Desmatamento faz com que municípios da região amazônica liderem a emissão de gases do efeito estufa no País

Entre os dez municípios que mais emitem gases de efeito estufa (GEE) no Brasil, sete estão na região amazônica. Em 2018, essas cidades lançaram, juntas, 172 milhões de toneladas brutas de gás carbônico equivalente (CO2e). Os dados fazem parte do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), realizado pelo Observatório do Clima. 
 
O levantamento compilou dados dos 5.570 municípios brasileiros entre 2010 e 2018, associando-os aos setores de energia, transporte, indústria, agropecuária, tratamento de resíduos e mudanças de uso da terra e florestas.
 
Os dados demonstram que os mais altos índices de emissões se concentram em municípios que contribuem muito pouco para o PIB e onde vivem poucos habitantes. No top 10 dos mais emissores, sete estão ligados a ações de desmatamento na Amazônia. 
 

 
A pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) Bárbara Zimbres analisou a colocação dos municípios e apontou onde a situação é mais grave. “No que a gente chama de novo arco do desmatamento, que se estende ali por Rondônia, sul do Amazonas e Pará. Essas mudanças são relacionadas a alteração de uso da terra. Tem um componente menor sempre ali diretamente proporcional a área desmatada e associada ao desmatamento, que são as emissões causadas pela queima de resíduos florestais”, explicou.

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São Félix do Xingu, no Pará, é o campeão, cuja emissão é de 29,7 milhões de toneladas de CO2e. Se divididas por habitantes, a média de emissões per capita do município paraense assusta. Cada morador emite 225 toneladas de CO2e por ano, número quase 22 vezes maior do que a média per capita do Brasil e 12 vezes superior ao dos norte-americanos.  
 
Apesar do desmatamento figurar como protagonista dentre os maiores emissores do País, uma análise nacional ampla do SEEG Municípios mostra que o setor dominante nas cidades é a agropecuária. Em 65,8% dos municípios do Brasil, as atividades ligadas ao gado lideram as emissões de gases de efeito estufa.
 

 
Para a professora do Centro Universitário de Brasília (CEUB) mestre em Desenvolvimento Sustentável, Lilian Rocha, as políticas públicas ambientais atuais não têm surtido efeito. Por isso, os municípios deveriam trabalhar no sentido de intensificar ações de controle da emissão desses gases. “A multa e a fiscalização inibem esse comportamento e, consequentemente, forçam o produtor rural e o desmatador a uma mudança de comportamento”, afirmou a especialista. 
 
A ideia do levantamento é que as estimativas de emissões se tornem um guia para que os gestores municipais possam atuar de maneira mais direcionada, como um ponto de apoio na elaboração de estudos e políticas públicas, aliadas a ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Prefeitos pelo Clima 

O Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e a Energia, que conta com a coordenação da Associação Brasileira dos Municípios (AMB), reconhece que os governos locais são os atores fundamentais para que seja cumprida a meta estabelecida pelo Acordo de Paris.
 
O tratado é um compromisso mundial assinado por 195 países no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC), que rege medidas de redução de emissão de gases de efeito estufa a partir de 2020. O objetivo é conter o aumento do aquecimento global em 1,5°C, reforçando a capacidade dos países de se desenvolverem em um contexto sustentável.
 
Para o ambientalista Charles Dayler, a iniciativa do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa realizada pelo Observatório do Clima pode tornar o trabalho de combate às mudanças climáticas mais efetivo. “É uma forma de pegar a ponta do processo, que são os prefeitos dos municípios. Eles operacionalizam a grande maioria das políticas públicas”, pontuou.
 

Desmatamento. Foto: Agência Brasil.

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