saúde no meio de uma pandemia foi um momento importante de crescimento pessoal e profissional.

“Com as coisas voltando ao normal depois da vacina, diria que esse capítulo da história nos ajuda a escrever melhor nas próximas páginas do livro da vida. O que marcou foi o quanto a gente se preocupa com o próximo, o quanto me protejo para proteger os outros. Essa pandemia nos ajudou a ser mais empáticos”, avaliou Jorlan.

Gêmeos Jordan Souza de Andrade e Jorlan Souza de Andrade, de 25 anos, são médicos no ES

Gêmeos Jordan Souza de Andrade e Jorlan Souza de Andrade, de 25 anos, são médicos no ES


Leia mais

Leia também