ES: escola limita uso de shorts e bermudas por meninas e gera polêmica

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Uma escola particular de Vitória limitou o uso de bermudas e shorts por meninas a partir do 6º ano do ensino fundamental. Os meninos, no entanto, seguem podendo usar bermudas, independente da série escolar. A informação é de Álvaro Guaresqui e Fabiana Oliveira, do g1 ES.

A instituição de ensino não explicou oficialmente e de forma clara o motivo da mudança aos pais e alunos. A medida tem sido questionada por alguns responsáveis e estudantes, que afirmam que a escola tomou a decisão para evitar que as meninas chamem a atenção dos meninos.

Ao g1, o pai de uma aluna declarou que a determinação, na opinião dele, se trata de uma atitude machista por parte da escola.

“Os meninos podem usar bermuda e as meninas são obrigadas a ficar de calça, sem outra opção para o calor da cidade que vivemos. Minha filha ficou revoltada com isso. Mas regras são regras”, disse um pai que preferiu não se identificar.

No dia 28 de janeiro, o Colégio Sagrado Coração de Maria, parte do grupo de ensino Rede Sagrado, enviou aos responsáveis pelos alunos da instituição um comunicado em que relaciona as determinações para o ano letivo de 2022.

Na parte em que descreve as regras de uso do uniforme escolar, a rede estabelece a obrigatoriedade do uso das roupas de acordo com o gênero dos alunos e a ocasião de uso. Além da camiseta de manga curta, enquanto os meninos tem a opção de escolher entre bermuda ou calça, as meninas a partir do 6º ano devem invariavelmente vestir calça longa, exceto nas aulas de educação física, quando o uso de bermuda é permitido.

Em comunicado enviado aos pais no dia 28 de janeiro, o Colégio Sagrado Coração de Maria de Vitória determinou que meninas a partir do 6º ano só poderiam usar calça longa — Foto: Reprodução
Em comunicado enviado aos pais no dia 28 de janeiro, o Colégio Sagrado Coração de Maria de Vitória determinou que meninas a partir do 6º ano só poderiam usar calça longa — Foto: Reprodução

 

Insatisfeitos com a regra, um grupo de pais enviou uma carta à direção da escola, a qual o g1 teve acesso, em que pedem a medida seja revista.

“Nós, mães e pais de alunos matriculados no Sagrado, solicitamos, respeitosamente, que a instituição nos atenda na demanda de inclusão nas vestimentas femininas de short ou bermuda, a exemplo do que é disponibilizado aos alunos do sexo masculino. […] Vale ressaltar que a demanda atende ao bem-estar das estudantes, bem como promove de forma educativa o respeito à igualdade de gênero, os valores Cristãos de não diferenciação entre meninas e meninos, a isonomia. Essa diferenciação sexista afeta o psicológico das crianças e adolescentes, e isso se opõe à construção de uma sociedade mais justa e fraterna, indo totalmente contra as diretrizes e condutas até hoje presenciadas no Sagrado Coração de Maria”, diz um trecho da carta.

Na terça-feira (15), após a manifestação de parte dos responsáveis, a instituição decidiu adotar outro modelo de calça para as estudantes, as calças corsário, que cobrem da cintura até abaixo do joelho. Os meninos continuarão podendo shorts em qualquer série.

Calça corsário vendida como parte do uniforme da Rede Sagrado para as meninas a partir do 6º ano — Foto: Reprodução
Calça corsário vendida como parte do uniforme da Rede Sagrado para as meninas a partir do 6º ano — Foto: Reprodução

A reportagem também ouviu a mãe de outra aluna, que afirmou ter ficado surpresa com a medida, que considerou sem sentido. Ela disse que por si só, o calor na cidade na maior parte do ano já não justificaria a exigência de roupas longas. Mas, na opinião dela, o mais grave é o tratamento diferenciado relacionado ao sexo dos estudantes.

“Agora parece que a escola autorizou a calça corsário, que é um pouco mais curta do que a outra. Mesmo assim eu acho que ainda não atende, porque não pararam para analisar e refletir o quê isso tudo significa”, considerou.

De acordo com essa mãe, em um grupo de responsáveis pelos alunos alguns pais chegaram a relativizar a decisão da escola.

“A escola não dava muito uma posição sobre porque que estava fazendo isso, a gente tinha mais ou menos uma noção. Mas aí uma mãe mandou um áudio no grupo do Sagrado e a justificativa dela eu fiquei completamente chocada. Ela dizia que as meninas, quando começa a adolescência, começam a tomar corpo, os meninos podem ficar mexendo e elas ficam incomodadas. Isso para mim foi ainda mais absurdo porque eu falei ‘gente, espera aí, como assim elas não podem usar uma roupa mais curta porque os meninos vão comentar?'”, explicou a mãe.

Ela acha que a escola perdeu uma oportunidade para ensinar os meninos a respeitarem as alunas.

“Olha a oportunidade que a gente tem aqui de ensinar para os meninos que não é aceitável qualquer tipo de comentário sobre o corpo das meninas. Não é porque a menina tá com a roupa curta que isso automaticamente habilita, autoriza o menino a mexer com o corpo dela. As meninas que acabam sendo penalizados por conta disso”, afirmou.

A mãe acredita que o colégio deveria tratar o assunto de forma direta com os alunos, especialmente para ajudar a formar meninos que se tornem homens que perpetuem práticas machistas.

“Para mim é uma regra que só reforça o machismo estrutural que existe na sociedade e que ainda traz tantos problemas e limitações para as mulheres. Eu penso em tirar minha filha de lá se essa regra não for revista”, declarou.

Procurado, o Colégio Sagrado Coração de Maria enviou uma nota em que diz ter consultado os responsáveis pelos alunos sobre a mudança, mas não explicou o motivo da limitação do uso de bermuda e short-saia pelas meninas.

“A diretora do Colégio Sagrado Coração de Maria de Vitória se reuniu com o grupo de pais, na tarde de ontem (15/02), para conversarem sobre a demanda das famílias, visando compreender a solicitação e buscar um consenso. Uma das premissas do Colégio Sagrado Coração de Maria de Vitória é manter um canal de diálogo aberto, respeitoso e fraterno com as famílias, promovendo melhorias e adequações sempre que possível. Em comum acordo, foi decidido adotar para 2022, como uniforme escolar feminino, a calça corsário (tactel), que está disponível para compra nas lojas credenciadas”, diz a nota da escola.

Colégio Sagrado Coração de Maria, em Vitória — Foto: Divulgação/Colégio Sagrado Coração de Maria
Colégio Sagrado Coração de Maria, em Vitória — Foto: Divulgação/Colégio Sagrado Coração de Maria

 

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