Desastre ambiental: 6 anos após rompimento de barragem, pesca continua proibida na foz do Rio Doce • SiteBarra

Desastre ambiental: 6 anos após rompimento de barragem, pesca continua proibida na foz do Rio Doce

Por Eduardo Dias, TV Gazeta

Há exatos seis anos, no dia 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem da Samarco, em Minas Gerais, matou 19 pessoas e despejou 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério no Rio Doce. Esse foi considerado o maior desastre ambiental na história do país.

A lama desceu pelo rio, atingiu várias cidades, chegou na foz do Doce e atingiu o mar no Espírito Santo, na localidade de Regência, em Linhares, 16 dias depois do rompimento. Lá, os pescadores seguem proibidos de pescar.

Por mais de 30 anos, a bordo do barco “Atlandida”, Leone sustentou uma família com nove filhos. A embarcação está abandonada desde 2015, quando a lama chegou e a pesca foi proibida.

“A gente tinha uma vida tranquila, pescava na maior tranquilidade. Ia para o mar, para o rio… pescar sem proibição. Os barcos estão abandonados. Faz seis anos que eu não vou no rio para pegar um peixe”, lamentou Leone Carlos, presidente da Associação de Pescadores de Regência.

Em meio a esse impasse, quem vivia da pesca se preocupa com o futuro. “Seis anos que o pescador está sofrendo, vivendo de um cartão. Você não pode nem pescar, nem comer e nem vender. Isso é muito triste para o pescador profissional que vive da pesca”, contou Leone Carlos.

Lama da barragem da Samarco percorreu o Rio Doce até a foz, que fica na localidade de Regência, em Linhares

Lama da barragem da Samarco percorreu o Rio Doce até a foz, que fica na localidade de Regência, em Linhares

Pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) afirmam que a água e os peixes do rio ainda estão contaminados por metais pesados.

“Os nossos estudos têm mostrado que, desde o início dos impactos, essa foz do Rio Doce continua bem contaminada com rejeitos”, afirma Ângelo Bernardino, professor e pesquisador da Ufes .

De acordo com o médico Rafael Hagashi, esses metais se acumulam no corpo humano e a ingestão pode causar doenças.

“Como esses metais tóxicos são bioacumulativos. Eles não são eliminados por completo e têm uma alta afinidade pelo nosso tecido celular. O mercúrio, por exemplo, com o cérebro, o chumbo com as artérias, o cádmio com os rins. Cada metal pesado têm sua afinidade com aquele tecido, e quanto mais tempo exposto, há maior chance de doenças”, explicou Hagashi.

Atualmente, os moradores afetados pela lama recebem um auxílio financeiro da Fundação Renova, entidade criada para reparar os danos causados pelo rompimento da barragem. A fundação também faz o monitoramento da qualidade da água.

Barcos abandonados por conta da proibição da pesca fazem parte da paisagem de Regência, em Linhares.

Barcos abandonados por conta da proibição da pesca fazem parte da paisagem de Regência, em Linhares.

Procurada, a Fundação Renova declarou que criou um programa de monitoramento da qualidade da água do Rio Doce em agosto de 2017 e que tem uma base de dados dos últimos quatro anos.

Segundo a fundação, o programa água e sedimento em 92 pontos de monitoramento. As amostras são enviadas para análise em laboratório certificado pelo Inmetro e os resultados das análises são disponibilizadas em um site, que conta com uma base de 1,5 milhão de dados produzidos por ano.

“Toda essa base de dados já demonstra pra gente uma recuperação do Rio Doce frente ao que aconteceu há seis anos, no rompimento da barragem de Fundão, onde a gente teve uma alteração de qualidade da água. […] Então hoje a gente vê uma qualidade da água numa condição muito similar ao que era antes do rompimento, e ela está em condições de ser tratada, após o tratamento convencional e ser consumida pela população”, afirmou a coordenadora do programa socioambiental da Fundação Renova, Brígida Maioli.

Questionada se a água já é própria para banho, a representante da Fundação Renova disse que “em relação à balneabilidade da água, qualidade da água tem que ser monitorada pelos aspectos de saneamento, ou seja ,se há uma contaminação por coliformes fecais na água” e que “esse monitoramento não faz parte do monitoramento da Fundação Renova”, já que “o monitoramento da balneabilidade é do poder público”.

Os pesquisadores entendem que só o monitoramento feito pela fundação não é suficiente e pedem ações efetivas para recuperar o rio.

“Existem soluções baseadas na natureza, soluções de plantas macrófitas aquáticas [plantas aquáticas que podem ser vistas a olho nu] para remover, mais rapidamente, esses metais. Existem soluções que estão sendo feitas lá na bacia, em Minas Gerais, a dragagem, que é a remoção direta desses rejeitos do rio. Nenhuma solução efetiva foi adotada aqui no Espírito Santo, principalmente na foz, onde está o estuário”, considerou Bernardino.

Já a Fundação Renova afirmou que “sabe que um dos grandes problemas da bacia do Rio Doce” e que “a Fundação Renova tem um programa compensatório que vai disponibilizar R$ 600 milhões nos 39 municípios impactados para ações voltadas para o saneamento”. Segundo a entidade, essas ações “já foram concluídas em três municípios e outros municípios estão com obras em andamento, como é o caso de Linhares”, onde fica a foz do Rio Doce, no distrito de Regência.

Com a pesca proibida há seis anos, pescadores da vila de Regência dependem de auxílio financeiro para sustentarem as famílias.

Com a pesca proibida há seis anos, pescadores da vila de Regência dependem de auxílio financeiro para sustentarem as famílias.