ES: apesar de redução nos registros de feminicídio, casos de violência podem estar subnotificados

De acordo com a polícia, em cinco meses, foram registrados nove feminicídios. Entretanto, mais de duas mil medidas protetivas de urgência foram concedidas na Grande Vitória.

Por Aurélio de Freitas, G1 ES e TV Gazeta

De janeiro a maio deste ano, o Espírito Santo registrou nove casos de feminicídio. O número é menor se comparado ao mesmo período do ano passado, quando foram 13 registros. No entanto, a redução não indica que há menos violência contra a mulher.

Para autoridades, os casos de agressão, por exemplo, podem estar subnotificados – quando não são denunciados -, o que reforça a importância da atuação de vizinhos e testemunhas em uma situação de violência doméstica.

A delegada Claudia Dematte explica que a prova de que os casos continuam crescendo é que, no mesmo período deste ano, somente na região metropolitana, foram concedidas 2.169 medidas protetivas de urgência.

“Os estudos da ONU apontam que nesse período, em razão do isolamento social, infelizmente os casos de violência doméstica contra a mulher podem estar aumentando em âmbito mundial, e também no Brasil. O que não significa que esses casos chegam as autoridades policiais. A dificuldade da vítima em levar esses casos às autoridades pode, sim, indicar uma subnotificação”, explica Dematte.

Denúncia dos vizinhos

Vítima de violência, Cristiane Mendes foi salva por um vizinho, que acionou a polícia durante mais um episódio de agressões.

O caso aconteceu no início de 2018, quando ela ainda era constantemente agredida pelo marido, com quem foi casada por 12 anos.

“Quando os gritos de socorro cessaram, ele [o vizinho] deve ter pensado que eu tinha morrido, e chamou a polícia”, contou.

Mas, ao chegar na delegacia, Cristiane foi tratada como culpada, e não como vítima.

“O delegado que veio me atender para fazer a ocorrência disse: ‘O que você fez pra ele fazer isso com você?’. Ele tentou me colocar como culpada. Eu era a vítima, mas o delegado tentou fazer com que eu me sentisse culpada. Ele disse que não foi à toa que meu marido fez aquilo comigo. E ele [o marido] sentado a uma distância mínima, algemado, mas a uma distância mínima. E ele ameaçava: ‘Eu vou terminar o serviço, eu vou te matar’”, lembra a vítima.

O agressor chegou a ser preso, mas pagou fiança e foi solto. Hoje, Cristiane tem sequelas das agressões que sofreu por vários anos. Ela tem dificuldade para caminhar e toma 10 remédios por dia, entre analgésicos, antidepressivos e até morfina.

Salva pela intervenção do vizinho, ela destaca a importância de que testemunhas acionem a polícia.

“Em briga de marido e mulher, mete a colher, sim. Porque você pode salvar uma vida, como o vizinho salvou a minha”.

Outros casos

Somente nesta semana, dois casos de violência contra a mulher ganharam repercussão pela crueldade. No último sábado (13), em Cariacica, Celina Conceição Braz foi espancada até a morte pelo marido.

O proprietário da casa em que eles moravam recebeu ligações e mensagens de inquilinos reclamando do barulho da briga do casal. Ao ir até a casa, pela manhã, ele encontrou Rodrigo sentado na cama, ao lado do corpo da mulher.

Enquanto o dono do imóvel ligava para a polícia, Rodrigo tentou fugir, mas acabou preso.

Já no domingo (14), uma mulher de 25 anos pulou do segundo andar de um prédio, em Cariacica, para fugir de agressões do marido. Ela teve um bebê há menos de um mês.

A mulher e os filhos foram agredidos e feitos reféns durante o final de semana e sofreram ameaças de morte. Ao fugir, ela passou a noite escondida em uma área de matagal.

De acordo com ela, nenhum vizinho a ajudou ou chamou a polícia durante as agressões. O agressor conseguiu fugir e ainda não foi localizado pela polícia.

Secretaria lança cartilha orientativa

A Secretaria de Direitos Humanos (SEDH) lançou a cartilha “Orientações para realização do atendimento não-presencial às mulheres em situação de violência durante o período de isolamento social”.

O material foi elaborado pela Subsecretaria de Políticas para as Mulheres, em parceria com o Projeto de Extensão Formação em Dança (Fordan), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

O objetivo é propor uma referência para a prestação de serviço contínua e com qualidade às mulheres. A pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) impôs medidas, como o distanciamento social, sendo este o principal meio de contenção da propagação do vírus atualmente. Como consequência, muitos serviços de denúncia e orientação tiveram que adotar formas alternativas de execução para sua permanência.

CONFIRA A CARTILHA

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