ES: documento aponta que sede da Polícia Civil foi ponto de encontro para suposta venda de sentença

A sede da Polícia Civil do Espírito Santo foi utilizada pelo ex-policial Hilário Frasson para se encontrar com alguns dos investigados no suposto esquema para a venda de uma sentença, de acordo com o Ministério Público. A reportagem é de Gabriela Ribeti, da TV Gazeta.

Era na sede da polícia que o ex-policial trabalhava no início de 2017. Ele era assessor do gabinete do chefe da Polícia Civil.

Segundo o Ministério Público, o local foi um dos pontos de encontro entre Hilário e o juiz Alexandre Farina durante a suposta negociação da venda de uma sentença. Farina e o também juiz Carlos Gutmann foram afastados das funções na última semana por conta da investigação. As defesas dos juízes negam que eles tenham cometido irregularidades.

Os documentos do Ministério Público mostram uma conversa no dia 7 de março de 2017 em que Alexandre Farina pediu um encontro com Hilário. De acordo com a interpretação dos diálogos feita pelo Ministério Público, o encontro era para falar sobre os pagamentos em troca da decisão judicial.

Hilário disse “passa na chefatura as 12:30. Vai vir conforme cronograma”. Farina confirmou o encontro: “tudo bem falamos amanhã na chefatura as 12:30”.

No dia seguinte, conforme as mensagens, os dois de fato se encontraram na portaria central da Chefatura de Polícia.

“15 minutos na portaria central”, disse Hilário a Farina, que respondeu com um “ok”. Às 12h23, Hilário avisou ao juiz: “Estou aqui”.

Algumas semanas depois, o magistrado e o ex-policial voltaram a marcar um novo encontro no local. No dia 29 de março, o juiz Alexandre Farina mandou mensagem: “Te encontro la na chefatura as 12h”. Hilário respondeu “ok”

As investigações do Ministério Público apontam que uma das parcelas supostamente pagas aos juízes teria sido quitada no dia 30 de março de 2017. O dinheiro teria sido trazido de Fundão, segundo o MP.

Não houve troca de mensagens entre Hilário e Valmir Pandolfi, o homem que teria feito a entrega do dinheiro. Mas o Ministério Público rastreou os registros das ligações telefônicas, pelas antenas de celular.

O homem que estaria com o dinheiro ligou às 11h55 para Hilário ainda na zona rural de Fundão. Às 15h56, ligou novamente na rua da sede da Polícia Civil, mesmo endereço onde estava o ex-policial.

Não há novos registros entre Valmir e Hilário neste dia, e as mensagens não deixam claro se o dinheiro da suposta propina teria entregue a Hilário na sede da Polícia Civil.

Procurada, a Polícia Civil destacou que Hilário não faz mais parte dos quadros da instituição, após ter sido expulso em condenação administrativa por infração disciplinar.

“A PCES reitera que trata com seriedade transgressões cometidas por integrantes da corporação e as atitudes do ex-servidor não condizem com as diretrizes da instituição, que trabalha justamente no sentido de colocar criminosos à disposição do poder Judiciário, para que paguem pelos seus atos”, diz parte da nota enviada pela Polícia Civil.

Hilário foi demitido em junho de 2020, mas a exoneração foi publicada no Diário Oficial apenas em setembro do ano passado. Até essa data, ele continuou recebendo salários do estado.

Hilário está preso, acusado de mandar matar a ex-mulher, a médica Milena Gottardi, em 2017.

O suposto esquema de venda de sentença foi descoberto durante as investigações do assassinato da médica. O esquema investigado não tem ligação com o assassinato.

A investigação do Ministério Público mostrou que dinheiro seria pago pelo empresário Eudes Cecato para que ele fosse beneficiado em um processo que tratava de questões imobiliárias.

O inquérito do Tribunal de Justiça revelou que o magistrado Alexandre Farina interferiu no julgamento de um processo, cuja sentença foi proferida pelo magistrado Carlos Gutmann.

As investigações levaram aos afastamentos dos juízes.

Hilário Frasson em janeiro de 2018

Hilário Frasson em janeiro de 2018

As conversas não falam em valores. A sentença do juiz Carlos Gutmann foi favorável ao empresário que o policial e o juiz tentaram ajudar, mas a decisão foi revertida em segunda instância pelo Tribunal de Justiça.

As defesas dos magistrados negam que eles tenham cometido irregularidades.

“A decisão do Tribunal Pleno foi uma surpresa para todos nós, tendo em vista que o inquérito visa apurar fatos de 2017 e que, portanto, não possuem contemporaneidade para uma medida tão drástica como uma cautelar penal. De toda sorte, como ainda não foi nos dado acesso e nem intimados, não temos condições de analisa lá de forma mais acurada, mas assim que uma coisa ou outra acontecer iremos tomas as medidas necessárias. O juiz Alexandre farina Lopes continua a disposição da Justiça capixaba, da mesma forma como sempre se portou nesses mais de 18 anos dedicados a magistratura, ou seja, com todo respeito necessário ao Tribunal de Justiça do Espírito Santo”, disse a defesa de Farina.

“A defesa de Carlos Alexandre Gutmann nega veementemente qualquer espécie de envolvimento do juiz com os graves fatos sob apuração. Ao lado da certeza de sua inocência pesam os dezoito anos de serviços prestados com reconhecida qualidade e incólume reputação. A defesa acredita que a Justiça chegará à verdade”, disse a defesa de Gutmann.

O advogado de Hilário Frasson no caso Milena Gottardi, Leonardo Gagno, afirmou que o ex-policial não foi notificado a respeito de uma suposta participação na venda de sentença. Na segunda-feira (19), Hilário prestou depoimento sobre o caso, mas o advogado disse que não foi informado e que vai encontrar Hilário ainda esta semana para ter acesso ao processo sobre a venda de sentença.

A reportagem busca contato com as defesas de Eudes Cecato e Valmir Pandolfi.

 

Sede da Polícia Civil do ES — Foto: Divulgação/Polícia Civil

Sede da Polícia Civil do ES — Foto: Divulgação/Polícia Civil


Leia mais

Leia também