Em 104 anos de história, pela primeira vez o futebol capixaba tem um jogo com um trio de arbitragem feminino

O futebol capixaba vivenciou um momento único no último sábado. A vitória do Vilavelhense por 1 a 0 diante do GEL, pela segunda rodada da Copa Espírito Santo 2021, no estádio Gil Bernardes, contou com o primeiro de arbitragem inteiramente feminino da história do futebol estadual. A reportagem especial é de Vitor Nicchio, do Globo Esporte.

O primeiro campeonato organizado pela Federação de Futebol do Estado do Espírito Santo (FES) aconteceu em 1917. Denominado, Campeonato da Cidade de Vitória de Futebol, o torneio já contava com a presença de clubes centenários como Rio Branco-ES e Vitória-ES. No entanto, o futebol profissional capixaba levou 104 temporadas para ter o trio formado por mulheres como Vanessa de Souza Guijansque (árbitra principal), Marcielly Netto (assistente 1) e Sandy Bergamaschi Teixeira (assistente 2).

A árbitra de campo, Vanessa Guijansque afirmou que o feito pode ser um divisor de águas para as mulheres no futebol do Espírito Santo.

– É um orgulho, uma honra, fazer parte desse pontapé inicial aqui no estado, acompanhada de uma grande responsabilidade de fazer bem feito e de representar a força feminina na arbitragem capixaba como nós mulheres merecemos – disse em entrevista.

Com participação na Série D do Campeonato Brasileiro 2021 e na A-2 do Brasileirão Feminino, Marcielly Netto é a profissional mais experiente entre as escaladas. Apesar de, por vezes, ter trabalhado ao lado de outras companheiras de profissão, ela nunca havia feito parte de um trio de arbitragem 100% feminino.

– Essas conquistas são frutos de muito trabalho, comprometimento, disciplina. E também de acreditar que tudo é possível, porque nunca alguém iria imaginar que um trio feminino iria comandar um jogo profissional de futebol aqui no estado. E com meninas do nosso estado. Acredito que isso é só o início de um novo ciclo. Daqui pra frente a tendência é as coisas estarem mais acessíveis para as mulheres.

A partida disputada entre GEL e Vilavelhense também marcou a presença de uma mulher no posto de árbitra principal pela primeira vez em quase 20 anos. O feito foi protagonizado pela árbitra Vanessa de Souza Guijansque.

O último jogo comandado por uma mulher havia sido em 18 de maio de 2002, em Castelo 3 x 0 Jaguaré, válido pela 12ª rodada da Série B do Estadual. Naquela oportunidade, a tia de Vanessa, Neide da Penha Guijansque, apitou acompanhada do irmão Robson Guijansque (assistente 1), do ex-marido Eutímio Pereira da Silva (assistente 2) e do sobrinho Rafael de Souza Guijansque (arbitro reserva).

Atualmente, aos 63 anos, a ex-árbitra CBF manifestou orgulho da sobrinha, única representante mulher da família nos gramados.

– Estou muito emocionada e deslumbrada. Minha sobrinha. Enxergo muita semelhança entre a gente. Vejo as fotos dela e até as fotos são muito parecidas com as minhas. Acho que ela até é melhor que eu. Eu era muito ruim em comunicação. Nunca fui boa em comunicação porque eu falo pelos cotovelos. A Vanessa é mais moderada, ela não é de falar demais como eu. Isso prejudica muito. Isso me prejudicou. – declarou.

Vanessa Guijansque fez seu primeiro curso de arbitragem com apenas 12 anos, mas não seguiu a carreira. A arbitra passou a integrar o quadro da Federação de Futebol do Espírito Santo (FES) somente no ano de 2019. Neide Guijansque falou sobre a crescente presença das mulheres como mediadoras no futebol masculino.

– Eu acho que a ideia de homem ter que apitar jogo de homem e mulher apitar jogo de mulher não existe. Profissional é profissional e acabou. Se o profissional é competente, se ele sabe trabalhar, ele tem que estar no masculino e no feminino. Não tem distinção. Quando a mulher vai jogar futebol a regra é diferente? A trave e a metragem do campo são diferentes? Não é! Então, se a árbitra estiver preparada fisicamente e psicologicamente, ela tem que trabalhar em qualquer jogo.

No futebol masculino, a nível profissional, Venessa Guijansque já atuou em sete jogos, sendo cinco como quarta árbitra, um como assistente 2 e agora, enfim, um como árbitra principal. O grande nome do espetáculo falou sobre o período sem mulheres na função de maior destaque da arbitragem.

– Vinte anos é muita coisa. Tenho certeza que dentro desse vasto período, muitas mulheres tiveram o interesse de entrar dentro da arbitragem capixaba e não tiveram coragem ou duvidaram das suas capacidades. A oportunidade tem sido dada, não só na arbitragem mas também em outras esferas do esporte. É momento de segurar essa ascensão com garra e, realmente, fazer valer o nosso espaço. Não é sobre lutar por espaço. Ele já é nosso. Temos que fazer valer e que ele seja reconhecido.

 

Marcielly Netto, assistente capixaba — Foto: Henrique Montovanelli/FES

Marcielly Netto, assistente capixaba — Foto: Henrique Montovanelli/FES

Neide Gujansque durante uma partida no estádio Emilio Nemer, em Castelo — Foto: Arquivo Pessoal

Neide Gujansque durante uma partida no estádio Emilio Nemer, em Castelo — Foto: Arquivo Pessoal

Vanessa de Souza Guijansque, árbitra capixaba — Foto: Henrique Montovanelli/FES

Vanessa de Souza Guijansque, árbitra capixaba — Foto: Henrique Montovanelli/FES

Sandy Bergamaschi Teixeira, assistente capixaba — Foto: Henrique Montovanelli/FES

Sandy Bergamaschi Teixeira, assistente capixaba — Foto: Henrique Montovanelli/FES