Dia do Administrador Hospitalar: “Não é uma profissão das mais simples, mas quando se consegue enxergar o resultado, é muito gratificante”, diz diretor do HSM

Nesta terça-feira (14), data em que se comemora o Dia de São Camilo de Lellis, é celebrado, também, o Dia do Administrador Hospitalar.

Há sete anos como diretor administrativo do Hospital São Marcos, em Nova Venécia, Alessandro Prado Aguilera falou para a Rede Notícia sobre as principais conquistas e desafios para chegar até aqui e como está sendo gerir a unidade durante a pandemia do novo coronavírus. Confira:

Como começou sua carreira? Há quanto tempo você é Administrador Hospitalar?
“Eu me formei em administração hospitalar há 13 anos, mas já trabalho em hospitais há 16 anos. Nasci em São Paulo e quando tinha 9 anos, meus pais decidiram ir embora para a o interior para ficarem mais perto dos meus avós. Então, quando concluí o ensino médio, decidi voltar a capital para estudar, fazer faculdade. Meus pais não tinham condições de me manter lá por muito tempo, então tinha que arrumar emprego logo. No segundo ano de faculdade, fui selecionado a participar de um processo seletivo para um programa de trainee, chamado Novo Talento, do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), em parceria com a universidade. Entre os participantes, acabei sendo selecionado. Era um programa de estágio”.


Então pelo visto as coisas não foram fáceis? Como fazia no dia a dia?
“Não muito. Quando voltei a São Paulo, morei algum tempo com um tio até ter condições de arrumar alguma coisa, algum local mais em conta e também um emprego. Logo, um amigo meu de infância também decidiu largar a Engenharia Civil e ir fazer Administração Hospitalar na capital. Meu tio acolheu ele também durante algum tempo e logo decidimos ir para uma kitnet que ficava há 14 quadras da faculdade, no bairro da Lapa, em São Paulo. Não conseguimos mais perto que tivéssemos condição de bancar. Era um quarto pequeno, tinha TV, duas camas e um banheiro, não tinha geladeira, fogão ou algo do tipo, então íamos para faculdade a pé e o dinheiro que meus pais me davam para o ônibus, eu comprava um lanche no intervalo das aulas para poder jantar. Comi muito Clube Social nessa época e depois nunca mais quis saber. Não comi mais. Depois, com os contatos que fomos fazendo na sala de aula, conseguimos mais alguns colegas e fomos morar em um apartamento de dois quartos há cinco, seis quadras da universidade. Morávamos em seis estudantes. Como o imóvel era antigo, um dos quartos era grande. Nos virávamos. Um trouxe uma TV, outro uma geladeira, o outro um fogão. O ruim era que só tinha um banheiro. Depois de seis meses que estava na faculdade, descobrimos que meu pai estava com câncer de pele em algumas partes do corpo e iria precisar parar de trabalhar e ficar em tratamento por algum tempo no Hospital de Câncer de Barretos (hoje, Hospital do Amor), que é um hospital filantrópico referência para esse tipo de tratamento no país. Ele só voltava aos finais de semana para casa quando tinha folga no tratamento. Então, eu tinha que conseguir logo alguma coisa para poder me manter na capital. Foi aí que surgiu o programa de estágio do IBCC. Naquela época, era complicado, pois estagiário não tinha férias, 13º salário, então, quando fui selecionado passei a ganhar R$ 500por mês lá e fui alocado no setor de manutenção e engenharia clínica do hospital. Usava esse dinheiro para pagar os passes de metrô e ônibus que tinha que comprar para poder ir e voltar todo dia. Só usava o apartamento para comer algo rápido quando chegava das aulas mesmo, tomar um banho e dormir. Mas as despesas ainda assim eram pesadas para mim e minha mãe. Com meu pai em tratamento, minha mãe foi vender pano de prato de porta em porta para me ajudar a me manter lá. Esse período foi uma “escola” importante para minha vida. Meu pai ficou em tratamento por dois anos lá e, Graças a Deus, se curou. Depois de quase 18 meses no IBCC como estagiário, fui convidado a trabalhar no Hospital São Camilo – Unidade Santana. Nesse tempo, rodei trabalhando entre as unidades da empresa na cidade de São Paulo, mas fiquei a maior parte do tempo na unidade de Santana até concluir a minha graduação. Aí decidi ir embora”.


E como chegou ao HSM? Há quanto tempo está aqui? Conhecia o estado?
“Quando decidi ir embora de São Paulo, recebi algumas propostas de trabalho, entre elas eu tinha um amigo de universidade que estava trabalhando em uma cidade chamada Castro, no Paraná. Ele disse que o hospital lá, que era gerido pela São Camilo, estava precisando de alguém para ser assistente administrativo em um processo de reestruturação. Entrei em um ônibus em um final de semana e fui para lá. Fiz a entrevista na segunda-feira e gostaram de mim. Fiquei quase três anos nessa cidade, fiz grandes amigos por lá. Depois me surgiram outras oportunidades por lá, já como administrador hospitalar, e acabei morando e conhecendo diversas regiões desse Estado. Fiquei seis anos e meio por lá, até que em um determinado dia, recebi uma ligação da São Camilo, onde me convidaram para vir para Nova Venécia. Assim, já se passaram sete anos. Não conhecia nada daqui. Tive que estudar”.


Como é o dia a dia de um administrador hospitalar?
“Não é uma profissão das mais simples, mas quando consegue enxergar o resultado do trabalho, quando começa a atingir objetivos, quando os indicadores te apresentam uma mudança desejada, quando seus pacientes e equipe de colaboradores começam a usufruir do que você, junto com o time, implantou, é muito gratificante. Eu diria que 85%, 90% do seu tempo, é destinado a planejamento, análises dos diversos cenários existentes, estudando-os, e 10%, 15% tomando decisões, junto a sua equipe. Temos a obrigação de avaliar diariamente diversos indicadores, que são qualitativos e quantitativos, e assim, realizamos os ajustes necessários. É você que tem a obrigação de conduzir a instituição para o futuro, da melhor maneira possível, entregando valor aos seus pacientes, dentro dos cenários existentes e quase sempre em situações adversas. Não é fácil fazer isso no Brasil. É um desafio grande, do tamanho dessa profissão.”


Quais foram suas principais conquistas desde que assumiu o HSM?
“Posso citar algumas: a viabilização do HSM economicamente, visto a situação delicadíssima que estávamos enfrentando na época, correndo risco real de inviabilização da instituição. A construção de um trabalho que nos possibilitou aumento dos serviços prestados e, consequentemente, aumento dos repasses de recursos, além de novos contratos, onde atendíamos uma média de 2.200 pessoas por mês e passamos a atender uma média de 5.200/mês, de acordo com números de janeiro de 2020. Passamos a trabalhar com um serviço de anestesiologista 24 horas por dia, para dar suporte e segurança aos cirurgiões eletivos e à obstetrícia, que se consolidou com a vinda do nosso excelente anestesiologista, o Dr. Igor, integrando a equipe, nos possibilitando aumentar bem o número de cirurgias realizadas em diversas especialidades. A implantação de um serviço de equipe médica de rotina, incluindo a ala pediátrica, com a vinda da nossa pediatra, a Drª Aline, para compor a equipe existente, onde antes os profissionais médicos do Pronto Socorro ficavam responsáveis por passarem as visitas médicas para evolução dos pacientes, o que gerava diversos transtornos. Os atendimentos em saúde mental, com uma equipe formidável de trabalho, com nutricionista, farmacêuticos, psicólogo, psiquiatra, assistente social, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Aliás, o HSM foi o segundo hospital do estado a conseguir o credenciamento deste serviço junto ao Ministério da Saúde, depois de quase dois anos de trabalho e a quebra de diversos paradigmas. Hoje, somos modelo para outras instituições que nos procuram para realização de benchmarking (análise estratégica das melhores práticas usadas por empresas do mesmo setor que o seu), nessa ala. Conseguimos outro contrato importantíssimo com o Ministério da Saúde, por fazermos parte da Rede de Urgência e Emergência (RUE), do Estado, que foram os leitos de retaguarda para pacientes que estão em recuperação, após procedimentos de alto risco, que são realizados em hospitais regionais, onde desafogamos essas instituições, além de deixar o paciente mais perto de casa, em um ambiente mais tranquilo, o que é fundamental para sua recuperação. A viabilização do novo Centro de Diagnóstico por Imagem (CDI), onde hoje temos um ambiente adequado, confortável, bem estruturado, com equipamentos novos, com tecnologia atual, para uso de todos os nossos pacientes, possibilitando, assim, uma melhor condição de fechamento de diagnóstico ao profissional médico junto ao seu paciente, com exames de ultrassonografia 4D, tomografia, raios X, mamografia, entre outros. Não podemos esquecer de nossa Clínica São Camilo, incluindo um Centro Oftalmológico completo. Uma clínica de especialidades médicas ambulatoriais eletivas, que também foi possível nesse período, nos dando condição de termos, hoje, mais de 15 especialistas médicos, de diversas áreas de atuação, dando a opção de nosso paciente de ter dentro de nossa cidade a possibilidade desses atendimentos. Além da revitalização de diversas áreas físicas por todo o hospital, aquisição de novos equipamentos, obras e reformas que estão sendo realizadas constantemente para proporcionarmos um melhor ambiente de trabalho para nossos profissionais e, consequentemente, um melhor ambiente para nosso paciente. Isso tudo só é possível com um engajamento grande entre colaboradores, profissionais médicos e ente público”.


Quais os principais desafios futuros
“O processo de melhoria é contínuo. Não gosto muito de falar de futuro, pois fica parecendo promessa e só conseguimos fazer promessas daquilo que cabe somente a nós. Um ambiente hospitalar é composto por diversas variáveis. Peculiaridades que só vemos nessa área. O que posso afirmar é que temos sonhos, anseios. Quando conquistamos algo, já miramos para outro objetivo e nossa equipe sabe onde queremos chegar. Não faltará dedicação e empenho para vermos nosso hospital melhor a cada ano que passar. Meu filho nasceu aqui, no dia de São Marcos. Minha família, que construí em Nova Venécia, é usuária do hospital. Eu sou usuário dos serviços do Hospital São Marcos. Então, não faltará”.


Como está sendo administrar a unidade durante essa pandemia?
“Não tem sido fácil, como não tem sido fácil para as famílias que perderam seus entes queridos, acometidos pela doença. Perdemos familiares de nossos colaboradores, perdemos ex-colegas de trabalho e não podemos parar, pois as pessoas precisam de nós todos os dias, o tempo todo. É um momento que, particularmente, não acreditava que viveria. Fomos muito afetados e agora estamos única e exclusivamente dedicados a nos mantermos firmes diante das adversidades que continuam e ainda não tem data para acabar. Essa doença nos lembra a lógica do Cisne Negro, do escritor Nassim N. Taleb, onde até a descoberta da Austrália, acreditava-se que todos os cisnes eram brancos. Afinal, ninguém nunca tinha visto um cisne negro. No entanto, eles existem. Ninguém estava preparado para isso como deveria estar, infelizmente, mas vai passar e acredito que tiraremos lições importantes disso tudo, além de nos tornarmos ainda mais fortes”.

Reportagem: Jhon Martins – redenoticiaes

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