Dia da Consciência Negra: conheça os capixabas que constroem Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra no Espírito Santo

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Amigos perdidos para o tráfico, assassinatos, tiroteios, balas perdidas, preconceito, violência policial, falta de oportunidades e luta por mais direitos para os jovens negros. Esses são alguns pontos em comum na história de participantes e organizadores da Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra do Espírito Santo, que acontece todos os anos em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. A reportagem especial é de Fabiana Oliveira, do g1 ES.

De acordo com dados do último Atlas da Violência, a chance de uma pessoa negra ser assassinada no Brasil é 2,6 vezes superior àquela de uma pessoa não negra. A taxa de homicídios por 100 mil habitantes negros no Brasil, em 2019, foi de 29,2, enquanto a da soma dos amarelos, brancos e indígenas foi de 11,2. No Espírito Santo, essa taxa é de 35,7.

De acordo com a pesquisa, os negros representaram 77% das vítimas de assassinato no país em 2019. No Espírito Santo, os negros representam 89% das vítimas.

A marcha é realizada em Vitória e conta com a participação de jovens de vários movimentos sociais. O principal deles é o Fórum Estadual da Juventude Negra do Espírito (Fejunes), integrado por jovens de vários municípios, principalmente da Grande Vitória.

Um dos integrantes da Comissão de Estrutura da Marcha é Ramon Matheus dos Santos e Silva, 23 de anos. Universitário e diretor do Fejunes, ele é morador de Nova Betânia, em Viana e foi criado no bairro Central Carapina, Serra.

Desde muito cedo, Ramon viu a violência de perto. Depois de mudar de Central Carapina com a família quando tinha 10 anos, ele continuou frequentando o bairro porque tem familiares na região. Aos 13 anos, ele foi vítima de uma bala perdida na cabeça durante um tiroteio no bairro.

“Conheci muito cedo o que é ser um jovem negro morando em região periférica, o quanto nossos corpos estão em risco e muitas vezes somos alvos de balas perdidas. Esse acontecimento me fez dialogar muito com isso. Isso mostrou que a violência atinge nossas vidas e consequentemente vi várias pessoas morrendo. Vi amizades, pessoas próximas sendo assassinadas”, contou.

 Ramon Matheus dos Santos e Silva participa da organização da Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra no ES — Foto: Arquivo Pessoal

Ramon Matheus dos Santos e Silva participa da organização da Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra no ES — Foto: Arquivo Pessoal

Ramon também é presidente do Conselho Estadual da Juventude. Mesmo com a vida marcada pela violência e ausência dos direitos sociais, ele sempre manteve o sorriso no rosto, porque – apesar de tudo – sempre esteve em contato com manifestações culturais em Central Carapina e Nova Betânia.

“Eu gosto de sorrir. Eu vivi uma coisa muito bonita em Central Carapina e em Nova Betânia. Em Central, lembro de muitos projetos sociais, muitas manifestações culturais. Era esse dualismo entre a violência e outras formas de representar o bairro. Você tenta ressignificar isso e trazer a felicidade com você”, disse.

Vizinha de Ramon, a estudante de educação física Drica Coelho, de 25 anos, é outra jovem envolvida na organização da marcha e vai participar este ano pela primeira vez presencialmente. Em 2020, por causa da pandemia, ela não foi, mas acompanhou pela internet.

“No momento que estamos vivendo é bom sairmos pra lutar por um direito que é nosso. Ainda mais o direito de viver. O Espírito Santo tem registrado muitos assassinatos de jovens negros. Enquanto estiverem matando os nossos, a gente vai lutar e sair nas ruas”, disse.

Drica Coelho é moradora de Viana, ES, e vai participar pela primeira vez da Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra — Foto: Arquivo Pessoal

Drica Coelho é moradora de Viana, ES, e vai participar pela primeira vez da Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra — Foto: Arquivo Pessoal

Júlia D’lyra de 19 anos é diretora do Núcleo do Fejunes em Vila Velha. Ela é moradora de Terra Vermelha, educadora social, poeta e escritora. Ela contou que sempre esteve envolvida em vários movimentos sociais e, este ano, também vai participar da marcha pela primeira. Desde cedo, ela vê de perto as dificuldades enfrentadas pelos jovens da região onde nasceu e foi criada.

“As meninas ficavam grávidas e saíam da escola para cuidar dos seus filhos. Vi muitos meninos abandonarem os estudos para entrar no mundo do crime também”, disse.

Juh D'lyra é moradora da Grande Terra Vermelha e participa da organização da Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra no ES — Foto: Arquivo Pessoal

Juh D’lyra é moradora da Grande Terra Vermelha e participa da organização da Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra no ES — Foto: Arquivo Pessoal

Para a jovem, a violência policial também impacta de forma muito negativa a vida e o comportamento dos jovens.

“Às vezes, só andando na rua a gente leva batida. São diversos casos. Tenho amigos que até hoje são tão traumatizados que ouvem o som de uma sirene e param de tão nervosos que ficam. São situações que muitas vezes pensam que não mas traumatizam muito”, contou.

Ato contra o extermínio da juventude negra no ES em 2018 — Foto: Naiara Arpini/G1

Ato contra o extermínio da juventude negra no ES em 2018 — Foto: Naiara Arpini/G1

A Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra teve início em 2007, com o Primeiro Encontro Nacional de Juventude Negra, em Lauro de Freitas, na Bahia.

O encontro influenciou a criação de vários fóruns de juventude negra pelo Brasil e fez surgir o Fórum Estadual de Juventude Negra do Espírito Santo (Fejunes).

A pauta principal dos encontros é o alto índice de violência contra a juventude negra do Brasil. E isso é denunciado na marcha, além de serem cobradas medidas para reverter esse quadro.

Este ano, em sua 14ª edição, o tema da marcha é “Por todo e qualquer meio necessário”, frase utilizada pelo ativista norte-americano Malcon-X em seus discursos contra o racismo. Para a organização, o tema deste ano é uma forma de afirmar que são necessárias todas as formas de políticas públicas para vencer as mazelas causadas pelas desigualdades raciais.

Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra será encerrada na Praça do bairro Itararé, na região do Território do Bem, Vitória

Marcha Estadual Contra o Extermínio da Juventude Negra será encerrada na Praça do bairro Itararé, na região do Território do Bem, Vitória

Diferente de anos anteriores, a 14ª edição da marcha terá um trajeto diferente em 2021. Realizada tradicionalmente no Centro de Vitória, este ano a marcha será realizada na região do Território do Bem que compreende os bairros São Benedito, Bairro da Penha, Bonfim, Itararé, Consolação, Gurigica, Jaburu, Floresta e Engenharia.

A mudança, de acordo com o presidente do Fórum Estadual da Juventude Negra do Espírito (Fejunes), Filipe Gutemberg Costa Lima, de 22 anos, foi para estar mais perto daqueles que vivem a vivenciam a violência diariamente e também em razão da crescente onda de violência que vem atingido os bairros da região.

“Vitória, se a gente for olhar o mapa, é uma cidade segredada .São comunidades compostas majoritariamente por pessoas negras. O local do extermínio e da desigualdade social é onde as pessoas vivem. Levar a marcha para o Território do Bem é debater a violência onde ela acontece”, disse.

Filipe Gutemberg é presidente do Fejunes e participa da organização da Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra — Foto: Arquivo Pessoal

Filipe Gutemberg é presidente do Fejunes e participa da organização da Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra — Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com ele, o objetivo da marcha também é levantar outras questões como, a fome, a informalidade, dificuldade de ingressar no mercado de trabalho e as mortes por Covid-19 entre moradores dessas regiões, principalmente negros.

Filipe é universitário e morador do bairro Goiabeiras e veio de sua terra natal, no Pará, para o estado há quatro anos em busca de uma oportunidade de emprego.

“Perdi muitos amigos vítimas da criminalidade e saí de casa com 17 anos para tentar a vida aqui”, contou.

No último ano, a marcha não percorreu as ruas. Aconteceu em forma de um ato realizado em frente ao Palácio Anchieta, sede do Governo no Espírito Santo.

Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra em 2020 no ES — Foto: Arquivo Pessoal

Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra em 2020 no ES — Foto: Arquivo Pessoal

 

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