‘É possível alternativa de esquerda nos EUA’, diz Jana Silverman


Opera Mundi – No programa 20 MINUTOS INTERNACIONAL desta quinta-feira (29/07), o jornalista Breno Altman entrevistou Jana Silverman, uma das coordenadoras do Comitê Internacional Democratic Socialists of America (DSA), sobre a esquerda e o movimento sindical nos Estados Unidos.

A DSA é a maior organização de esquerda dos EUA abertamente socialista. Dela formam parte Bernie Sanders e quatro deputados do Partido Democrata, como Alexandria Ocasio-Cortez, além de membros de diversas assembleias estaduais.

“É uma coisa inédita no país ter parlamentares eleitos abertamente socialistas, porque a Guerra Fria teve um impacto muito forte na esquerda. Temos uma estrutura muito parecida à de um partido, com correntes próprias e ideologia, só não chamamos de partido porque não temos uma legenda eleitoral”, explicou Silverman.

A ideia é que o DSA eventualmente se torne um partido, “o problema é o sistema eleitoral e o financiamento das campanhas, em que o Caixa Dois está totalmente liberado”. Por isso, enquanto não se realiza uma reforma política no país, a estratégia do Comitê é disputar primárias no Partido Democrata para poder eleger candidatos. 

“No momento estamos no estágio de arrecadar apoio e filiados, fazer trabalho de base e mostrar que é possível uma alternativa de esquerda”, ressaltou.

Paralelamente, a organização luta a nível nacional, já que está presente em todos os estados do país, pela realização de algumas reformas que julga necessárias, principalmente a trabalhista. 

Os democratas estão buscando aprovar o PRO Act, um projeto de lei que fortalece o movimento sindical e os trabalhadores, mas que encontra resistência no Senado por parte de alas mais conservadoras da legenda. 

PRO Act e luta sindical

“A representação sindical aqui funciona de uma maneira muito particular. Os sindicatos são de cada empresa, podemos ter por ramos profissionais e com representação, mas a negociação só acontece a nível da empresa. Por exemplo, negociam todos os sindicatos de trabalhadores da General Motors do país, mas a negociação só vale para os funcionários da GM, não para todos os trabalhadores do setor automobilístico. Além disso, para poder ter representação sindical, é preciso ter uma eleição em que 50% mais um dos trabalhadores decidam a favor da representação”, detalhou a dirigente.

O PRO Act visa mudar esse aspecto, permitindo que os trabalhadores se organizem de outras formas, que trabalhadores do mesmo ramo, mas de diferentes empresas, possam se apoiar, mas sem introduzir os sindicatos por ramo de trabalho ou o dissídio coletivo: “Seria uma briga muito grande”.

O projeto de lei também proíbe que os patrões façam palestras contra os sindicatos, desencorajando os trabalhadores a se organizar, como é comum; facilita que funcionários demitidos por realizar atos ligados ao sindicato tenham acesso a serviços jurídicos; multa empresas com más condutas trabalhistas; entre outras coisas.

O PRO Act já foi aprovado na Câmara dos Deputados, falta ser aprovado no Senado, onde o presidente só colocará a votação em pauta se houver unanimidade entre os senadores democratas. De momento, dois resistem ao projeto de lei.

O presidente do país, Joe Biden, já se manifestou publicamente várias vezes a favor do ato e está contribuindo para pressionar os dois senadores que faltam. “E nós estamos ligando constantemente para eles, no sistema de disque direto que existe para falar com os nossos representantes eleitos”, reforçou Silverman.

Governo Biden

Relacionado à postura de Biden com o PRO Act, a dirigente avaliou o novo presidente estadunidense — que não foi apoiado pelo DSA. 

“O nosso candidato era Bernie Sanders. Claro que éramos contra Trump, mas não quisemos apoiar Biden diretamente porque sabia que, uma vez eleito, teríamos discordâncias, principalmente com relação à política externa, então não queríamos dar a impressão de que estávamos dando carta branca a ele”, discorreu.

Para ela, que coordena o setor voltado para América Latina no DSA, Biden é muito semelhante a Trump no que diz respeito à política externa: “Trump queria ficar fora das instituições internacionais, Biden voltou a abraçá-las, mas abraçando não só a ONU, mas a OTAN e a OEA. O projeto é igual. A diferença é mais na forma. No fundo, são iguais”.

Silverman ressaltou que não deve ser o papel dos EUA, mas muito menos da esquerda, interferir militarmente em assuntos da América Latina ou taxar os governo da Venezuela ou de Cuba como sendo ditatoriais: “O nosso papel não é criticar o sistema político da Venezuela ou de Cuba, nosso papel é acabar com as sanções e o bloqueio, respectivamente. Porque qualquer outra dinâmica de governo que possa se desenvolver só vai ter condições de se manifestar se não houver o bloqueio estrangulando a população”.

Do ponto de vista da política interna, por outro lado, “Biden é mais progressista do que a gente imaginava”. 

A dirigente elogiou a percepção de Biden de adotar políticas de infraestrutura e voltadas à classe trabalhadora como forma de fortalecer o Estado, “porque Trump dizia que o Estado não servia para nada”.

“Ele quer implementar políticas domésticas bem progressistas, e isso tá gerando um conflito no Congresso entre a ala conservadora do Partido Democrata, que na verdade é de direita. Então, apesar das intenções dele, ele não vai conseguir implementar muita coisa se não realizar uma reforma política e mudar as regras do jogo”, enfatizou Silverman.